Parque musical
*Por Severino
Francisco
No ano de 2000, assisti ao
espetáculo O cano, da trupe Udigrudi, formada pela fusão de três experiências:
os grupos Liga Tripa, Música-À-Tentativa e do mesmo Udigrudi. A trupe é
integrada por Marcio Vieira, Luciano Porto e Marcelo Beré.
A direção que fez a alquimia das
três propostas era de uma inglesa baixinha, Leo Sykes, de olhos faiscantes. Ela
cresceu nos palcos, pois é filha de um casal de cineastas que trabalhava com o
inglês Peter Brook, diretor do Living Theatre.
Considerei O cano uma das produções
mais inventivas, surpreendentes e desconcertantes da história da cultura em
Brasília. É como se a cena fosse invadida por uma trupe dos irmãos Marx do
Terceiro Mundo, numa mixagem frenética de teatro, circo, pantomima, música e
humor.
Fiquei tão entusiasmado que eu
mesmo comecei a desconfiar que havia exagerado nos elogios da crítica que
escrevi sobre o espetáculo e a ouvir vozes: “É troca de favores entre amigos de
uma cidade provinciana”. Senti-me tão provocado pelas vozes que resolvi
respondê-las ali mesmo no texto e dobrei a aposta: “Um espetáculo de qualidade
em Brasília precisa ser bom no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Paris, em Nova
York e em Marte.”
Em seguida, eu mesmo fiquei
assustado com a minha pretensão. No entanto, três semanas depois, para meu
alívio, li a manchete no caderno Folha Ilustrada, da Folha de S. Paulo: “Grupo
de Brasília é a sensação no Fringe”. Ou seja: o Udigrudi ganhou o Herald Angel,
prêmio principal do Festival de Fringe de Edimburgo, na Escócia, o mais
importante evento de teatro do mundo.
A partir daí, a trupe decolou uma
carreira internacional, com a trilogia de espetáculos baseados em elementos
musicais excêntricos e se apresentou com sucesso em mais de 30 países. Um dos
aspectos mais admiráveis eram os instrumentos criados a partir de sucata por
Márcio Vieira, nosso bruxo do som. Ele inventou mais de 30.
Pois bem, em 2016, a trupe fez uma
exposição no CCBB e incluiu um parque sonoro para as crianças brincarem. Tinha
o Escorregaton, as gangorras afinadas ou o violanço. No ato de brincar, a
meninada extrai música. É sensacional. A exposição rodou por vários lugares de
Brasília e está em cartaz até hoje no Jardim Botânico. Ela só pôde se
desenvolver graças ao apoio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC).
Essa experiência tão inventiva e
encantadora do DiverSom tinha de se expandir para um grande parque sonoro
permanente. Seria uma atração turística com a marca de Brasília. Mantenho a
aposta: o que tem qualidade em Brasília precisa ser bom no Rio de Janeiro, em
São Paulo, em Paris, em Nova York e em Marte. A cidade não pode se dar ao luxo
da desinteligência de perder as suas energias criativas.
(*) Severino Francisco – Colunista do Correio
Braziliense – Foto/Ilustração: Blog - Google
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