Paulo Roberto: "O conselho da Petrobras é inócuo. Concorda com tudo"
Em depoimento à Justiça Federal, o homem-bomba Paulo Roberto
Costa diz que a presidente Dilma Rousseff e o ex-ministro Guido Mantega
prejudicaram a Petrobras ao não separar o "chapéu" do Planalto do da
estatal
O ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto
Costa disse à Polícia Federal que a presidente Dilma Rousseff e o ex-ministro
da Fazenda Guido Mantega prejudicaram a estatal quando presidiram o Conselho de
Administração da petroleira. Segundo disse em delação premiada gravada em vídeo
em 11 de setembro passado, os dois agiam contra os interesses da empresa para
beneficiar o governo. “O pessoal não consegue separar o chapéu de empresa do
chapéu de governo”, afirmou Paulo Roberto, de acordo com as imagens que
integram os autos dos inquéritos da Operação Lava-Jato no Supremo Tribunal
Federal (STF). “É uma relação muito complexa. É tirar o boné de governo e se
colocar o boné de empresa”, comentou.
Ele disse
que o Conselho de Administração é um órgão político e omisso que contraria os
interesses da própria estatal por nunca questionar os desejos do Poder
Executivo. “Hoje, o conselho da Petrobras é inócuo”, continuou Paulo Roberto
Costa, diante do delegado Eduardo Mauat e do procurador Roberson Pozzobom, em
uma sala da superintendência da PF em Curitiba, semanas antes do primeiro turno
das eleições presidenciais. “Hoje funciona como maria vai com as outras.
Concorda com tudo. Ninguém discorda do ministro da Fazenda.”
Para
exemplificar a intromissão que julga indevida na estatal, Paulo Roberto mencionou
o aumento da gasolina, pretendido pela estatal, mas barrado pelo governo de
Dilma a fim de não pressionar os índices de inflação durante seu primeiro
mandato. O ex-diretor fez o pedido cinco vezes, sugerindo elevação gradual dos
preços, para não causar prejuízos à petroleira.
Paulo
Roberto disse que, na última vez em que tentou emplacar a proposta, tinha o
apoio do então presidente da estatal, José Sérgio Gabrielli, mas ambos foram
repreendidos por Mantega na reunião do conselho. “Ele falou: ‘Paulo, você é um
cara muito chato: vou mandar você e Gabrielli — isso é fato — para a China”,
contou. O ex-diretor diz que Gabrielli perguntou o motivo da escolha do país
asiático. “Porque lá ninguém reclama”, teria respondido Mantega, de acordo com
o relato de Paulo Roberto aos policiais e procuradores da Lava-Jato. O
ex-gerentes da Petrobras Venina Velosa e Fernando Sá disseram que foram
removidos para Cingapura, no sudeste asiático, porque fizeram denúncias de
irregularidades na administração da estatal.
Mauat questionou
a Paulo Roberto qual foi o comportamento de Dilma no conselho entre 2003 e
2009. “Foi a mesma coisa que o Guido Mantega”, respondeu o delator. “A posição
dela era sempre... o pessoal não consegue separar o chapéu de empresa do chapéu
de governo. É muito difícil essa relação.” O ex-diretor voltou a citar Mantega
e os pedidos de reajustes de preços. “Uma vez ele me disse o seguinte: ‘Paulo,
você é contra o Brasil?’. Eu falei: ‘Não sou contra o Brasil, sou a favor da
Petrobras, estou aqui como diretor, não sou ministro do Brasil.’”
Os demais
diretores, mesmo os ligados ao empresariado, também eram omissos e “inócuos”,
segundo o ex-diretor. Ele mencionou os ex-conselheiros Jorge Gerdau e Sérgio
Quintela. “Eles se sentem retraídos em termos de opinar, coisas que o
presidente do conselho traga”, disse. “O próprio Gerdau tem ‘ene’ interesses
com o governo: ele vai criar caso com o ministro da Fazenda?”. Ele ainda disse
o sistema de auditorias da Petrobras pode sofrer “ingerência política” e
deveria ser mais “rigoroso”.
O Palácio
do Planalto e a Petrobras disseram ao Correio que não comentariam as
declarações de Paulo Roberto Costa. O ex-ministro Guido Mantega foi procurado
por meio de ex-secretária, mas ela não retornou os recados deixados em seu
telefone. Jorge Gerdau não foi localizado na empresa: o único funcionário disse
ontem por volta de 18h que o expediente só reiniciaria hoje às 7h30. A
reportagem não localizou Sérgio Quintella e José Sérgio Gabrielli.
Bloqueio de R$
550 milhões
O
Ministério Público Federal anunciou ontem que a Justiça determinou o bloqueio
de R$ 241.541.922,12 da construtora Camargo Corrêa e da empresa Sanko Sider e
outros R$
302.560.926,48 da Galvão Engenharia, segundo o portal G1. As três empresas são
citadas em processos da Operação Lava-Jato. A decisão foi tomada por uma vara
cível em Curitiba, em que tramitam alguns dos processos da Lava-Jato. Somado
com outras quantias retidas em abril, como os R$ 153 milhões da Engevix, o
valor do bloqueio das contas de construtoras chega a R$ 697 milhões.
“Hoje funciona
como maria vai com as outras. Ninguém discorda do ministro da Fazenda”
(Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras)
Por: Eduardo Militão – Correio Braziliense
