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DO PLANEJAMENTO AO CAOS URBANO » Feridas abertas no Plano Piloto

Flagrante de puxadinho no comércio das quadras 402/403 Sul: estrutura erguida entre dois blocos desrespeita a legislação e atrapalha a passagem de pedestres

Décadas de desrespeito ao tombamento de Brasília fazem com que a área central perca algumas das principais características originais e até atrapalhe a mobilidade do cidadão. Os puxadinhos segue como um problema para o GDF

Puxadinhos, comércio nas quadras 700, quiosques, falta de estacionamento. Os pequenos e os grandes problemas urbanísticos do Plano Piloto ferem o tombamento e atrapalham o dia a dia. Nem mesmo as leis são capazes de impedir a ocupação indiscriminada de área pública nas asas Sul e Norte, como mostra a segunda reportagem da série Do planejamento ao caos urbano. A elaboração do Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília (PPCub) é uma saída para organizar a área tombada, mas, depois de apresentar itens polêmicos e deixar de fora da discussão a comunidade, o projeto só será levado à Câmara Legislativa para votação no próximo ano (leia Entenda o caso).


As agressões são tantas que, em março, o Conselho Comunitário da Asa Sul enviou uma carta à Agência de Fiscalização do DF (Agefis) com várias reivindicações dos moradores. Entre elas estavam o fechamento de comércio irregular nas quadras 700, a proibição da privatização de áreas verdes nos fundos dos blocos comerciais, a verificação da regularidade do funcionamento de bancas de revista e a retirada de carros com propaganda e de faixas de publicidade.



O documento cobra ações de fiscalização para fechar os que já existem e impedir novos comércios instalados em residências nas quadras 700. A reportagem do Correio visitou alguns endereços na Asa Sul e identificou um escritório de advocacia e um outdoor com a propaganda de uma clarividente em meio às casas. “Há uma questão que pode vir a ser discutida sobre aquelas atividades que não trazem incômodo aos moradores ou não provocam problemas no trânsito. Mas o fato é que ali é uma área exclusivamente residencial e não é permitido comércio de qualquer natureza”, diz a presidente do Conselho Comunitário da Asa Sul, Heliete Bastos.



 

Na comercial da 203/204 Sul, as construções irregulares invadem a área verde, nos fundos de duas lojas e na lateral de outra

Puxadinhos também figuram na lista entregue à Agefis. Os moradores reclamam, principalmente, da forma como cada comerciante ocupa a área pública sem qualquer regra. Em alguns casos, como na esquina da 403 Sul, o estabelecimento fecha a passagem de pedestres com cerca e móveis. Morador da quadra, o aposentado José Geraldo Pereira, 69 anos, não reclama do desrespeito, mas defende a padronização. “É agradável você ir a um restaurante e se sentar na parte de trás, o espaço é arborizado. Mas não pode ser cada um de um jeito, da forma como está”, comenta.


Regulamentar as regras para a ocupação da área pública. “Eles são desorganizados e cada um ocupa da forma como quiser. Tem de padronizar e deixar livre a passagem. É constrangedor passar no meio das mesas enquanto as pessoas estão almoçando”, afirma a bibliotecária Sônia Pires, 56 anos, da 116 Norte.

É agradável você ir a um restaurante e se sentar na parte de trás, o espaço é arborizado. Mas não pode ser cada um de um jeito, José Geraldo Pereira, 69 anos, aposentado

Heliete critica a falta de políticas para mobilidade urbana, prejudicada pela ocupação excessiva e sem controle dos espaços públicos. “Incluo aí a questão das calçadas, das ciclovias e das passarelas subterrâneas, que são temas antigos, mas sempre relegados pelos governos. Isso afeta a rotina de todos os cidadãos”, comenta. “Infelizmente, vemos um uso inadequado e desrespeitoso dos espaços públicos, como as calçadas dos comércios locais, usadas pelos lojistas como extensão de suas lojas. Também é comum a ocupação dos gramados e a instalação sem controles de quiosques.”

Paisagem poluída
A arquiteta e urbanista Vera Ramos, diretora do Instituto Histórico e Geográfico do DF, reclama das redes aéreas de energia na área tombada. Ela explica que a estrutura aparente agride a paisagem e cobra do governo providências para enterrar os cabos. “A presença dessas redes aéreas contraria frontalmente o projeto urbanístico da cidade-parque, além de tornar caótica a paisagem urbana e impedir o plantio de árvores”, reclama. Para instalar essas redes, segundo ela, a Companhia Energética de Brasília (CEB) corta árvores sem autorização do Instituto Brasília Ambiental (Ibram).

Sobre a rede, a CEB informou que o Plano Diretor de Energia Elétrica previu a implantação de redes subterrâneas nas áreas que fazem parte das escalas monumental, gregária e residencial. Para as demais, o sistema seria aéreo. “Entendemos que a existência das redes aéreas não contraria os princípios de preservação nem altera a composição e a qualidade da paisagem urbana. Ao longo da ocupação da cidade, houve situações onde não foi possível a instalação da rede subterrânea devido à falta de urbanização”, informa a empresa, em nota. A CEB acrescenta que não tem feito mais instalações aéreas nos locais onde não estavam previstas e as substituições vêm sendo feitas de acordo com as condições técnicas e urbanísticas e com o recurso disponível.

Entenda o caso: Revisão do documento
O PPCub chegou à Câmara Legislativa em 2013, encaminhado pelo Executivo local. A possibilidade de aprovação levou arquitetos e urbanistas a publicarem um manifesto pedindo a paralisação imediata da tramitação na Casa. O plano previa, entre outros itens polêmicos, a concessão à iniciativa privada de áreas de unidade de vizinhança no Plano Piloto, a ocupação da orla do Lago Paranoá e do canteiro central do Eixo Monumental, entre o Setor Militar e a Rodoferroviária. A tramitação na Casa foi paralisada devido a um comunicado do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) aos deputados. O órgão entrou com uma ação civil pública alegando irregularidades na composição do Conselho de Planejamento Territorial do DF (Conplan). A aprovação no conselho é obrigatória para o encaminhamento do PPCub à Câmara. O ex-governador Agnelo Queiroz também retirou da pauta de discussão os itens que geraram polêmica. A nova gestão prometeu revisar o documento antes de encaminhá-lo para votação.
Fonte: Thaís Paranhos – Helena Mader – Correio Braziliense 

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