Polícia Federal suspeita que bilhete de Marcelo Odebrecht
para os advogados signifique apagar provas, enquanto a empreiteira diz que se
trata de enfoque da estratégia de defesa. Texto foi escrito na prisão e
apreendido na segunda-feira
Curitiba — Da carceragem da Polícia Federal, o presidente da
Odebrecht, Marcelo Bahia Odebrecht, enviou um bilhete aos advogados em que
alinha estratégias de defesa num habeas corpus e de comunicação. “Destruir
e-mail sondas” é um desses pontos. Para a Polícia Federal, que interceptou a
comunicação e remeteu uma cópia ao juiz da 13ª Vara Federal, Sérgio Moro,
trata-se de uma tentativa de apagar provas que incriminem o executivo da maior
empreiteira do país. Para a defesa, a interpretação está equivocada e é apenas
uma linha de defesa que significaria algo como “destruir a argumentação do
e-mail sobre navios-sondas”. No despacho de prisão de Marcelo Odebrecht, Moro
se baseou numa comunicação com o presidente da empreiteira em que o diretor da
empresa Roberto Prisco Ramos fala em “sobre-preço” (sic) de 20 mil a 25 mil por
dia nas sondas, sem especificar a moeda do negócio.
Ontem, o
delegado Eduardo Mauat informou ao juiz que o bilhete foi apreendido na
segunda-feira pela manhã pelos agentes, que estranharam a menção a destruir um
documento. Por praxe, todas as comunicações são lidas pela PF antes de serem
entregues. Os policiais fotografaram o documento de duas páginas (veja
fac-símile). Ele começa com um título “Pts para o HC”. Segundo fontes da
empreiteira, foi escrito por Marcelo na prisão para subsidiar a defesa dos
advogados, relacionando vários argumentos que poderia ser usados para tirá-lo
da cadeia.
A
advogada Dora Cavalcanti apresentou a versão da empresa para a mensagem, mas
Mauat não se convenceu. “Havia clara possibilidade de ter havido orientação
para a prática de conduta estranha à relação advogado-cliente”, disse ele no
ofício ao juiz. Abaixo da mensagem sobre destruição de e-mail há a menção a
“RR”, que a polícia entende ser Roberto Prisco Ramos, que usava e-mail da Braskem,
uma das empresas da Odebrecht.
Temendo
destruição de documentos, a PF reiterou pedido feito à Braskem na semana
passada, para entregar todas as mensagens de e-mail da conta
roberto.ramos@braskem.com.br, a mesma que mencionou o suposto sobrepreço nas
sondas. A Odebrecht diz que não se trata de sobrepreço, mas de margem de lucro
na operação de navios.
“Tumulto”
Dora
Cavalcanti disse ao Correio que a suspeita da PF é uma “tentativa de causar
incidente processual que não existe”. “Eu não queria tumulto.” Ela disse que
vai reclamar do fato de o bilhete de Marcelo ter sido anexado aos autos do
processo sem sigilo. “Isso é uma violação de correspondência.”
A
estratégia da defesa consta do documento. Marcelo afirma que uma pessoa
identificada como “RA” — que Dora não explica se seria o executivo preso
Rogério Araújo — foi investigada internamente e afastada dos negócios com a
Petrobras, além de estar em licença médica. Os executivos da Odebrecht estão
sendo afastados dos cargos, formalmente, a pedido dos próprios, para que se
argumente que não há motivo para a continuidade às prisões. Dora disse que não
pode comentar o teor do restante do bilhete.
Ontem,
Moro estendeu a detenção do diretor da Odebrecht Alexandrino Alencar. Ele
ficará prisão em preventiva sem prazo para ser solto, a pedido da PF e do
Ministério Público. O dirigente, que também se desligou da empreiteira, viajava
com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em palestras no exterior pagas
pela construtora. A Odebrecht informou ontem que a decisão de Moro foi “ilegal”
e “arbitrária”.
Depoimento
Ontem
pela manhã, o doleiro Alberto Youssef prestou depoimento à PF para esclarecer
dúvidas dos investigadores sobre inquéritos no STF contra políticos, como
deputados e senadores. À tarde, Youssef foi à Justiça Federal prestar
depoimento no processo contra o ex-deputado André Vargas (ex-PT-PR), acusado de
desviar dinheiro para si de contratos de publicidade no Ministério da Saúde e
na Caixa Econômica.
A partir
de hoje, devem depor na PF investigados presos preventivamente, como Marcelo
Odebrecht e o presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo. Ontem,
familiares dos presos foram até a carceragem da Polícia Federal.
Memória - A
linha de uma investigação
Desde 2013, investigadores da Operação Lava-Jato começaram a
investigar uma série de doleiros que agiam em Londrina (PR). A suspeita é que
eles tinham escondido dinheiro desviado do mensalão. Os agentes e promotores,
entretanto, chegaram a outros operadores e a outros esquemas. Um deles, Alberto
Youssef, tinha ligações com um ex-funcionário da Petrobras, Paulo Roberto Costa.
A partir
daí, a Polícia Federal identificou transações financeiras, documentos
apreendidos e depoimentos de criminosos que mostraram que um cartel de
empreiteiras combinava licitações na estatal e pagava um percentual de 1% a 3%
de propina para funcionários da petroleira e políticos que facilitavam seus
negócios.
Para
chegar a tal conclusão, foram necessárias 14 fases de prisões, mandados de
busca e apreensão e um conjunto de delações premiadas — em que o acusado
confessa crimes, devolve dinheiro desviado, repassa informações e documentos e
obtém a promessa de uma punição menor na Justiça.
Em março
do ano passado, a investigação se tornou pública com as prisões de Youssef e
Paulo Roberto. Foram abertas ações criminais contra operadores e funcionários
do esquema. Em novembro, foram presos executivos e acionistas de cinco grandes
empreiteiras — no caso da Odebrecht e da Andrade Gutierrez, foram cumpridas
apenas ordens de busca e apreensão — que foram denunciados criminalmente em
seguida.
Em março
deste ano, foram abertos inquéritos por corrupção contra políticos, como
deputados e senadores, no Supremo Tribunal Federal (STF). No Congresso,
deputados foram cassados ou perderam as eleições — o que os fez serem
denunciados criminalmente na 13ª Vara Federal de Curitiba. Em junho, a operação
chegou à Odebrecht e à Andrade Gutierrez.
Fonte: Eduardo Militão – (Enviado Especial) - Correio Braziliense - Foto Google

