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Uma fortuna em cones

Vias públicas do Distrito Federal ganharam 32 500 sinalizadores, todos adquiridos por valor acima do praticado no mercado

           Asfalto dividido: as peças são enfileiradas para proteger ciclistas nas proximidades do Congresso (Foto: Roberto Castro)


Por: Ullisses Campbell

Faça sol ou chuva, todo domingo eles estão lá, firmes, no meio da rua, mesmo correndo grande risco de ser atropelados ou roubados. Só o Eixo Monumental e seus arredores reúnem cerca de 10 000 espécimes. No Setor Bancário Norte, dentro de áreas nas quais é proibido estacionar, existem 800 deles — ou um para cada 3 metros de via. Os dados grandiosos dizem respeito ao pouco comentado universo dos cones, peças quase onipresentes no trânsito da capital. Já acostumados com a paisagem pontilhada de laranja, os brasilienses ainda desconhecem uma, no mínimo curiosa, distorção existente na compra desses artigos. No ano passado, os três órgãos do governo responsáveis por organizar o tráfego no Distrito Federal pagaram valor acima da média do mercado para adquirir os objetos sinalizadores.

Os dados são contundentes. De acordo com o edital de licitação feito pelo Detran e pela Polícia Militar em 2013, cada uma dessas instituições comprou 15 000 cones ao preço de 144,90 reais a unidade. No total, desenbolsaram exatos 4 347 000 reais. Para não ficar atrás, o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) contratou a mesma empresa e adquiriu 2 500 cones fluorescentes. Nesse caso, cada exemplar saiu por 150 reais, totalizando um custo de 375 000 reais. Se realmente estivessem interessados em poupar o dinheiro público, esses órgãos poderiam ter feito uma simples pesquisa com governos em situação semelhante. Empresa especializada em venda de sinalizadores de trânsito, a gaúcha Telbras fornece exatamente o mesmo tipo de cone para o Detran do Rio Grande do Sul por 60 reais a unidade. Esse preço pode baixar, inclusive, para 56 reais se a compra for superior a 10  000 unidades. Resumindo: apenas com a lambança dos cones, o governo do Distrito Federal deixou de economizar 3,042 milhões de reais com essas transações, dinheiro suficiente para construir uma creche para 300 crianças.

Com sede na cidade paulista de São Caetano do Sul, a firma que vendeu os cones chama-se World Center Import. Nas páginas da companhia na internet aparecem fotos dos produtos adquiridos pelo governo distrital. Sem se identificar, a reportagem de VEJA BRASÍLIA procurou os representantes comerciais da empresa e pediu um orçamento para uma compra de 15 000 peças  com a exigência de que a mercadoria fosse idêntica à do Detran-DF. Em resposta, uma vendedora informou que, num pacote de 15 000 exemplares, o preço unitário seria de 131 reais. Somente nessa simulação, o desconto em relação ao negócio com o GDF foi de 208 500 reais. 


(Fotos: Roberto Castro)
Dentro do próprio governo, há quem compre o mesmo produto pagando bem menos. Segundo o edital de licitação 235/2013, publicado no portal Transparência no ano passado, 25 cones de sinalização de PVC flexível de alta resistência foram comprados pela Polícia Civil do DF por 27,74 reais cada um. Vale ressaltar que esse artigo é 2 centímetros menor do que os adquiridos pelos órgãos de trânsito na capital. Nada que justifique tamanha disparidade de valores. Aliás, certas coisas são mesmo difíceis de explicar. Ao ser questionada sobre as discrepâncias do negócio, a capitã da Polícia Militar do DF Aline Pereira Leandro, responsável pela aquisição dos cones do Batalhão de Trânsito em 2013, diz que o primeiro preço apresentado pela World Center para cada peça foi de 182,71 reais. No pregão, o valor teria caído para os 144,90. Atual responsável pelo setor de compras da Polícia Militar, o coronel Alexandre Antônio de Oliveira garante que as peças adquiridas recentemente são especiais; por isso, seriam mais caras. “Esses objetos têm película retrorrefletiva de alta performance, que os fazem brilhar mais à noite. Além disso, são ultraflexíveis, ou seja, o carro passa por cima, mas eles voltam ao formato original logo depois”, diz o militar. Em resposta à reportagem, o diretor-geral interino do Detran, Rômulo Félix, argumenta que nem sempre a empresa fornecedora de um produto com menor preço está apta a participar de uma licitação. O DER não esclareceu as razões do desperdício de dinheiro na aquisição dos objetos. 


Eixo Monumental:com a abundância de artigos, há sempre alguém querendo um para chamar de seu (Foto: Roberto Castro)

Embora caros, os sinalizadores alaranjados se espalham com velocidade pelas ruas e gramados da capital. No início de 2012, os órgãos que gerenciam o trânsito do DF tinham apenas 1 600 cones. Hoje, são proprietários de nada menos que 40 000 peças — um número 25 vezes maior. Para efeito comparativo, a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), que centraliza a fiscalização do trânsito em São Paulo, utiliza 18 000 peças nos 120,8 quilômetros de ciclofaixa de lazer ativos nos fins de semana. Isso significa cerca de 150 unidades para cada 1 000 metros de via. No DF, os nossos 7 quilômetros de vias para bicicletas do Eixo Monumental recebem 2 000, o equivalente a 285 exemplares por trecho de 1 000 metros. Em termos proporcionais, somos, com alguma folga, os campeões nacionais dos cones. Uma distinção nada abonadora.

Fonte: Revista Veja Brasília - 18/02

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