"Em anos anteriores, nos
preparamos para várias epidemias, mas nada como agora. O que estamos vivendo é
diferente. Isso resulta em um nível de estresse imensurável" (Joana D'arc
Gonçalves, infectologista do Hran)
O lado humano da luta. Em meio ao
combate contra o novo coronavírus, o Correio destaca histórias de pessoas que
enfrentam essa doença. Pacientes, enfermeiros e médicos relatam o drama que
está por trás das estatísticas da covid-19
Por trás de cada número do novo coronavírus, existem várias vidas, dramas, tragédias e vitórias. Uma pessoa infectada gera sentimentos de angústia e preocupação em familiares e amigos, e mobiliza os cuidados e atenções de diferentes profissionais de saúde, que também sentem o peso emocional de encarar a doença. Com a crescente curva de casos sobre contaminados e falecidos pela covid-19, aumenta também a pressão de quem convive diariamente com esses riscos. “Sentimos insegurança e medo, igual a todo mundo”, afirma Joana D’arc Gonçalves, infectologista do Hospital Regional da Asa Norte (Hran).
A médica é uma das profissionais
de saúde que está na linha de frente do combate ao coronavírus no Distrito
Federal. Atuando na área há mais de 20 anos, ela diz que nunca presenciou um
momento como esse. “Em anos anteriores, nos preparamos para várias epidemias,
mas nada como agora. O que estamos vivendo é diferente. Isso resulta em um
nível de estresse imensurável”, avalia. A rotina de Joana D’arc é praticamente
toda dedicada ao trabalho, com atendimentos, tratamentos, estudos de pesquisas
sobre medicações de combate ao coronavírus e mensagens no celular com colegas e
familiares durante quase 24 horas. “Não existe dia, noite ou fim de semana, a
realidade é bem complexa”, afirma.
O Hran é o hospital de referência
para atender aos casos de coronavírus. Boa parte dos pacientes que chega ao
local está com sintomas e carga viral maior, de acordo com a infectologista.
“Temos que estar muito bem preparados, vigilantes o tempo todo e com uma
preocupação enorme, porque nunca sabemos o estado do paciente que está na nossa
frente”, lembra.
Além da população em geral, os
próprios profissionais acabam sofrendo com as contaminações. “Temos colegas que
foram infectados e passaram por situações de gravidade. Confesso que é algo que
dá vontade de chorar, nos sentimos muito impotentes. A maioria das pessoas que
trabalha na saúde tem como missão querer fazer o bem, salvar, e acabam se
arriscando mais, se infectando mais e morrendo mais”, lamenta a médica.
Isolada de toda a família, Joana
só vê a filha, que mora com ela e não sai de casa. O que alivia nesses momentos
são os encontros virtuais por ligações de vídeo. Quando surge um tempo raro, a
infectologista recorre à meditação e leitura de temas diferentes do que
encontra na realidade. “É preciso fazer isso para aliviar, porque o
profissional da saúde é igual a todo mundo. Temos nossas carências de afeto,
nossos medos. Mas queremos ajudar e não podemos parar de trabalhar. Enquanto
isso, vamos comemorando vitórias, como a que tivemos recentemente, da primeira
paciente que foi para a UTI do Hran e sobreviveu. Nesses momentos, a gente
chora de alegria, porque é como se a pessoa tratada fosse da nossa família, já
que passamos esse tempo todo no hospital”, conta.
O senso de responsabilidade também
é grande para a técnica de enfermagem Cristiane Diniz. “A maior dificuldade é
lidar com o emocional”, relata. Durante a carga horária, ela atende pacientes
suspeitos e confirmados com a covid-19 na área de internação. O medo é
transformado pela motivação em ajudar o próximo. “É um pouco mais desgastante,
porque o trabalho, em si, dobra. Temos que ter muito mais cuidado, devido ao
contato próximo com o paciente”, explica.
Com a pandemia, a rotina no
hospital também mudou. Algumas medidas foram adotadas para garantir a prevenção
do contágio do novo coronavírus. Entre tantos desafios enfrentados, o maior,
para a técnica de enfermagem, é acalmar os pacientes infectados e trazer
segurança. “Certa noite, um paciente me chamou porque queria conversar. Pediu
para passear comigo no hospital, mas expliquei que não podia. O nosso principal
papel nesse momento é tranquilizá-los”, define.
Para enfrentar a doença, a
profissional decidiu evitar notícias negativas e valorizar os momentos bons.
“Caso contrário, não vamos conseguir. A gente tem que respirar fundo sempre”,
desabafa. O hospital no qual trabalha oferece atendimento psicológico aos
funcionários. “Eu voltei de férias no momento em que a pandemia tinha começado.
No início, pensei em desistir. Mas a psicóloga me atendeu e me ajudou a lidar com
a situação”, explica a técnica de enfermagem.
O contato direto com pacientes
infectados pela covid-19 faz com que o clínico geral Marcos Pontes seja ainda
mais meticuloso com o uso correto dos equipamentos de proteção. “A exposição é
muito maior para os profissionais de saúde e, no meu caso, como decidi não me
afastar da minha família, o cuidado deve ser dobrado”, explica. O médico atua
no Hran e recebe pacientes que foram atendidos em outras unidades, com
indicativo para coronavírus. “A estrutura do hospital ajuda bastante e facilita
o trabalho. Além de acesso aos instrumentos para atuação, temos um corpo
técnico preparado com médicos experientes”, acrescenta.
Além do Hran, Marcos alterna a
rotina em outros dois hospitais. “O ritmo de trabalho não mudou tanto com a
pandemia, mas inseri hábitos mais saudáveis para cuidar da imunidade”, conta.
Alimentação controlada, sono em dia e trabalhar a inteligência emocional são
algumas das atitudes do profissional. Para ele, porém, a principal dificuldade
é a falta de informação pela sociedade sobre os sintomas, a gravidade da
doença, a contaminação e o tratamento. “O conhecimento ajuda muito, e, sem ele,
há pânico. Se a pessoa deixar o medo ser maior, isso será maléfico”, opina. A
união no trabalho é o principal elemento para o enfrentamento da doença. “Todos
estamos no mesmo barco. Juntos somos mais fortes. Esse momento difícil nos
aproxima da fé e acredito que, quando tudo acabar, as pessoas vão sair mais
fortalecidas”, conclui.
Depoimento - Cartas solidárias: Um projeto desenvolvido na Universidade de Brasília (UnB) produziu cartas com poemas, citações, recados e muita gratidão para os profissionais que trabalham em unidades de saúde do DF. A entrega dos textos foi realizada nesta semana no Hospital Regional da Asa Norte (Hran), pela professora de terapia ocupacional da UnB Flávia Mazitelli, que detalhou a ação ao Correio. Confira:
Depoimento - Cartas solidárias: Um projeto desenvolvido na Universidade de Brasília (UnB) produziu cartas com poemas, citações, recados e muita gratidão para os profissionais que trabalham em unidades de saúde do DF. A entrega dos textos foi realizada nesta semana no Hospital Regional da Asa Norte (Hran), pela professora de terapia ocupacional da UnB Flávia Mazitelli, que detalhou a ação ao Correio. Confira:
“O projeto é uma das
ações do Grupo de Trabalho de Promoção e Prevenção, coordenado pela professora
Josenaide Engracia, que integra o Plano de Contingência em Saúde Mental e Apoio
Psicossocial, coordenado pela professora Larissa Polejack. Toda a comunidade
acadêmica — estudantes, docentes e técnicos administrativos — é convidada a
escrever cartas de solidariedade aos profissionais que atuam na linha de frente
do enfrentamento à covid-19.
Esses profissionais
não são apenas os da saúde, mas também os da segurança, serviços gerais,
vigilância sanitária, nutrição, cozinha e outros. Os textos chegam no nosso
e-mail promo.prev2020@gamil.com. Passamos para papéis de carta e as
direcionamos aos profissionais. Inicialmente ,foram enviadas ao Hospital
Universitário de Brasília (HUB) e, posteriormente, também encaminhadas ao
Hospital Regional da Asa Norte (Hran), referência no combate ao coronavírus.
Foi emocionante poder representar minha universidade e levar palavras singelas
de apoio e empatia a esses profissionais, que estão abrindo mão de tanta coisa
e passando por situações inimagináveis. Poder contribuir com tanto afeto e
solidariedade foi um presente para mim! Em um momento tão difícil como esse,
manifestações de empatia e compaixão são fundamentais.”
Trechos das cartas: “Você
é imprescindível para a nossa sociedade, merece os nossos melhores elogios.
Lembre-se disso diariamente! Desejamos que a sua luta assegure muitas
conquistas, pois,a maior delas você acaba de conquistar: a gratidão”
“Gostaria de
desejar-lhes muito afeto, força e carinho em agradecimento ao trabalho de
vocês. O trabalho que vocês têm desempenhado tem sido extremamente corajoso e
inspirador. Estes tempos difíceis nos têm exigido senso de responsabilidade
coletiva e humanidade em dobro, e a resiliência e o cuidado de vocês têm nos
ensinado, dia a dia, sobre este senso”
“Imaginamos que não
seja fácil chegar ao ambiente de trabalho e se deparar com os impactos causados
pela covid-19, mas você está nos mostrando que honra a farda, que a profissão
vai além de cuidar de um patrimônio.”
Por: Alan Rios - Thais Umbelino - Correio Braziliense
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