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O que o BNDES tem a explicar

Congresso derruba sigilo das operações do banco de fomento. Está nas mãos da presidente Dilma Rousseff permitir que a instituição abra as negociações com empresas escolhidas e países amigos do governo petista

Principal financiador de obras de infraestrutura e de empresas que planejaram expandir os negócios, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) tem acumulado embaraços com operações realizadas nos últimos anos. Desde que o PT chegou ao Palácio do Planalto, a instituição financeira adotou a postura de eleger “campeões nacionais” — empresas escolhidas para receber financiamentos generosos; algumas, como as de Eike Batista, naufragaram. Também custeou projetos em países cujo sistema democrático é questionável. Parte dos constrangimentos ocorre porque o comando do banco se nega a revelar as condições e garantias dos empréstimos realizados nos últimos anos. 

O BNDES se recusa a prestar informações ao Ministério Público Federal (MPF), ao Tribunal de Contas da União (TCU) e a parlamentares, sob o argumento de que as solicitações ferem os princípios do sigilo bancário, resguardado em lei. Para quebrar essa barreira, deputados do PSDB fizeram uma emenda à Medida Provisória nº 661, de 2014, que autoriza o Tesouro Nacional a fazer um aporte de R$ 30 bilhões ao banco, abrindo a caixa-preta do banco. O texto, já aprovado pelo Senado Federal e à espera de sanção presidencial, determina que “não poderá ser alegado sigilo ou definidas como secretas as operações de apoio financeiro do BNDES, ou de suas subsidiárias, qualquer que seja o beneficiário, direta ou indiretamente, incluindo nações estrangeiras”.

A presidente da República, Dilma Rousseff, ainda pode vetar a medida, mas corre o risco de ser constrangida pelo Congresso Nacional com a derrubada de um possível veto. Além de esconder as condições de financiamento, o BNDES é investigado pelo MPF por outras ações questionáveis. Em uma representação, procuradores afirmam que o banco recebeu de maneira irregular do Tesouro Nacional R$ 500 bilhões, segundo revelou a revista Época. O documento sustenta que os recursos saíram da conta única do Tesouro, criada para situações de emergência. Na avaliação do Ministério Público, o governo deveria fazer uma captação de recursos no mercado ou repassar para a instituição financeira recursos oriundos do recolhimento de impostos. 

Sem resposta aos pedidos de esclarecimento, parlamentares tentam, sem sucesso, criar uma comissão parlamentar de inquérito (CPI). Deputados e senadores querem investigar empréstimos ao grupo JBS-Friboi e financiamentos concedidos a países alinhados com o governo petista, como o Porto de Mariel (Cuba) e grandes obras na Venezuela e em países africanos. Uma CPI só não foi instalada no Senado na primeira semana de abril porque o governo conseguiu convencer aliados a retirar as assinaturas do requerimento de criação.

Problemas
Um ex-diretor do BNDES ouvido na condição de anonimato explicou que, até 2002, a estatal tinha o hábito de financiar exportações de bens de alto valor agregado, como aviões da Empresa Brasileira de Aeronáuica(Embraer). Conforme ele, todas as agências estrangeiras de financiamento fazem essas operações para fomentar os negócios com companhias de outros países. “Essa atividade do banco é desejável e encontra paralelo em todos os países que têm importância econômica”, afirma. Entretanto, ele ressalta que seria estranho uma operação ser determinada por uma variável não bancária, como ligações políticas. 

Para o professor do Insper, Sergio Lazarini, o sigilo do BNDES é um grande imbróglio. “O argumento do banco, de que é uma instituição financeira e tem direito ao sigilo bancário, procede. Porém, o BNDES não é um banco normal porque oferece taxas menores, com subsídios”, explica. Por atuar com dinheiro público, do Tesouro Nacional, deveria prestar informações sobre suas operações. “A sociedade quer clareza e transparência nas operações do BNDES. Seria desejável que ele explicasse também quais são os critérios de escolha para beneficiar essa ou aquela empresa”, destaca.

Ao mesmo tempo em que o especialista acredita que o BNDES não pode passar por cima dos marcos legais que regulam a atividade bancária, ele sugere que a instituição faça uma análise de custo-benefício e abra os dados sem identificar o tomador, para tornar o processo mais transparente. “Com isso, teria evidências de que os empréstimos foram necessários e criteriosos, sem revelar o contrato todo”, defende.

Um dos autores de requerimentos de pedidos de informação negados pelo BNDES, o senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), avalia que o banco tem uma importância estratégica na construção de políticas para o país, mas questiona a atitude do governo de manter no banco o mesmo nível de intervenção como o que exerce na Petrobras e em outras estatais. “Isso tem levado a instituição a se submeter a níveis de fragilidade que trazem prejuízos enormes.” Ferraço avalia que, como as operações são subsidiadas com tributos dos contribuintes, as condições não devem ser secretas. 

Procurado, o BNDES informa que está em processo de negociação com parlamentares da Comissão de Assuntos Econômicos para revisar as condições a fim de liberar informações.


"A sociedade quer clareza e transparência nas operações do BNDES. Seria desejável que ele explicasse também quais são os critérios de escolha para beneficiar essa ou aquela empresa”
(Sergio Lazarini, professor do Insper)



Fonte: Antonio Temóteo - Simone Kafruni - Correio Braziliense 

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