Quando e
como surgiram as cidades que rodeiam o Plano Piloto. Cada uma das 30 RAs tem
uma identidade própria e comemora, com muita festa, o aniversário. É um mundo
paralelo ao do sítio tombado, (Por Conceição Freitas)
O Plano Piloto nem se dá conta, mas as cidades-satélites têm vida própria,
festas próprias, história própria, lendas e personagens que lhes dão identidade
única. Se o 21 de abril é um dia de festa na maquete de Lucio Costa, o
aniversário de cada uma das regiões administrativas é, em quase todas elas, a
maior festa da cidade.
As
satélites não são uma transmutação moderna dos bairros. Dentro delas há uma
noção de pertencimento que se estabelece até pelo desprezo que o Plano Piloto
lhes destina. É preciso ser a si mesmo com muito gosto e vontade, para suportar
o outro que não nos vê, ainda mais quando o outro é o epicentro de um universo
chamado Brasília.
A mais
antiga das cidades brasilienses já existia há um século, pelas contas oficiais,
quando a nova capital foi inaugurada. Planaltina fará, oficialmente, 160 anos
no próximo 19 de agosto, mas ela já existia como Mestre d’Armas desde meados do
século 18. Servia de passagem para bandeirantes em busca ouro e tropeiros que
cruzavam o sertão goiano indo ou vindo de nordeste a sudeste levando e trazendo
gado e preciosidades como o sal, que só o mar, a mais de 1,5 mil km, nos
concede. (Fotos: Fercal, Planaltina, Cruzeiro, Núcleo Bandeirante, Candangolândia, Brazlândia, Sobradinho)
Brazlândia
também já estava aqui quando os modernos chegaram. Como escreveu Vinicius de
Moraes na Sinfonia da Alvorada: “Eram antigas solidões sem mágoa./O altiplano,
o infinito descampado”. Brazlândia, que no começo se chamava Chapadinha, existe
desde a primeira metade do século 20, quando duas famílias, uma mineira e uma
goiana, se instalaram nas proximidades do ponto mais alto das redondezas, e das
fazendas surgiu um povoado. Brazlândia é de 5 de junho de 1933.
Não
demorou duas décadas e começaram a chegar os jipes, os caminhões e os aviões
trazendo uma gente falante e entusiasmada para espanto dos cerratenses de pouca
fala e muita cisma. Embora os primeiros aglomerados de barracas tenham surgido
na Candangolândia e no Núcleo Bandeirante, a Fercal se diz mais antiga e fixou
seu nascimento em 12 de setembro de 1956, dia em que Juscelino completava 54
anos.
Fercal,
Candanga e Núcleo Bandeirante surgiram no emaranhado dos dias em que os
modernos começaram a chegar ao quadradinho. Era o último trimestre de 1956, e
Juscelino movia as peças de seu xadrez político para aprovar a lei que criou a
Novacap, a empresa que construiria Brasília. Da Fercal, terreno rico em
calcário, saíram as primeiras pedras que levantaram a nova capital.
A Candangolândia se vangloria de ser 28 dias mais velha que a Cidade Livre. A primeira é de 3 de
novembro de 1956 e a segunda, de 19 de dezembro de 1956. Aquele pedaço de
Cerrado cortado por córregos (que iriam abastecer o Lago Paranoá) e por matas
ciliares abrigou os primeiros candangos.
No morro
que contornava uma cachoeira volumosa, surgiria a sexta cidade brasiliense, a
Vila Paranoá, em 25 de outubro de 1957, formada pelos operários que construíram
a barragem que fez surgir o lago.
Eram
atordoantes os acontecimentos nas antigas solidões. Em 5 de junho de 1958, pelo
menos 5 mil retirantes da seca nordestina forçaram Juscelino a criar uma
cidade-satélite, Taguatinga. Pouco mais de um ano depois, em 30 de
novembro de 1959, nasceria a primeira cidade planejada do DF, o Cruzeiro, projeto de Lucio Costa. As casinhas brancas geminadas iriam
abrigar os funcionários públicos cariocas que trocaram o mar pela morada
própria
Quase ao
mesmo tempo em que Brasília era inaugurada, duas outras cidades-satélites
planejadas brotaram nos arredores da borboleta de concreto. Uma delas, nasceu
nas bordas de um chapadão, pendurada em ondulações de Cerrado, Sobradinho, em
13 de maio de 1960. A outra, o Gama, desdobra-se num altiplano de onde o mundo
parece maior e mais luminoso. É de 12 de outubro de 1960.
Os lagos
Sul e Norte surgiram das penínsulas formadas pelas águas do Paranoá. Os dois
são de 1960. O primeiro é uma península desconcertada,
descontínua. O segundo, uma península em forma de bota, que muito
lembra o mapa da Itália.
Do
projeto de Lucio Costa saiu o Setor de Mansões Park Way, conjunto de chácaras
destinadas aos mais ricos e hoje parceladas e transformadas em condomínios. O
Park Way é de 13 de março de 1961.
O Guará
nasceu de um mutirão democrático, do qual participaram as famílias que depois
receberiam as casas. Ele é de 5 de maio de 1969.
A
Ceilândia é um susto. É a mais forte representação da força da gente sem
moradia. Foi preciso abrir um clarão imenso no Cerrado para dar lote aos
milhares de candangos que rodeavam o Plano Piloto. Ceilândia é de
27 de março de 1971.
Depois de
Ceilândia, seguiu-se um período de aparente calmaria urbana.
Com a
volta da democracia, Lucio Costa criou alguns aglomerados urbanos em torno do
Plano Piloto, o Sudoeste/Octogonal é um deles. Embora a Octogonal tenha sido
criada no final da década de 1970 e o Sudoeste, em 1993, as duas só viraram uma
cidade em 2003. (O Noroeste não é uma cidade).
Seguiu-se
então a era Roriz, a distribuição de lotes em troca de voto. De algum modo, foi
uma revolução urbana. Em cinco anos, surgiram sete cidades: Samambaia, 25 de
outubro de 1989; Santa Maria, 10 de fevereiro de 1990; Riacho Fundo I, 13 de
março de 1990; São Sebastião, 25 de junho de 1993; Recanto das Emas, 28 de
julho de 1993; Riacho Fundo II, 6 de maio de 1994, embora a data de
desmembramento do Riacho I seja 2003.
Águas
Claras, de 8 de abril de 1992, a única cidade inteiramente vertical do DF, veio
para abrigar a classe média.
O Varjão
existe desde a década de 1970, mas só virou cidade em 6 de maio de 2003. A
região de terra úmida, em encosta de morro, começou a ser ocupada por pequenos
agricultores e carroceiros que aproveitavam a proximidade com o bairro dos
ricos, o Lago Norte.
Escondida
entre montes de lixo, a Estrutural existia desde os
anos 1960, mas só conseguiu ser uma região administrativa em 27 de
janeiro de 2004. Dela faz parte a Cidade do Automóvel. Sobradinho se dividiu em
duas e surgiu Sobradinho II, em 27 de janeiro de 2004.
Do
irrefreável movimento da classe média por um lugar de morar, surgiram os
condomínios e com eles a RA do Jardim Botânico, de 31 de agosto de 2004.
O Itapõa,
de 3 de janeiro de 2005, foi mais um fenômeno que juntou o povo sem-teto aos
grileiros sempre espertos.
O SIA,
Setor de Indústria e Armazenamento, é uma estranha cidade onde quase ninguém
mora, só trabalha. É de 3 de janeiro de 2005.
E,
finalmente, a mais recente, a RA de Vicente Pires, uma confusa cidade nascida
sobre áreas de proteção ambiental, antes uma colônia agrícola e hoje um
território onde a natureza reage ferozmente a cada chuva. É de 26 de maio de
2008.
E
Brasília é ainda mais que essas 31 cidades. Grudadas nelas, há uma outra
Brasília, a goiana, dos municípios que vivem da riqueza brasiliense, região que
mais cresce, em número de habitantes, em todo o país.
E quem
dirá que Brasília não deu certo?
Por
Conceição Freitas – Fotos: Rafaela Felicciano – Michael Melo – Daniel Ferreira
– Metrópoles









