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#URBANISMO » Lei do silêncio em discussão

Audiência pública, hoje, na Câmara Legislativa, debaterá possíveis mudanças nas regras de emissão sonora. Nova legislação prevê aumentar em até 15 decibéis o limite noturno. Músicos defendem a alteração, mas moradores incomodados são contrários

Os eventos culturais em espaços abertos, bares e restaurantes provocam um debate em alto volume em Brasília. O motivo: a lei do silêncio. De um lado, artistas lutam por novas regras que garantem a livre apresentação nas noites do Distrito Federal. De outro, moradores incomodados defendem a moderação do som após as 22h. A discussão tem mobilizado a sociedade civil, entidades de classe, produtores culturais e especialistas. Hoje, o debate ganha um novo capítulo. Uma audiência pública na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) discutirá a possibilidade de se alterar os níveis sonoros ao ar livre.

A Lei nº 4.092/2008, válida desde 2012, determina que o volume provocado por atividades em área mista com vocação comercial seja de, no máximo, 65 decibéis em ambientes externos durante o dia e de 55 dB durante a noite. O Projeto de Lei nº 445/2015 propõe que os limites sejam de 75dB no período diurno e 70dB no noturno (veja Arte). O autor da proposta, deputado Ricardo Vale (PT), considera que a atual norma tem sido rigorosa. “A lei é muito dura no DF. O índice de 55 dB é o menor do Brasil. Com a restrição, é impossível ter música ao vivo, culto ou missa em qualquer local com acústica ou espaço aberto. Em outras unidades federativas, os limites são de 60dB e até 85 dB, dependendo do horário e da região”, explica. 

Uma das representantes do movimento “Quem desligou o som?”, Gabriela Tunes defende a ampliação dos limites sonoros, além da mudança do local de aferição e da permissão da música em locais abertos. “O foco da lei atual é no incomodado e não no emissor. Que a legislação proteja o incomodado, mas sem amordaçar o emissor. Do jeito que está, a música é proibida em Brasília”, diz.

O coordenador do Fórum de Cultura do DF, maestro Rênio Quintas, propõe a mudança inclusive no nome. Para ele, a Lei do Silêncio pode ser chamada de Lei da Convivência. “Sem tirar o direito das pessoas de terem o seu repouso garantido, é preciso reestabelecer a convivência harmoniosa entre arte e cultura. Todo músico, hoje, que toque um instrumento pode ser taxado como criminoso ambiental”, denuncia. 

A promotora de Defesa do Meio Ambiente e Patrimônio Cultural (Prodema), Luciana Bertini Leitão, revela a preocupação do Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) com o descuido das normas existentes. Ela considera que o PL proposto apresenta inconsistências. “O Projeto de Lei fere a constituição e a própria Lei Orgânica do DF. Não se observou os zoneamentos urbanos do PDOT como a lei vigente fez. Além disso, se excluiu os limites nas áreas hospitalares e escolares, além de retirar o prazo de cinco anos para fazer o revestimento acústico”, disse.

Para a promotora, a proposta de se alterar os índices de decibéis pode ser danosa. “As áreas comerciais e residenciais ficam muito próximas. Já em estabelecimentos abertos, não há como se fazer revestimento acústico. A maior preocupação é que a mudança pretendida provoque poluição sonora cotidianamente”, defende.

Palavra de especialista - Sem argumento técnico
“A Organização Mundial da Saúde (OMS) indica o nível de 40 decibéis no período noturno. No entanto, pesquisas mostram que 55dB para ruído externo já causa uma série de danos à saúde, principalmente ao sono. A proposta de aumentar o limite para 75dB durante o dia e 70dB à noite não está baseada em nenhuma pesquisa científica que dê suporte a esses limites. A legislação atual não é precisa sobre como se deve fazer as medições acústicas e isso dá margem a interpretações.”
(Sérgio Garavelli, professor de engenharia da
Universidade Paulista (Unip) e pesquisador em acústica ambiental)

Os dois lados têm razão
“Dentro do projeto de Lucio Costa, estavam incluídas as áreas comerciais que se estabeleceram nas quadras, mas hoje a lei de zoneamentos trabalha com a ideia de que comércio local é uma coisa e as área residencial, outra.  Toda cidade precisa ser um local de diversão, mas, se não existe um setor de diversões, começaram a abrir nas quadras comércios locais e, a partir das 22h, os estabelecimentos precisam ir se adequando. Nessa história, os dois lados tem razão.”
(Antônio Carlos Carpintero, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de Brasília (UnB)

Povo fala:
Você acha que o limite de emissão sonora no Distrito Federal deveria mudar?

*Tayan Maciel, 25 anos, estudante
“Para quem mora perto de bares, deve ser complicado. Mas, se não me engano, só um alto falante de carro já ultrapassa o limite atual. Então, acho que deveria aumentar, sim”

*Marluce Lopes, 62 anos, empresária
“Sou contra o aumento do limite. Perto de onde moro, tem um bar que, todas as quintas-feiras, sextas e sábados, emite um barulho muito alto e ninguém consegue dormir”

*Ericson Marques,19 anos, cabeleireiro
“Acho que deveria manter como está. Já me incomodei com som alto durante a noite perto do local onde moro”

*Patrícia Moreira,36 anos, dona de casa
“Perto de onde moro é até tranquilo, mas escuto barulho de festas que acontecem em alguns locais distantes. Acho que esse limite não deveria aumentar”


Fonte: Isa Stacciarini – Correio Braziliense  

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