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Saúde, direito ferido

Assim como a educação, a segurança pública e alguns outros, a saúde é direito de todos e dever do Estado. Mas, também como tantos outros, esse preceito constitucional é ferido todos os dias, com pouquíssimas e honrosas exceções de praxe. Cenas trágicas — doentes em corredores, queixas de quem espera anos por cirurgia eletiva ou 12 meses para realizar simples ultrassonografia, ausência de médicos, falta de remédios — são divulgadas com incrível frequência no noticiário nacional, sem que se note qualquer avanço ou melhora no atendimento de quem depende do Sistema Único de Saúde (SUS). 

O resultado de tal descaso é retratado em pesquisa do Datafolha: 62% dos brasileiros avaliam os serviços de saúde como ruins ou péssimos. Um percentual que garante a liderança do ranking de insatisfação dos brasileiros, superando em muito a segurança (18%); a corrupção (10%); a educação (9%); o desemprego (4%) e a miséria (2%). Ressalve-se, ainda, um detalhe: quanto maior a população, mais precário é o atendimento, tanto que, em cidades com mais de 500 mil habitantes, o índice de insatisfação sobe para 70%, mesma avaliação que os detentores de seguro ou planos de saúde dão ao sistema geral de saúde. Para não ficarmos apenas nos pontos negativos, há programas que funcionam, como é o caso dos remédios genéricos, comprados por 79% e considerados tão ou mais confiáveis do que os originais por respeitáveis 63% dos entrevistados. 

Esse rápido retrato da precariedade de um setor fundamental para assegurar boas condições de vida, em especial às camadas mais desprotegidas da sociedade, indica que é crucial promover ampla revisão do SUS, que, com a Previdência, forma os pilares básicos da seguridade social — também assegurada pela Constituição. 

Aqui, também se nota a desigualdade que, de todos os ângulos, parece ser a marca registrada do Brasil, pois, enquanto a Previdência tem gastos comparáveis aos do primeiro mundo, os serviços de saúde enfrentam fortes entraves orçamentários, recebendo repasses de apenas 3,9% do PIB. Segundo norma constitucional de 2000, a União deveria ter aumentado em 5% o investimento em saúde até 2004, tendo como base as verbas de 1999 e, depois, reajustá-lo de acordo com o crescimento do PIB. Tais recursos deveriam ser completados por percentuais das receitas dos Estados (12%) e dos municípios (15%). 

Belas contas, mas na realidade transformaram a lei em letra morta, pois a participação do governo federal caiu de 60% para 45% no período. Enquanto isso, a defasagem entre a inflação e os valores pagos pelo Ministério da Saúde a hospitais que atendem o SUS supera 400% nos últimos dois. A Confederação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos indica que, na maioria dos casos, a tabela SUS cobre apenas 60% dos custos e os incentivos fiscais ajudam, mas não fecham a conta. A verdade é, que, quanto mais um hospital atende o SUS, maior será seu deficit.

Os debates sobre o gargalo da saúde privilegiam a tese de que o subfinanciamento é a principal causa do descalabro do setor. Entretanto, relatório do Banco Mundial, analisando os 20 anos do SUS e divulgado no final de 2013, aponta que os problemas estão mais relacionados com desorganização e ineficiência do que com falta de dinheiro (que, entretanto, não deixa de ser parte da questão). Ou seja, a conclusão é a de que seria possível fazer mais e melhor mesmo com o orçamento atual. 

Para fundamentar a análise, o Banco Mundial alinha alguns exemplos. É o caso dos 30% dos pacientes que procuram as emergências hospitalares, mas que, por serem de baixo risco, poderiam ser atendidos adequadamente em unidades básicas de saúde, reduzindo a superlotação dos centros de referência. Outro exemplo: a rede hospitalar poderia ter volume de atendimento três vezes superior ao atual, utilizando a mesma quantidade de insumos. 

A disparidade se deve ao desrespeito ao consenso internacional, segundo o qual, para ser eficiente, um hospital precisa ter acima de 100 leitos, enquanto 65% da rede hospitalar brasileira são compostos por unidades com menos de 50 leitos. Resultado: no Brasil, a taxa média de ocupação de leitos e salas cirúrgicas é de 45%, contra a média internacional de 70% a 75%. 

Por isso tudo, é urgente ativar a garantia prevista no art. 196 da Constituição Federal, pois a verdade é que o Estado não está cumprindo o dever de assegurar o acesso ao sistema de saúde a todos os brasileiros. Portanto, o tratamento que vem sendo dado à saúde é inconstitucional e precisa ser corrigido. 


Por: Ruy Martins Altenfelder Silva-Presidente da Academia Paulista de Letras Jurídicas (APLJ) e irmão protetor da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Fonte: Correio Braziliense 

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