Depois da
saída da presidente da Câmara Legislativa, Celina Leão (PDT), da base e da
mudança na Casa Civil, Cristovam ainda se diz preocupado com o diálogo, que
ainda é insuficiente
Para o senador Cristovam Buarque (PDT),
o governador Rodrigo Rollemberg e sua equipe deveriam pensar em colocar em
prática seu programa aos poucos. Mesmo com a falta de recursos, as ações já
deveriam ter começado, até para rechaçar qualquer acusação de omissão. “Hoje o
que eu sinto é que tem administrador que se sente no direito de dizer que não
vai limpar a rua ou outras coisas, porque não tem dinheiro. O governo do
Rodrigo caiu no acomodamento. Já que tem falta de dinheiro, tinha que cair no
ativismo de coisas novas”, propôs. Depois da saída da presidente da Câmara Legislativa,
Celina Leão (PDT), da base e da mudança na Casa Civil, Cristovam ainda se diz
preocupado com o diálogo, que ainda é insuficiente. “Fui governador, passei por
crises e sou do ramo, professor de economia da UnB e soube da privatização pelo
jornal”, reclamou. A partir de agora, a expectativa é que o PDT participe mais
ativamente da tomada de decisões e até pretende elaborar uma lista de
soluções.
As
últimas declarações do ex-presidente Lula têm dado o que falar. O senhor acha
que é realmente uma reflexão?
É um certo
oportunismo para se descolar um pouco da impopularidade do governo. Não é por
coincidência que isso acontece no momento em que a presidente tem 65% de
reprovação e apenas 10% de popularidade. É uma tentativa do PT de se descolar.
No mesmo dia que ele fez isso, saiu uma entrevista com o Tarso Genro na mesma
linha, só que mais descolado. Ontem, eu liguei para o presidente do meu
partido, Carlos Lupi, e disse “daqui a pouco só temos nós com a Dilma”. E o
pior é que vai ter gente no PDT comemorando isso, porque terá mais ministérios
se o PT sair. É o PDT afundando com o projeto, por deixar de trazer
propostas novas e se sintonizar com o futuro. Estamos prisioneiros de um
presente caótico e de um discurso nostálgico.
Qual sua
avaliação sobre a política local?
Aqui, acho
que o governador Rodrigo Rollemberg de fato assumiu uma crise como talvez
nenhum outro tenha assumido. Em um Brasil onde todos estão em crise, 22 das 27
unidades da Federação, tenho a impressão de que o Distrito Federal é o pior. Só
que, em vez de dizer “Estamos sem dinheiro. Vamos usar da criatividade como
recurso e fazer coisas que não custam”, ele preferiu cair nessa armadilha da
falta de recursos. Hoje, observo que tem administrador que se sente no direito
de dizer que não vai limpar a rua ou outras coisas, porque não tem dinheiro. O
governo do Rodrigo caiu no acomodamento. Já que há falta de dinheiro, tinha de
cair no ativismo de coisas novas. Muito poderia ser feito, não só ações
espalhadas no DF sem gastar muito dinheiro, como coisas pontuais. Não tem
dinheiro para fazer em todo o Distrito Federal, faz em uma cidade. Dava para
fazer uma escola em horário integral da maior qualidade. Uma. Está faltando
imaginação e criatividade, enquanto sobra paralisia nessa armadilha que caiu o
governo. A falta de dinheiro é verdadeira, mas não pode se transformar em
armadilha.
O diálogo
com o governo tem sido satisfatório?
Se você
chama diálogo se encontrar sem constrangimento, sentir-se bem, com simpatia, eu
diria que sim. Ele me trata muito bem quando me encontra. Mas do ponto de vista
do diálogo político, não está bem. Por exemplo, peguei a lista de secretários e
fiquei até encabulado de dizer que não os conheço. Tem o Georges Michel, que é
do meu partido, o Jaime Recena, filho de um amigo meu, a Leila, que é uma
grande personagem, e tem aqueles supernomes como Marcos Dantas e Hélio Doyle.
Tem também a Leany, porque é do Senado. Eu não conheço o resto, praticamente.
De ter contato, nenhum, e de ter vindo falar comigo, nunca tinha vindo nenhum,
até essa semana. O novo chefe da Casa Civil, Sérgio Sampaio, veio falar comigo
e no outro dia veio o Marcos Dantas. Não era nem pra dizer quem nós
indicamos este ou aquele, até porque não queremos isso. Queremos indicar
propostas. Segunda-feira houve a reunião do conselho político e o presidente do
PDT me disse que ele pediu que nós elaboremos uma lista de sugestões e
propostas. Vamos entregar na próxima semana. Na área da crise econômica,
por exemplo, eu fui governador, passei por crises – não tão sérias quanto
essas, mas passei por algumas – e sou do ramo, professor de economia da UnB.
Sou amigo do pessoal que pensa economia e finanças nessa cidade. Eu soube pelo
Jornal de Brasília sobre a privatização, mas não sou contra, não. Ele poderia
ter perguntado o que o PDT acha disso. Daríamos nossa opinião e ele não
precisaria levar em conta. Mas não existe diálogo no ponto de vista
consequente.
O senhor
criticou a falta de criatividade do governo, mas também desaprovou a atitude da
deputada Celina Leão ao sair da base. Por que?
Não
desaprovei a posição dela. Achei uma indelicadeza não ter aceito o meu pedido
de esperar dois dias. Tem um grande prêmio mundial, do mesmo nível do Nobel,
com premiação em US$ 1 milhão e eu sou do conselho que escolhe os vencedores. É
o rei do Bahrein que dá esse prêmio. Quando me avisou, eu estava lá para a
premiação, depois de um ano escolhendo o vencedor, entre 30 candidatos.
Inclusive antecipei minha volta, não por causa dela, porque deu para sair
antes. Pedi para que ela esperasse dois dias. Aí vejo que ela declarou a
ruptura para todos os lados. Então, nesse ponto foi uma certa falta de respeito
com o partido e talvez eu tenha faltado um pouco com a gentileza ao responder a
isso de uma maneira meio dura.
O senhor
foi pego de surpresa?
Sim,
absolutamente. Até porque achava que ela era a pessoa do meu partido mais
ligada ao Rollemberg. Foi a grande beneficiada do ponto de vista pessoal, com o
cargo de presidente da Câmara Legislativa. O Rodrigo teve um papel muito
importante nessa escolha, coisa que eu não tive, porque não tenho tanta relação
com os parlamentares distritais. Eu ajudei dentro do PDT, mas não lá na Câmara.
Para mim, foi uma grande surpresa.
O senhor
foi fundamental para a candidatura de Rodrigo Rollemberg e, antes, de Agnelo
Queiroz, do PT. Isso não o desanima em relação a fazer escolhas? Não seria mais
tranquilo ser candidato?
Eu tenho
dito isso a eles. E isso me lembra uma história. Um amigo meu um dia chegou
falando que ia se separar da mulher, que era a quarta esposa. Eu não aguentei e
disse: “Você pensou em tentar com um homem?” (risos). Perdi o amigo. Pois bem,
se pela segunda vez eu malograr, disse isso na reunião do PDT, eu não tenho
direito desse governo fracassar, porque a resposta seria essa, ser candidato. E
eu não quero ser candidato ao governo. Já passou, já deu minha contribuição,
vou estar com 74 anos na campanha. Então, o que eu vou fazer? O que eu povo vai
fazer quando eu chegar propondo um novo nome? E isso me leva a mostrar que o
Hélio Doyle não tem razão em dizer que eu torço contra o governo do Rodrigo.
Não posso, porque de alguma maneira vai ser um fracasso meu. Na verdade, tem
sempre aquela desculpa “era ele ou quem?”, mas de qualquer maneira isso vai
marcando na opinião pública. Que fiador, avalista é esse? Felizmente, ainda dá
tempo de dar certo.
Até
agora, qual a diferença entre os governos Rollemberg e Agnelo?
(risos) É
que o Rodrigo veio depois do Agnelo e pegou um abacaxi muito pior do que o
Agnelo. Embora o PT diga que não. O Chico Vigilante diz que o PT recebeu um
governo do Rosso pior do que o Rodrigo recebeu. Mas eu acho que não. Aliás não
foi tanto dele, Rosso, que se seguiu a um período caótico de três ou
quatro meses, foi escolhido pela Câmara, sem o apoio popular. Mas não deixou
uma bomba como o Agnelo deixou, com os aumentos salariais que vêm por aí. O
Rosso deixou mato, mas não dívidas como o Agnelo. Do meu ponto de vista,
há uma grande diferença. No governo Agnelo, por incrível que pareça, eu tinha
muito mais gente próxima dele, nenhuma indicada por mim. Mas se quisesse mandar
um recado para o governador, tinha dez pessoas, meus companheiros do PT. No
governo Rodrigo, eu não tenho. Minha relação pessoal com o Agnelo não era boa
como a que eu tenho com o Rodrigo. Mas a relação política era melhor.
Por mais
conturbado que fosse, o governo Agnelo tinha uma base na Câmara, coisa que
Rollemberg parece não ter. O senhor tem essa visão?
É verdade,
até porque o PT é base mesmo e nem o PDT a gente pode garantir como tal, por
ter divisões internas. O PT, na hora H, fecha com o governador, mesmo batendo
bastante, assim como fez comigo quando era governador. Era o que Magela e Lúcia
Carvalho faziam comigo. Mas, se a gente reunisse o PT, fechava. Em compensação,
quando eu fui governador a oposição era muito mais brava. Não vou citar nomes,
mas vocês lembram o poder que tinha um deputado. Muito dinheiro e nenhum escrúpulo.
Dos que estão aí hoje, nenhum tem aquele poder ou é tão sem escrúpulos. Pode
até haver interesses em pegar cargo, mas existe uma postura de respeito, um
limite. Contra mim, foi oposição sem limite. E não tinha Fundo
Constitucional. Existia a tradição de ir todo mês ao governo federal com o
pires na mão.
O Plano
Distrital de Educação foi aprovado sem incluir a identidade de gênero no
conteúdo. Qual sua opinião sobre isso?
Tem que
colocar, é uma realidade. Mas é um movimento que tem crescido por todos os
lados, o movimento fundamentalista e preconceituoso. É muito perigoso. Tem uma
lei que quer, em nome de impedir a doutrinação, censurar o professor. Chama-se
Escola sem Partido, da deputada Sandra Faraj. Hoje, censura-se quem ela quer, o
que algum dia vai se voltar contra ela. Quando houver uma maioria com
preconceito contra os evangélicos, vai se proibir que um professor evangélico
fale disso. A única forma de quebrar doutrinação, a que eu não sou favorável, é
abrir para todo mundo defender o que quiser. A liberdade acaba com o
doutrinamento, que só funciona em pessoas meio tapadaso. Então, você tem que
liberar e não tolher. Eu sou contra doutrinar, mas não sou contra que você diga
o que você pensa, mesmo que você traga seu credo religioso ou que você defenda
sua religião. Mas também sou contra defender uma religião só. Tem que dar
liberdade a todas. Estamos caindo em um movimento fundamentalista e direitista
muito grande. São muitos os indicadores disso. Esse projeto está sendo
apresentado em todas as assembleias estaduais. E, por culpa da esquerda,
estamos deixando esse movimento crescer, na falta de propostas que
arregimentem, atraiam. Aí esse pessoal surge e começa a propor essas coisas. E
junta-se com a raiva contra a criminalidade praticada por jovens, que é
legítima. É uma raiva justa pelo jovem ser liberado após três anos. Mas nós
legisladores não podemos agir com base em raiva e vingança. Temos que trabalhar
com justiça e não vingança.
Se o
senhor soubesse de tudo o que está acontecendo, endossaria a candidatura de
Rollemberg?
Se o Reguffe
não quisesse ser candidato e se o Joe, que era outra alternativa, não
aceitasse, teríamos que endossar. Você precisa fazer essa pergunta daqui a um
ano. Mas esse é um problema de Brasília. Estamos ficando sem alternativas.
Daqui a pouco vai surgir a ideia de que Brasília não está preparada para se
autogovernar. Até por isso o governo Rollemberg tem que dar certo. Se não der
certo, não será só ele, e nós que o apoiamos, mas todos vamos ficar em xeque.
Fonte: Jornal de Brasília – Com: Daniel Cardozo
