Nem no céu nem na arquitetura. A mais bela Brasília está sob nossos pés
Crônicas
urbanas, crônicas de afeto e do viver (Conceição Freitas)
O
banqueiro francês girou em torno do próprio corpo, parou e disse ao anfitrião:
“Parece que o terreno estava esperando pela cidade.” Da Praça do Cruzeiro,
Henri Burnier e Israel Pinheiro observavam a vastidão de cerrado onde Brasília
começava a ser construída. Meio século antes, outro francês, o botânico Auguste
Glaziou, foi igualmente tomado pelo impacto da paisagem. E anteviu um lago
artificial onde, muitas eras geológicas antes, deve ter havido um lago natural,
o Paranoá.
Muito se
festeja (e se critica) o urbanismo e a arquitetura do Plano Piloto, sem saber
que a cidade só é o que é porque algum deus da geologia desenhou um único lugar
para uma única cidade, o encaixe perfeito de natureza e civilização, continente
e conteúdo, terreno e urbe.
Lucio Costa percebeu a grandeza e a singularidade do
sítio onde a nova capital deveria pousar e obedeceu ao desejo
divino de deitar a cidade onde a topografia assim pedia. Era mais que um
pedido, era quase uma súplica tanta era a solidão daquele lugar escondido
dentro de um anel de chapadas.
É por isso que o horizonte está sempre ao nosso alcance, salvo nos
lugares onde a arquitetura ostentatória nos rouba a paisagem. Como se ondas de
um mar pétreo nos circundasse o tempo todo.
Para os dois franceses, não foi difícil perceber que aquela cratera
singular rodeada de altiplanos esperava pela cidade. (Singular porque, embora
seja cratera em relação às chapadas, ela é estufada, como uma bacia grande de
boca para cima contendo uma bacia menor emborcada).
Muito
tempo depois, quando Brasília já era o que é,
a portuguesa Maria Manuel Oliveira, professora da Universidade do Minho,
desviou sua atenção da arquitetura dos palácios, da conformação das
superquadras, do cruzamento dos eixos, para algo que só se vê “em voo de
pássaro”, como escreveu em ‘A invenção de Brasília: modelar o chão’.
“O
desenho amarra-se, muito intencionalmente, à morfologia do terreno: para além
do Eixo Residencial [o Eixão] que, em arco, acompanha as curvas de nível, o
Eixo Monumental implanta-se exatamente sobre a cumeeira do esporão que conforma
a orografia local”. Ou seja: o Eixo Monumental foi desenhado no divisor de
águas (na parte mais alta do terreno) e o Eixão acompanha o declive do sítio.
Como se o
Plano Piloto chegasse no meio da noite e se deitasse sobre o solo quase
silenciosamente, sem muitos sustos, sem muita movimentação de terra, sem ter de
cavar grandes buracos nem fazer grandes aterros.
Houve,
sim, alterações na morfologia do terreno, mas elas foram ao mesmo tempo
volumosas e sutis, como tudo o que fez Lucio Costa.
Para que
da Rodoviária se pudesse ver nitidamente a Praça dos Três Poderes, quase como
se os símbolos da República fossem ofertados ao povo, para que houvesse esse
efeito, se fez um terrapleno oito metros acima do nivelamento original. Ou
seja, uma grande obra de terraplenagem para diminuir a inclinação que ia da
Torre de Tevê ao Lago Paranoá.
Portanto,
a mais sofisticada das qualidades do projeto de Lucio Costa talvez seja a mais
imperceptível. A naturalidade com que o Plano Piloto se encaixa no terreno foi
“minuciosamente controlada”, escreve Maria. Juntar chão e cidade deve ter sido
“o mais intenso dos compromissos” de Lucio Costa, diz a professora.
Igualmente
encantado com a maestria de Lucio Costa, o arquiteto Antônio Carlos Carpintero,
professor da Universidade de Brasília, acredita que o urbanista tenha sido o
único entre os 26 candidatos ao concurso do Plano Piloto a ler “de fato” o
Relatório Cruls e o Relatório Belcher, os dos inventários da topografia deste
lugar que nos protege. Daí, ter feito uma cidade que parece ter pousado pronta
sobre um terreno igualmente pronto.
E se era
para construir a nova capital de um país continental, singular e esperançoso,
era preciso que ela fosse monumental. E essa envergadura já era uma
característica intrínseca ao terreno.
(E como
havia algo ainda mais monumental, Lucio Costa conteve o volume dos edifícios.
Desse modo, inventou o céu de Brasília.)
Uma
cidade para um chão e para um céu.
Conceição
Freitas – Foto: Arquivo Público – DF - Metrópoles


