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Uma coisa que tem que dar certo


Uma coisa que tem que dar certo 

*Por Jane Godoy

 A gente nasce, cresce, enfrenta o mundo e o que se coloca à nossa frente, com os ensinamentos, a força e a energia herdados de nossos pais, além da segurança e a disposição de seguir em frente, sempre fazendo e oferecendo o que temos de melhor. Em todos os sentidos.

Chega, então, o nosso tempo de seguir em frente, de enfrentar a vida, a carreira, aquilo por quê nos propusemos se tornar um meio de sobrevivência. Buscamos trabalho, buscamos vencer, buscamos qualidade de vida, vitórias e muito sucesso, “empoderamento”, palavra tão em moda hoje em dia.

Uns crescem mais, outros menos. Outros, por motivos que só o destino explica e justifica, crescem nada e, infelizmente, são colocados à margem do mundo e da sociedade.

Mas, como tudo o que norteia minha vida, desde criança, fruto dos ensinamentos recebidos de pais generosos e que, vencendo seus objetivos de vida, jamais deixaram de olhar para trás e para baixo, aprendi a lição e fiz dela o meu norte, a minha forma de viver neste mundo como eles: conjugando o verbo mais ouvido e assimilado de minha vida, que é ajudar.

Colecionadora contumaz de frase sábias, coerentes e educativas (exercício herdado de meu pai) encontro, entre as milhares que tenho, o que a hoje beata Madre Teresa de Calcutá, deixou para a posteridade: “Se não puderes ser um caminho, que sejas um atalho; se não puderes ser como o sol, que sejas apenas uma estrela. Mas, que sejas sempre o melhor que puderes!”

Essas verdadeiras pérolas de sabedoria, são uma das tônicas de nosso trabalho comunitário, há quase cinco anos em consonância com mais de 100 mulheres que, na medida do possível, “rezam na mesma cartilha”: o Mulheres de Brasília.

Então, aparecem as intempéries. O inesperado. O assustador. A triste e palpável realidade que se posta à nossa volta, nos deixando impotentes, quase decepcionadas e descrentes de que poderá haver luz no fim do túnel. Um incêndio inesperado, então, transforma em cinzas a vida de famílias da Cidade Estrutural. Desabrigados por causa do fogo que dizimou seus barracos de madeirite, tudo o que tinham virou pó. E as crianças, antes felizes com as doações de farto material escolar, em lindas mochilas, fruto de campanha feita desde janeiro deste ano, são obrigadas a assistir o vento levando a poeira fina com as cinzas daquilo que, um dia, as fizeram tão seguras de que teriam um ano letivo proveitoso e feliz. Isso porque, ao entregarmos as doações de material escolar, o fazemos com uma palestra sobre o valor e os cuidados que aquele material deve ter, por parte de cada uma e, principalmente pelos pais. “Nada cai do céu!”, fazemos questão de ensinar, antes de entregar a eles tamanha alegria.

Fazemos da nossa parte? Fazemos. Trabalhamos. Pedimos. Conscientizamos. Imploramos até. E conseguimos ajudar a quem precisa. Beleza!

Mas e quem pode mudar esse estado de coisas? E quem vai lá pedir votos, fazer barulho, festa, trio elétrico, promessas? Depois bate em retirada, nunca mais aparecem por lá (é claro que existem exceções e as conhecemos e sabemos muito bem quem são).
Por que não transformam cada comunidade como a Estrutural em “a bola da vez” e não planejam ordenar aquela miscelânea de barracos, aquelas vielas desordenadas e perigosas, sem saneamento básico, sem coleta de lixo, sem iluminação e rede de esgoto, sem segurança, sem o mínimo de condições de sobrevivência decente, numa demonstração de cuidados e zelo para com aquele seres humanos iguais a todos nós?

Será tão difícil fazer um arruamento decente, com iluminação, água encanada, rede de esgoto, casas de alvenaria? Aquele lugar é tão plano e fácil de lotear, mas parece que fazem questão de se esquecer que ele existe, que “gente” vive lá, com cabeça, tronco e membros, com todos nós, só que carregando o crachá onde deveríamos ler: “Fadado à miséria e ao abandono”.

Em nossas reuniões de trabalho, pensamos até em mobilizar os próprios desabrigados e, com o material de construção alí colocado, como tijolos, portas janelas, telhas, caibros, pias e bacias sanitárias (privadas) e tudo o mais, supervisionados por mestres de obras, estimulá-los a eles mesmo construírem suas próprias casinhas, estimulando-os a aprenderem um ofício, mostrando que são capazes e que podem, sim, ter uma profissão que os ajude a sustentar a família. Seria tão bonito e inédito se isso acontecesse….

Pedimos à arquiteta e parceira do Mulheres de Brasília, Mayara Kassiê, para que fizesse projetos para famílias com menos filhos e mais numerosas (foto). O resultado de um deles pode ser visto na planta baixa acima.

O que falta para fazer isso? Milhões e milhões? Não. Ninguém quer mansões ou palácios e jardins de Burle Marx. Querem uma casinha simples, com quarto, cozinha, sala e banheiro decente, com torneira e tanque jorrando água potável, com energia elétrica que possam acender e as crianças fazerem suas tarefas escolares ou ver seu desenho predileto. Um quintalzinho para plantar as coisinhas para comerem. Um teto de telha de barro (amianto está condenado!) para abrigar a família das intempéries, um cantinho para chamar de seu! Além de estimulá-los a cuidar e conservar, educá-los a zelar e respeitar aquilo que receberam e que tanto melhorou a sua qualidade de vida.

O que falta? Não acham que chegou a hora de transformar Brasília em modelo para as outras capitais ou cidades do interior que sofrem e vivem com o mesmo problema? E nós aqui, com tanta miséria, fome e tristeza, que acarretam tragédias há tão poucos quilômetros do centro do poder…

Falta vontade. Falta objetivo. Falta foco. Falta amor. Faltam pessoas que, em vez de pensar nas próximas gerações e no seu nome deixado gravado nos anais da história do país, como JK, parecem pensar tão somente nas próximas eleições!

E continuamos “como antes, no quartel de Abrantes”. Triste.

(*) Jane Godoy - Coluna 360 Graus – Fotos: Carlos Vieira/CB/D.A.Press – Mayara Kassiê/Divulgação – Valdete Drummond/Divulgação – Correio Braziliense


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