Adirson Vasconcelos: o encantamento da solidão nos
primórdios de Brasília Repórter-pioneiro descreve seu olhar de deslumbramento
sobre a alvorada da “capital da esperança ”, antes mesmo de sua construção
Em homenagem
à capital federal, formada por gente de todos os cantos, a Agência
Brasília está publicando, diariamente, , depoimentos de
pessoas que declaram seu amor à cidade.
Adirson, ao conhecer o terreno
onde seria erguida a capital federal: “Tudo o que se olhava, em qualquer
posição, era horizonte” | Foto: arquivo
pessoal
“A minha relação de simpatia, admiração e crença em
Brasília se desenvolveu a partir do primeiro momento que eu a vi. Em maio de
1957, houve na região onde seria construída a nova capital do Brasil um ato a
que se chamou de Pedra Fundamental da Nova Capital. Naquele tempo, na década de
1950, eu era repórter no Recife do jornal Correio do Povo. Escalado
pela direção, fui designado para fazer a cobertura do fato que aconteceria no
Planalto Central de Goiás, a 20 quilômetros de Goiânia.
Depois de um dia inteiro de viagem de Goiânia até
aqui, hospedei-me em um hotel de madeira recém-construído no Acampamento Núcleo
Provisório, na Cidade Livre – hoje, o Núcleo Bandeirante. Dormi e, pela manhã,
horas antes do lançamento da pedra fundamental, saí para conhecer o terreno
onde seria Brasília.
A terra era muito vermelha, diferentemente do que
me acostumara a ver no Nordeste. Em meio à vegetação rasteira e às árvores
retorcidas, elevei o olhar para o céu e contemplei uma abóboda celeste muito
azul com lindas nuvens brancas. Uma beleza inusitada, com um horizonte ao
longe. Tudo o que se olhava, em qualquer posição, era horizonte. De repente,
dou-me de frente com o oriente e contemplo estarrecido um sol vibrante,
parecendo uma bola de fogo de tão forte e intenso. Eis a alvorada de Brasília.
Aquela irradiação
solar aqueceu-me o corpo e me invadiu a alma de forma inusitada. Encantei-me
naquela solidão, com a visão quase celestial que me marca até hoje, em 2020,
quando celebraremos os 60 anos de Brasília
Aquela irradiação solar aqueceu-me o corpo e me
invadiu a alma de forma inusitada. Um momento transcendente, nunca vivido até
aqueles meus 20 anos de vida. Encantei-me naquela solidão, com a visão quase
celestial que me marca até hoje, em 2020, quando celebraremos os 60 anos de
Brasília.
A par daquele impacto fisiológico que senti ao
contemplar o nascer do sol em Brasília, vivi um momento de transcendência, de
transformação mental e de espitualização marcantes. Durante a missa onde hoje é
a Praça do Cruzeiro, o cardeal dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota anunciou
no sermão que aquele momento era um dos três marcos da história do Brasil
– junto com o Descobrimento, em 1500, e a Independência, em 1822. Aquele
momento solitário me impactou a alma e tive divergências. Mas, com o passar dos
dias, e até a inauguração da cidade, em 1960, era igualmente marcante como o
alvorecer. Guardarei aqueles momentos para a vida toda.
Da epopeia da construção até os dias atuais, pude
acompanhar ao longo de 63 anos o sonho que nasceu com Tiradentes, Apolônio da
Costa e tantos outros brasileiros, e projetada como a obra do século 20. Ali
nascia a capital da esperança. Em 1986, quando a cidade já estava quase
consolidada, Juscelino Kubitschek, dois meses antes do seu falecimento,
profetizou-me após uma longa conversa: Brasília será a capital deste milênio,
pelo significado que sua missão civilizadora representa como polo irradiador de
desenvolvimento.
Vivo, desde aquela alvorada de 1957, esse grande
espírito de Brasília. E estou integrado a ele. Por isso fiz um poema chamando
Brasília de minha terra, meu céu e meu mar, além de templo da união nacional,
construtora de um novo tempo.
Hoje vivo plenamente os mesmos sentimentos daquele
primeiro momento. Momento de jovialidade, de fé, de crença e de esperança,
agora muito mais fortalecido na grande missão civilizadora.
Além de trabalhar como jornalista e acompanhar toda
a história, tive aqui sete filhos e 11 netos, e 60 livros. A minha mais nova
cria é a Enciclopédia da História de Brasília, em todos os seus
tempos, divididos por décadas. Assim, ofereço um registro de memórias de quem
viveu e ainda vive os dias da capital que amo.”
Adirson
Vasconcelos, 83 anos, cearense, chegou a Brasília em 1957. Encantado com a
energia do lugar onde nasceria a nova capital, voltou ao Nordeste, fez todas as
malas e do Distrito Federal não saiu mais.
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