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LEGISLATIVO » Estatuto da Família revolta ativistas LGBT

Ativistas reuniram-se ao lado da Câmara Legislativa e prometem fazer barulho para que o Buriti não sancione o projeto de lei

Projeto de lei aprovado pelos distritais define entidade familiar como núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher e militantes pedem que governador o vete. Especialistas afirmam que proposição é inconstitucional

Militantes do movimento LGBT vão pressionar o governador Rodrigo Rollemberg para que ele vete o Projeto de Lei nº 173/2015, aprovado pela Câmara Legislativa na última quarta-feira. Caso a proposta seja sancionada, o texto será questionado na Justiça. O PL, que ficou conhecido como Estatuto da Família do DF, classifica como entidade familiar “o núcleo social formado a partir da união entre um homem e uma mulher”. Especialistas garantem que a iniciativa é inconstitucional, já que afronta uma decisão do Supremo Tribunal Federal, que em 2011 reconheceu a legalidade de uniões estáveis homoafetivas (leia O que diz a lei).

Além de caracterizar a família como o “grupo formado a partir da união entre um homem e uma mulher, por meio de casamento ou união estável”, o texto diz que a entidade familiar também pode ser entendida como “a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes”. O projeto, de autoria do deputado distrital Rodrigo Delmasso (PTN), estabelece ainda que o DF deve garantir à entidade familiar “condições mínimas para a sua sobrevivência, por meio de políticas que permitam a convivência saudável entre seus membros”. A iniciativa obriga o governo a dar prioridade ao atendimento social e psicológico, “sempre que a unidade familiar estiver sob ameaça”. A lei determina que os currículos do ensino fundamental e médio devem incluir a disciplina Educação para a família.

O presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família, Rodrigo da Cunha Pereira, classificou a lei aprovada como “ridícula e equivocada”. “É uma lei natimorta, já que não existe nenhuma dúvida quanto à inconstitucionalidade. O Supremo já decidiu que famílias formadas por pessoas do mesmo sexo são legítimas e devem ser reconhecidas. Estamos em uma era de inclusão de direitos, e essa proposta só existe para excluir direitos”, criticou o advogado.

Para Rodrigo da Cunha, a lei também cria uma “situação esdrúxula” ao estabelecer um conceito de família apenas para o Distrito Federal. “Só em Brasília a família deve ser constituída por um homem e por uma mulher? E se uma família homoafetiva atravessar o território e chegar a outro Estado, aí passa a ser reconhecida? As pessoas querem impor sua fé à maioria da população”, comentou o presidente do instituto.

Débora e Dayana Coqueiro, com Arthur: mães e filho questionam a definição de família levada em conta no texto


A presidente da Comissão de Diversidade Sexual do Conselho Federal da OAB, Maria Berenice Dias, af irma que, além de inconstitucional, a lei aprovada no DF “é discriminatória e preconceituosa”. “A Constituição Federal não define família. Quando fala em casamento, não fala em sexo, só quando menciona a união estável. Mas o Supremo Tribunal Federal, que tem a atribuição de interpretar a Constituição, já decidiu que o conceito não é excludente”, explica a advogada, considerada a maior especialista no assunto do país. “Esse conceito restritivo e limitador não está em nenhuma lei, nem na Constituição”, acrescenta.

Onda conservadora
Para Maria Berenice, a aprovação da versão brasiliense do Estatuto da Família comprova o crescimento da onda conservadora no país. “Uma lei nova não pode retroceder em termos de avanços sociais. Isso é um retorno à Idade Média. Preocupa-me muito esse avanço do movimento conservador, estamos em um momento complicado”, acrescenta Maria Berenice.

A aprovação do projeto suscitou a ira do movimento LGBT, que já se articula nas redes sociais com a hashtag #VetaRollemberg. O militante Fábio Félix conta que os ativistas se reuniram para debater estratégias contra a iniciativa. “A lei representa um enorme retrocesso. É mais uma proposta equivocada da bancada fundamentalista, que nada acrescentou à cidade. Se o Rollemberg sancionar esse absurdo, ele rasgará a própria história política”, comenta.

A estudante Débora Coqueiro, 25 anos, é casada com Dayana Coqueiro, 29. Elas têm um filho, Arthur, 8, e ficaram revoltadas com a aprovação do Estatuto da Família do DF. “Nosso filho vê com total naturalidade o fato de ter duas mães. Mas temos medo de que ele sofra preconceito fora de casa, até na escola. Se nós não formamos uma família aos olhos da lei, o que eu vou dizer a ele?”, questiona Dayana.


O que diz a lei
O Supremo Tribunal Federal decidiu, em 5 de maio de 2011, oficializar como união estável as relações entre pessoas do mesmo sexo. A votação foi unânime nesse sentido e, assim, a união homoafetiva passou a ser reconhecida como entidade familiar, e os casais homossexuais partilham dos mesmos direitos dos heterossexuais em união estável: herança, divisão de bens, plano de saúde etc. Uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI nº 4.277) e uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF nº 132) serviram de base para o STF. Segundo a argumentação do segundo instrumento, que depois se transformou em ADI, “o não reconhecimento da união homoafetiva contradiz preceitos fundamentais constitucionais como o princípio da igualdade e da liberdade e o princípio da dignidade da pessoa”.

Deputado nega discriminação
A diretora do Sindicato dos Professores Rosilene Corrêa critica duramente a legislação e afirma que a lei aprovada pela Câmara incita o preconceito. “Nossa posição é de lamentar profundamente que os deputados ignorem a realidade em que nós vivemos. A escola é um espaço que precisa ter capacidade de lidar com a diversidade, com políticas de combate à homofobia, ao racismo e pela valorização da mulher”, justifica. “Impor um único modelo de família é ignorar as crianças que são criadas por duas mulheres, por dois homens, apenas pela mãe, só pelo pai, ou, ainda, pelos avós. Qual é o objetivo da lei? Criminalizar essas famílias?”, questiona Rosilene.


Autor da lei, o deputado distrital Rodrigo Delmasso (PTN), que é pastor da igreja Sara Nossa Terra, afirmou ter ficado surpreso com a polêmica. Ele nega que a intenção da proposta seja discriminar homossexuais. “Na minha avaliação, o projeto de lei não exclui ninguém. Pelo contrário, ele defende a pluralidade e não deixa de fora nenhuma formação familiar”, assegura o parlamentar. Ele diz que está convicto quanto à constitucionalidade da proposta. “O projeto usa os mesmos termos do artigo 226 da Constituição. Como ele poderia ser inconstitucional?”, questiona Delmasso.

Sem exclusão
Para ele, a lei garante os mesmos direitos a famílias homoafetivas ou monoparentais. “O movimento LGBT criou essa celeuma. A polêmica é desnecessária e foi criada para tentar desqualificar um projeto que é crucial para o resgate da família”, acrescenta o deputado do PTN. “Não existe intenção de exclusão, pelo amor de Deus. Eu é que me sinto perseguido. Será que estão fazendo isso só porque sou evangélico? Todo evangélico é homofóbico?”, finaliza o distrital.


Fonte: Por Helena Mader, Correio Braziliense com foto de Carlos Moura/CB/D.A Press

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