Quando a coisa se descortinou na minha frente, eu me assustei. Como morador de Brasília, não esperava situação tão grave. A situação é grave, mas tem que ter solução. E o governo foi eleito para isso
Novo chefe da Casa Civil admite que não esperava situação tão
grave, mas não aponta culpados. Ele rejeita o título de supersecretário,
defende alinhamento do Executivo com a Câmara Legislativa e revela pedido do
governador para concentrar esforços na saúde pública
O novo chefe da Casa Civil, Sérgio Sampaio, assume
o principal posto do Governo do Distrito Federal (GDF) com uma postura
diferente de seu antecessor, Hélio Doyle. Em entrevista ao Correio, o
secretário evidencia seu perfil conciliador e evita fazer críticas até mesmo ao
ex-governador Agnelo Queiroz (PT), acusado pela atual gestão de ser o
responsável pelo deficit financeiro. Sampaio defende um alinhamento do
Executivo com a Câmara Legislativa, afirma ter se “assustado” com a situação
financeira do GDF, mas evita apontar culpados pelas dificuldades.
Apesar de ter o papel de coordenar as ações de todo o governo, o
ex-diretor-geral da Câmara dos Deputados rejeita o rótulo de supersecretário.
Ele admite não ser um especialista na política do DF, mas conta que tem
analisado o funcionamento de todas as pastas do governo e revela um pedido
especial do governador Rodrigo Rollemberg (PSB) para concentrar esforços em
soluções para o caos na saúde pública.
Doyle, segundo ele, fez ótimo trabalho nos cinco primeiros meses de governo.
Agora, diz Sampaio, é dar continuidade às atividades do antecessor. “Não
adianta querer aqui fazer política de terra arrasada”, opina. Amigo do
procurador-geral de Justiça do DF, Leonardo Bessa, e alçado ao posto de
diretor-geral da Câmara por Aécio Neves em 2001, ele garante que não tem
padrinho político nem vinculação partidária.
Política do DF
Como eu atuava na Câmara dos Deputados, e lá os temas são inúmeros, só
conseguia acompanhar de perto a pauta da Casa. Não podia trabalhar dissociado
da agenda do Congresso, então, me prendia muito a isso. Claro que, como morador
da cidade, me interessava, lia. Mas vou ser sincero, eu não era um especialista
em política do DF.
Supersecretário
É uma secretaria que faz a coordenação da gestão. Não quero dizer que exista
posição de destaque ou posição de supersecretário. Isso não existe. Todo mundo
aqui trabalha em igualdade de condições, cada um na sua missão. A Casa Civil
tem o papel de coordenar. Se entenderem que isso é ser supersecretaria... Mas
creio que não seja.
Trabalhos
O governador me deu muitas linhas de ação. Pediu atenção especial à saúde, que
era trabalho que o secretário Hélio Doyle já vinha fazendo junto à secretaria
da área. Estamos estudando modelos de gestão de saúde, casos de sucesso, e tem
um material muito rico que já foi levantado. A gente pretende partir desse
trabalho que já foi feito. Não adianta querer aqui fazer política de terra
arrasada. Primeiro, porque não é o caso. Doyle respondia tecnicamente muito bem
sobre os temas, desenvolveu um ótimo trabalho até aqui, é muito elogiado por
todos. Não tem por que desprezar o que foi feito. Estou tentando me inteirar.
Vou tentando absorver o máximo no menor tempo possível. Ver em que ponto estão
os estudos para, a partir dali, retomar as atividades.
Saúde
Tem modelos de gestão de saúde, mas também tem questões práticas do dia a dia,
pois entende-se que é possível fazer algumas adaptações para melhorar o modelo
atual. Temos de tentar trocar a roda com o carro andando, ir melhorando o
cenário atual, porque essa é uma obstinação do governador. A questão fundiária
é grave e a da mobilidade urbana, também. Em relação à mobilidade, temos a
possibilidade de fazer algumas coisas, pois já há recursos captados do governo
federal.
Amizade
com procurador-geral de Justiça
A gente sabe que cada um tem que exercer seu papel. Não espero nenhuma
facilidade do Ministério Público do DF em função de eu conhecer, ser amigo e
gostar muito do procurador-geral de Justiça do DF (Leonardo Bessa). Cria
facilidade de comunicação. Muitas vezes, o governo precisa mostrar qual é a sua
tese e dar argumentos jurídicos que entenda ser válido. E quando nos
manifestamos só no papel, o contato não é tão rico.
Relação
com Aécio Neves
Tenho relação de admiração, claro. Acho uma pessoa absolutamente correta,
admirável e muito boa quando nos encontramos. Mas, digamos assim, não nos
frequentamos. E, depois de ser diretor-geral pela primeira vez, saiu o Aécio e
entrou o João Paulo Cunha, do PT. Foi uma mudança drástica e permaneci. As
pessoas entenderam que era uma vinculação funcional, senão não teria ficado no
cargo. Tiveram muitas idas e vindas nesse processo todo, passei por nove
presidentes da Câmara, de diversos partidos.
Direita
ou esquerda?
Acho que, hoje em dia, isso está superado. Depois da queda do muro de Berlim,
isso acabou. Se perguntar para qualquer partido, aqueles antes considerados de
esquerda ou direita vão dizer a mesma coisa, que o Estado tem de prover o
básico para o indivíduo se desenvolver. O governo tem que dar condições mínimas
que atenuem as desigualdades entre classes. Há pessoas que nascem em um meio
abastado e outros miseráveis. O papel do Estado é dar condições iguais a todos.
Acho que esse é o mantra da política atual.
Câmara
As pessoas dizem que, com os 513 deputados federais, devia ser muito difícil.
Mas acho que, com 513, isso se dilui um pouco. Acredito que as duas
instituições, os dois poderes (Executivo e Legislativo), têm papéis
republicanos, no sentido em que ambos estão buscando satisfazer e atender os
anseios do povo. Temos de entender que o deputado deve dar resposta ao seu
eleitor, alguém que acredita nele, alguém que acredita em um projeto que ele
vendeu e seduziu um grupo de pessoas. Se ele não faz nada e fica parado, não se
reelege. Tenho certeza que todos os 24 deputados distritais defendem algumas
políticas que o governo também defende. Porque, no fim, todos querem o bem da
coletividade. Vamos buscar um alinhamento.
Crise
financeira
Assusta. É algo concreto. Temos que deixar claro porque não podemos enganar a
sociedade. Temos que falar das dificuldades que enfrentamos. Não estou querendo
satanizar nenhum governo, dizer que A, B, ou C, dizer que foi o último governo
ou os dois últimos que mais contribuíram para a crise, não quero nominar. Mas a
crise é real e muito séria. Quando a coisa se descortinou na minha frente, eu
me assustei. Como morador de Brasília, não esperava situação tão grave. A
situação é grave, mas tem que ter solução. E o governo foi eleito para isso.
Comunicação
Não só vai haver separação (entre Casa Civil e Comunicação), como estamos
estudando redução de estrutura. Sei que Hélio Doyle e todos secretários
contribuíram com isso, mas o momento difícil vai exigir mais um esforço.
Eduardo Cunha
Nos despedimos dentro da relação cordial que sempre tivemos. Ele é um
presidente diferente, porque tem uma agenda própria muito distinta da agenda do
Executivo, e isso pode assustar, às vezes. Exige um trabalho de convencimento,
composição. Ele é uma pessoa extremamente inteligente, muito habilidoso politicamente.
Ele surpreende, impressiona. E tenho que falar em público, porque teve gente
dizendo o contrário: sempre tivemos uma relação muito respeitosa.
Fonte: Ana Maria Campos – Helena Mader – Matheus Teixeira
– Correio Braziliense

