Pensado pelo arquiteto e urbanista
Lucio Costa para abrigar apenas atividades de comércio e serviços, setor
precisa ser revitalizado, defendem representantes de áreas diversas
*Por » Ana Viriato
GDF propõe moradias no Setor
Comercial Sul. Executivo quer alterar normas de ocupação na área central para
que antigos prédios possam ser transformados em apartamentos. Especialistas
fazem ressalvas, como a possível extinção da vocação inicial da região
O Governo do Distrito Federal estuda alterar as normas de ocupação do Setor Comercial Sul (SCS). A proposta liberaria moradias nos prédios da região — hoje, são permitidas apenas atividades de comércio e serviços no setor. O debate ocorre em meio à construção do Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCub), proposição que atualizará as regras de uso e ocupação da área tombada da capital, como Plano Piloto, Sudoeste, Cruzeiro e Candangolândia.
A ideia é dar uma nova cara à
região, onde diariamente circulam 150 mil pessoas e ocorrem casos de tráfico e
há muita prostituição, principalmente à noite. “Estudos urbanísticos demonstram
que, quando há moradia, naturalmente, a circulação de pessoas ocorre de forma
ininterrupta e o local ganha mais vida. A insegurança no SCS está diretamente
ligada ao abandono da região depois do horário comercial”, defende o secretário
de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Mateus de Oliveira.
A mudança de cenário ocorreria de
forma gradual, de acordo com o GDF. Com a permissão ao uso residencial dos
prédios, a perspectiva é de crescimento dos investimentos da iniciativa privada
na modernização das edificações. O governo, por sua vez, ficaria responsável
pela continuidade dos projetos de revitalização — em abril, o Palácio do Buriti
reservou R$ 4,2 milhões para diversas intervenções, como a criação de paredes
verdes, jardins, murais de arte, novas calçadas.
De forma simultânea, fora do
PPCub, o Buriti traça planos para resolver problemas antigos do SCS. Entre eles,
o excesso de carros. Uma das opções avaliadas é a criação de um estacionamento
subterrâneo. Para atrair o público para o local fora do horário comercial,
pretende-se criar uma rua com restaurantes, bares e lojas que funcionem por
24h.
Quadras do SCS vivem decadência,
com falta de investimento do governo e ocupação de usuários de drogas
Vantagens
A localização é um dos atrativos
aos potenciais moradores, pois o SCS fica no coração da capital, de frente para
a Esplanada dos Ministérios, cercado por comércio, bancos e pelos setores
hoteleiro, hospitalar e de diversões. O transporte público também integra a
lista de benefícios — a região é vizinha da Rodoviária do Plano Piloto e de
estações do metrô.
O governo pretende debater as
mudanças nas regras de ocupação do SCS com a população no segundo semestre. “A
discussão não é nova. Nossa intenção é retomá-la para ver o que melhor atende o
interesse público. Possibilitar a habitação seria uma forma de requalificar o
setor e levar mais vida para o local”, disse Mateus de Oliveira. Hoje, o PPCub
passa por avaliações internas na Secretaria.
Somente após audiências públicas e
uma série de debates, o texto do PPCub será fechado. A proposta, então, passará
pelo crivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e
do Conselho de Planejamento Territorial e Urbano do Distrito Federal (Conplan).
Se aprovado, o projeto de lei complementar é submetido à Câmara Legislativa.
Estudos urbanísticos demonstram
que, quando há moradia, naturalmente, a "circulação de pessoas ocorre de
forma ininterrupta e o local ganha mais vida. A insegurança no SCS está
diretamente ligada ao abandono da região depois do horário comercial"
Mateus de Oliveira, secretário de Desenvolvimento Urbano e Habitação
Para saber mais - Mudanças no
SIG
A discussão sobre a mudança das
normas de ocupação dos imóveis em diversos setores da área tombada da capital
está em alta no governo. Em abril, o GDF conseguiu o aval do Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para liberar atividades
industriais, comerciais, de serviços e institucionais na região, com a construção
de prédios de até 15m de altura no Setor de Indústrias Gráficas (SIG). O
projeto será entregue ao Conselho de Planejamento Territorial e Urbano do
Distrito Federal (Conplan) na próxima quinta-feira. Se aprovado, o texto segue
para a Câmara Legislativa.
Estudiosos pedem planejamento
A proposta é vista com bons olhos
por arquitetos, urbanistas e representantes do mercado imobiliário. “O
urbanismo moderno tenta ocupar os centros urbanos adensados com diversidade de
uso das edificações, de forma a possibilitar menos transporte. Um morador do
SCS, por exemplo, poderia resolver quase todos os seus problemas sem precisar
entrar em um carro”, argumenta Eduardo Aroeira, presidente da Associação de
Empresas do Mercado Imobiliário. “De uma maneira geral, o PPCub buscará a
diversificação do uso em toda a área tombada”, complementa.
Há, porém, ressalvas. Presidente
do Instituto dos Arquitetos do Brasil no DF (IAB-DF), Célio da Costa Melis
Júnior defende que as unidades residenciais sejam acessíveis a todas as classes
sociais. “Acreditamos que o processo de diversificação da ocupação tem de
começar com uma ação que destine os imóveis vazios e ociosos às pessoas mais
carentes”, comenta.
A arquiteta e urbanista Romina
Farur Capparelli, do grupo Urbanistas por Brasília, indica a necessidade da
formulação de critérios para a escolha dos imóveis que poderão ser usados como
moradia. “Temos que aproveitar os exemplos de outras cidades, observando os
problemas que podem aparecer e os evitando. Não podemos permitir, por exemplo,
que a área seja completamente tomada pelo uso residencial, expulsando o setor
de comércio e serviços”, ponderou.
Presidente do Conselho de
Arquitetura e Urbanismo do DF (CAU/DF), Daniel Mangabeira engrossa o coro. “Os
parâmetros de uso e ocupação do SCS precisam ser revistos, principalmente
porque a região é extremamente subutilizada em fins de semana. Mas é preciso
priorizar a vocação original do lugar, que é comercial. Isso significa que não
podemos autorizar destinações inteiras de edifícios para moradia”, frisou. O
arquiteto e urbanista ressalta que, antes de propor oficialmente a mudança das
regras de ocupação no Setor Comercial, o governo precisa apresentar um programa
de saneamento, segurança e infraestrutura para o setor.
150 mil » Média de pessoas que circulam diariamente no Setor Comercial Sul
(*) Viriato – Foto: Ed. Alves/CB/D.A.Press – Correio Braziliense
Tags
GDF



bom dia gentrificação
ResponderExcluir