No auge da crise financeira internacional de 2008 — aquela
considerada uma marolinha pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva —, o
petista disse que o Brasil daria o exemplo ao mundo, especialmente aos países
desenvolvidos, de como superar as turbulências sem deixar de investir, crescer
e garantir emprego e renda.
Veio
2015, a economia brasileira desabou, a presidente Dilma Rousseff, reeleita,
viu-se obrigada a esquecer o que disse no passado e promover um ajuste fiscal
rígido. Aqueles que estavam dispostos a ensinar se viram na necessidade de
aprender. O vice-presidente, Michel Temer, viajou para Espanha e
Portugal, na semana passada. Oficialmente, uma negociação para que aviões
brasileiros da Embraer fossem comprados por espanhóis e portugueses.
Mas Temer
aproveitou também para descobrir como Portugal e Espanha superaram os ajustes
fiscais draconianos que promoveram, retomaram o crescimento do PIB e abriram
novamente os cofres para investimentos. Aqui, o debate ainda está na primeira
fase: a tesoura. Lá, a tesoura cortou fundo, sangrou tudo, mas o paciente
sobreviveu e já até teve alta. Portugal cresceu 2%, em 2014, e deve chegar a
2,5% até 2016. A Espanha cresceu 3% no ano passado.
Se
Joaquim Levy é homenageado diariamente por esquerdistas, sindicalistas e
trabalhadores, seu companheiro português deve ter feito um trabalho especial
para manter o corpo fechado. Lá, eles seguraram 20% do salário do
funcionalismo, enxugaram a máquina pública, compraram briga com sindicatos e
trabalhadores.
Para sair
do sufoco e não se limitar apenas a cortes profundos — olha outra crítica que a
equipe econômica daqui enfrenta —, os portugueses avançaram nas reformas
estruturais, alteraram legislações trabalhistas e, especialmente, promoveram
completa modernização no sistema portuário nacional, apostando nas concessões
como a única maneira de alavancar o setor. Com isso, tiveram condições de
escoar a produção interna e reverter o saldo negativo da balança comercial.
O Brasil
aprovou uma medida provisória dos portos que ainda espera regulamentação e
enfrenta disputas políticas. Estamos na fase da ameaça de tesouradas, sem saber
como sairemos do outro lado do túnel. Sete anos depois do crash mundial,
desaprendemos como ser exemplo para as demais nações.
Por: Paulo de Tarso Lyra – Correio Braziliense

