Casos recorrentes de racismo e de injúria racial chamam a atenção na capital federal. No caso da manicure ofendida em um salão de beleza da Asa Sul, a acusada trabalha na CEB e responde a mais de uma sindicância interna na companhia por "indícios de atitudes racistas". Ela está em liberdade.
A manicure Tássia dos Anjos, de 22 anos, foi discriminada na última sexta-feira: "Ainda estou em choque".
Por: Adriana Bernardes - Matheus Teixeira - Correio Braziliense - 18/02
A capital que abriga gente de todo canto do Brasil e tem representações diplomáticas de diferentes continentes cultiva a intolerância contra a cor da pele do seu semelhante. Enquanto uma parcela da população assiste perplexa aos recorrentes crimes de racismo, as vítimas são tomadas pela impotência e pela revolta, pois não conseguem o respaldo legal para a punição exemplar dos algozes. São tantos casos no Distrito Federal que o governo determinou a criação de quatro seções especializadas em crimes de racismo e de injúria racial dentro de unidades policiais.
Além da intolerância praticada duas vezes contra a cobradora Claudinei Gomes, inclusive ao ser impedida de registrar a ocorrência na delegacia (leia reportagem na página 20), um dos casos mais recentes envolve a funcionária da Companhia Energética de Brasília (CEB) Louise Stephanes Garcia Gaunth. Na última sexta-feira, empregadas e clientes de um salão de beleza na 115/116 Sul se revoltaram quando ela ofendeu a manicure Tássia dos Anjos, 22 anos. A cliente teria dito que a trabalhadora negra era “raça ruim” e ainda pediu que a vítima se retirasse. A australiana foi presa em flagrante e libertada pela Justiça em menos de 24h.
Essa não seria a primeira denúncia contra a acusada. Por meio de nota, a CEB esclareceu que a empregada responde a mais de uma sindicância interna na empresa por “indícios de atitudes racistas”. A companhia informou que encaminhará para o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios o resultado da apuração. Em relação ao episódio contra a manicure, a CEB analisa quais medidas administrativas poderão ser tomadas.
Tássia voltou ao trabalho ontem. “Ainda estou em choque. A agressão verbal dói mais do que qualquer outra. A vida continua. A melhor resposta para isso é seguir em diante com mais força que nunca”, desabafa (leia Depoimento). Para ela, no entanto, o desfecho inicial do caso se mostrou uma decepção. “Pensei que ela (Louise) pagaria pelo que fez. A polícia veio e a levou para a delegacia no mesmo momento. Mas, no outro dia, acordei com a notícia de que ela havia sido liberada”, lamentou.
A australiana chegou a ser encaminhada à Penitenciária Feminina no Gama, mas a Justiça determinou que ela responda ao processo em liberdade. A vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no DF, Indira Quaresma, explica que a decisão do magistrado seria o único caminho possível. “Como o crime é inafiançável, o acusado é apresentado ao juiz para que ele averigue se é o caso de relaxamento — quando a prisão é ilegal — ou se é o caso de prisão preventiva, quando há risco de fuga ou possibilidade de o réu atrapalhar as investigações. Se não há nenhuma das opções, só há uma alternativa: colocar em liberdade”, esclareceu.
O Correio tentou falar com o advogado de Louise ao longo do dia, mas ele não retornou os recados deixados na caixa postal.
O governador Agnelo Queiroz lamentou a agressão racial no salão de beleza: "O racismo é lamentável em qualquer situação, e é por isso que o GDF tem políticas públicas de combate à discriminação, com o Disque-Denúncia. A população tem consciência disso, tanto que a denúncia de foi feita pelas pessoas que estavam no salão de beleza. Uma atitude que merece nosso respeito", disse Agnelo.
"Como o crime é inafiançável, o acusado é apresentado ao juiz para que ele averigue se é o caso de relaxamento - quando a prisão é ilegal - ou se é o caso de prisão preventiva, quando há risco de fuga ou possibilidade de o réu atrapalhar as investigações. Se não há nenhuma das opções, só há uma alternativa: colocar em liberdade" Indira Quaresma, vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB no DF.
“Macaca suja”
Na tarde de ontem, a reportagem identificou mais duas vítimas. Jerônimo Carlos Souza, 51 anos, coordenador de garagem de uma empresa de ônibus do DF, relatou três agressões nos últimos 10 anos, todas denunciadas à polícia (leia mais na página seguinte). Carlos Alberto Santos de Paulo, especialista em relações raciais e política social, foi constrangido por funcionários de uma loja de telefonia em Aracaju e presenciou uma jovem ser xingada de “macaca suja” por uma mulher na entrada de um banco, também na capital sergipana. “A minha vontade é de não voltar mais aqui (Sergipe). É muito constrangedor. São situações que, seguramente, quem puder vai para terapia, e quem não puder vai para o manicômio”, desabafa.
Depoimento “É difícil se recuperar”
“Quando a mulher entrou no salão, a recepcionista disse que eu seria a manicure que pintaria suas unhas, e ela perguntou: ‘Tem de ser ela?’ Mandaram outra funcionária atendê-la, e eu e uma colega ficamos sentadas, pois não tínhamos nada para fazer. Nesse momento, ela voltou a me agredir. Pediu para eu me retirar do ambiente porque não queria ficar olhando para mim. Eu me revoltei, e ela disparou de novo: ‘Por que só gente da tua cor fala comigo, raça ruim?’ Uma outra cliente, também negra, irritou-se e elas começaram a discutir. Naquela hora, nem isso eu consegui, estava sem força. Mas a confusão continuou, e a polícia chegou e levou a mulher para a delegacia. É difícil se recuperar depois de ser xingada dessa forma, e depois, para piorar, ainda fiquei sabendo que ela já foi liberada. Isso é um absurdo. Ela tem de pagar pelo que fez. A Justiça, mais uma vez, deixou a desejar.”
Tassia dos Anjos, 22 anos, manicure vítima de injúria racial na última sexta-feira
A manicure Tássia dos Anjos, de 22 anos, foi discriminada na última sexta-feira: "Ainda estou em choque".
Por: Adriana Bernardes - Matheus Teixeira - Correio Braziliense - 18/02
A capital que abriga gente de todo canto do Brasil e tem representações diplomáticas de diferentes continentes cultiva a intolerância contra a cor da pele do seu semelhante. Enquanto uma parcela da população assiste perplexa aos recorrentes crimes de racismo, as vítimas são tomadas pela impotência e pela revolta, pois não conseguem o respaldo legal para a punição exemplar dos algozes. São tantos casos no Distrito Federal que o governo determinou a criação de quatro seções especializadas em crimes de racismo e de injúria racial dentro de unidades policiais.
Além da intolerância praticada duas vezes contra a cobradora Claudinei Gomes, inclusive ao ser impedida de registrar a ocorrência na delegacia (leia reportagem na página 20), um dos casos mais recentes envolve a funcionária da Companhia Energética de Brasília (CEB) Louise Stephanes Garcia Gaunth. Na última sexta-feira, empregadas e clientes de um salão de beleza na 115/116 Sul se revoltaram quando ela ofendeu a manicure Tássia dos Anjos, 22 anos. A cliente teria dito que a trabalhadora negra era “raça ruim” e ainda pediu que a vítima se retirasse. A australiana foi presa em flagrante e libertada pela Justiça em menos de 24h.
Essa não seria a primeira denúncia contra a acusada. Por meio de nota, a CEB esclareceu que a empregada responde a mais de uma sindicância interna na empresa por “indícios de atitudes racistas”. A companhia informou que encaminhará para o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios o resultado da apuração. Em relação ao episódio contra a manicure, a CEB analisa quais medidas administrativas poderão ser tomadas.
Tássia voltou ao trabalho ontem. “Ainda estou em choque. A agressão verbal dói mais do que qualquer outra. A vida continua. A melhor resposta para isso é seguir em diante com mais força que nunca”, desabafa (leia Depoimento). Para ela, no entanto, o desfecho inicial do caso se mostrou uma decepção. “Pensei que ela (Louise) pagaria pelo que fez. A polícia veio e a levou para a delegacia no mesmo momento. Mas, no outro dia, acordei com a notícia de que ela havia sido liberada”, lamentou.
A australiana chegou a ser encaminhada à Penitenciária Feminina no Gama, mas a Justiça determinou que ela responda ao processo em liberdade. A vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) no DF, Indira Quaresma, explica que a decisão do magistrado seria o único caminho possível. “Como o crime é inafiançável, o acusado é apresentado ao juiz para que ele averigue se é o caso de relaxamento — quando a prisão é ilegal — ou se é o caso de prisão preventiva, quando há risco de fuga ou possibilidade de o réu atrapalhar as investigações. Se não há nenhuma das opções, só há uma alternativa: colocar em liberdade”, esclareceu.
O Correio tentou falar com o advogado de Louise ao longo do dia, mas ele não retornou os recados deixados na caixa postal.
O governador Agnelo Queiroz lamentou a agressão racial no salão de beleza: "O racismo é lamentável em qualquer situação, e é por isso que o GDF tem políticas públicas de combate à discriminação, com o Disque-Denúncia. A população tem consciência disso, tanto que a denúncia de foi feita pelas pessoas que estavam no salão de beleza. Uma atitude que merece nosso respeito", disse Agnelo.
"Como o crime é inafiançável, o acusado é apresentado ao juiz para que ele averigue se é o caso de relaxamento - quando a prisão é ilegal - ou se é o caso de prisão preventiva, quando há risco de fuga ou possibilidade de o réu atrapalhar as investigações. Se não há nenhuma das opções, só há uma alternativa: colocar em liberdade" Indira Quaresma, vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB no DF.
“Macaca suja”
Na tarde de ontem, a reportagem identificou mais duas vítimas. Jerônimo Carlos Souza, 51 anos, coordenador de garagem de uma empresa de ônibus do DF, relatou três agressões nos últimos 10 anos, todas denunciadas à polícia (leia mais na página seguinte). Carlos Alberto Santos de Paulo, especialista em relações raciais e política social, foi constrangido por funcionários de uma loja de telefonia em Aracaju e presenciou uma jovem ser xingada de “macaca suja” por uma mulher na entrada de um banco, também na capital sergipana. “A minha vontade é de não voltar mais aqui (Sergipe). É muito constrangedor. São situações que, seguramente, quem puder vai para terapia, e quem não puder vai para o manicômio”, desabafa.
Depoimento “É difícil se recuperar”
“Quando a mulher entrou no salão, a recepcionista disse que eu seria a manicure que pintaria suas unhas, e ela perguntou: ‘Tem de ser ela?’ Mandaram outra funcionária atendê-la, e eu e uma colega ficamos sentadas, pois não tínhamos nada para fazer. Nesse momento, ela voltou a me agredir. Pediu para eu me retirar do ambiente porque não queria ficar olhando para mim. Eu me revoltei, e ela disparou de novo: ‘Por que só gente da tua cor fala comigo, raça ruim?’ Uma outra cliente, também negra, irritou-se e elas começaram a discutir. Naquela hora, nem isso eu consegui, estava sem força. Mas a confusão continuou, e a polícia chegou e levou a mulher para a delegacia. É difícil se recuperar depois de ser xingada dessa forma, e depois, para piorar, ainda fiquei sabendo que ela já foi liberada. Isso é um absurdo. Ela tem de pagar pelo que fez. A Justiça, mais uma vez, deixou a desejar.”
Tassia dos Anjos, 22 anos, manicure vítima de injúria racial na última sexta-feira


