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É preciso acabar com a contabilidade criativa no país

A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) — Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2000 — estabelece, em regime nacional, parâmetros a serem seguidos relativos ao gasto público de cada estado e município. As restrições orçamentárias visam preservar a situação fiscal dos entes federativos, de acordo com os balanços anuais, a fim de garantir a saúde financeira, a aplicação de recursos nas esferas adequadas e uma boa herança administrativa para os futuros gestores. Entre os itens está previsto que aumento de gasto precisa vir de fonte de financiamento correlata e os gestores devem respeitar questões relativas ao fim de cada mandato, não excedendo o limite permitido e entregando contas saudáveis para o sucessor. Um dos mais fortes instrumentos de transparência em relação aos gastos públicos, indicando os parâmetros para uma administração eficiente, a LRF brasileira se inspirou em outros exemplos bem-sucedidos ao redor do mundo, como os Estados Unidos e a Nova Zelândia.

Os 15 anos da LRF, completados na segunda-feira passada, seriam motivo de júbilo para o país se esse esteio da estabilidade econômica em âmbitos federal, estadual e municipal continuasse sendo observado com rigor por gestores públicos. Como muitos deles não têm consciência dessa responsabilidade, a data deveria pelo menos servir de alerta. A sociedade e, particularmente, os órgãos de fiscalização, precisam melhorar as performances para que o instrumento legal cumpra o seu papel, que é o de garantir o controle dos gastos públicos nos 5,6 mil municípios, nos 26 estados, no Distrito Federal e no âmbito da União. Não podem ficar de fora dessa empreitada os poderes Legislativo — câmaras municipais, assembleias estaduais e o Congresso Nacional — e Judiciário — tribunais nas diferentes instâncias da Federação. Urge também que os tribunais de Contas da União (TCU) e dos estados (TCEs) deixem de atuar politicamente, pautando-se apenas e exclusivamente por critérios técnicos. 

Ninguém pode ignorar que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, está empenhado em recuperar a qualidade dos gastos públicos, como forma de garantir o sucesso do ajuste fiscal ora em discussão acirrada no Congresso. Há que se lamentar que, nos últimos tempos, floresceu no país, nas três esferas administrativas, a alcunhada contabilidade criativa, o que fez União, estados e municípios agirem no limite de risco. Gerir bem a coisa pública deveria fazer parte do DNA dos administradores do dinheiro arrecadado pelo erário, aliás, advindo de pesada carga tributária, algo em torno de 35% do Produto Interno Bruto (PIB). Reforça-se, pois, que é imprescindível que o Brasil se reconcilie com a austeridade e recupere princípios que adotou num passado recente para estancar a inflação e conquistar a credibilidade de investidores, interna e externamente. Que a debutante LRF seja respeitada e cumprida à risca pelos nossos gestores, para que o país volte a crescer em níveis compatíveis com sua importância no cenário internacional.

Fonte: Visão do Correio Braziliense  

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