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O ajuste se arrasta


Não é bravata nem truque para assustar os teimosos. Tem razão o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, quando avisa que o risco de o Brasil perder o grau de investimento nas grandes agências internacionais de rating permanece alto. O que houve até agora foi apenas adiamento de decisões, enquanto se espera que o governo comprove que está, de fato, levando à frente os ajustes destinados a restabelecer a racionalidade e a responsabilidade na gestão das contas públicas.

Os últimos dados oficiais indicam que o ministro tem razões de sobra para se preocupar. A verdade é que, apesar de todo o latim gasto no Congresso e no interior do próprio governo, o ajuste fiscal ainda se arrasta e os primeiros três meses do segundo governo Dilma fecharam com péssimas notícias. 

Ontem, o Banco Central divulgou, sem subterfúgios ou pedaladas — o que é uma das coisas boas que ainda temos em nossa jovem democracia —, o balanço fiscal de março e do primeiro trimestre: houve superavit primário de R$ 19 bilhões nas contas do setor público (União, estados e municípios). Mas resultado fiscal positivo é comum no começo do ano e o de 2015 é simplesmente o pior primeiro trimestre desde 2009, quando, no miolo da crise financeira mundial, o superavit foi de R$ 18,9 bilhões. Nos três últimos anos do primeiro governo Dilma, o superavit primário do primeiro trimestre despencou de R$ 45,9 bilhões, em 2012, para R$ 25,6 bilhões em 2014.

O resultado de 2015 não é, portanto, animador para quem precisa sinalizar para os investidores e agentes econômicos com a inversão da curva de maus resultados fiscais dos últimos anos. A meta de fechar este ano com superavit primário equivalente a 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) fica mais distante e difícil quando se constata que o resultado do trimestre ajudou menos do que se esperava. De fato, no acumulado dos últimos 12 meses encerrados em março, as contas do setor público acumulam um deficit primário equivalente de 0,7% do PIB.

Em vez de melhorar, os dados do Banco Central indicam que as contas do setor público brasileiro pioraram, até agora, em relação a 2014, já que, no ano passado, o deficit foi de 0,64% do PIB nesta época do ano. E o pior resultado continua sendo o do governo federal, que, nos 12 meses encerrados em março, teve deficit acumulado de R$ 27,9 bilhões, equivalente a 0,5% do PIB. No mesmo período, o deficit de estados e municípios somou R$ 6,4 bilhões, ou 0,11% do PIB. 

Como quase não há fato isolado na macroeconomia, a decisão que o Banco Central foi obrigado a tomar na quarta-feira, de aumentar em 0,5 ponto percentual a taxa básica de juros (Selic), que passou a ser de 13,25% ao ano, não apenas reflete a reação da autoridade monetária à pressão sobre os preços (em boa parte causada pelo gasto público elevado), como também significa mais gastos com o serviço da dívida pública e, certamente, mais endividamento.

No primeiro trimestre, o pagamento de juros da dívida consumiu nada menos do que R$ 143,8 bilhões, representando 10,4% do PIB. Com esse novo aumento da Selic, será inevitável o aumento do gasto com os juros e, portanto, a piora do resultado nominal do balanço fiscal. Como não se espera melhora na arrecadação pela via da expansão da economia, o risco de o contribuinte pagar mais tributos aumenta na razão inversa da capacidade política do governo de fazer cortes mais profundos. Ou seja, que a cidadania comece a reagir logo.



Fonte: Correio Braziliense  

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