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OPINIÃO » Meio público, meio privado

Não é só o GDF com planos para privatizar os espaços públicos. Em outras cidades, como São Paulo, ocorre o mesmo fenômeno de transferência para a iniciativa privada de áreas antes controladas pelo governo, incluindo os próprios parques. O motivo também é o mesmo: a falência diagnosticada nas contas governamentais, fruto de irresponsabilidades, levando ao sucateamento dos aparelhos públicos.

No ano passado, escrevi artigo intitulado “Os bens públicos”, publicado pelo Correio, no qual desenvolvi análise que apontava justamente para a tendência contemporânea generalizada de formação dos bens coletivos excludentes, sejam hospitais, escolas ou parques. Em síntese, os bens públicos estão acabando como efeito da incapacidade dos governos e mesmo das pessoas, individualmente, em sustentar ambientes caros sem nenhum tipo de privilégio para quem dele usufrui e paga pelos custos.

O bem público foi invenção revolucionária trazida pela modernização do mundo, mais ou menos entre os séculos 18 e 20. As praças e os parques, com coretos, banquinhos e gramados abertos, foram a primeira manifestação do novo tipo de bem, do qual ninguém seria excluído ou prejudicado. A sociedade criou algo que representasse a democratização em tempos de capitalismo. As empresas controlariam tudo, haveria segregação por classes, menos nessas áreas específicas democratizadas, abertas até mesmo ao mais pobre dos cidadãos. Nesses espaços, no mínimo, todos seriam iguais.

Pelo que tudo indica, o bem público está sofrendo transformação asfixiante trazida pela pós-modernidade. Não só porque o capitalismo continua se expandindo, mas também porque o Estado em países subdesenvolvidos, como o Brasil, fracassou em encontrar meios de preservar os ideais oriundos da revolução francesa e da independência americana. Aliás, os parques em Paris até hoje são realmente públicos, assim como os de Nova York. E estão entre os mais magníficos do mundo.

O segredo dos belíssimos parques europeus está no turismo e nos estados de bem-estar social, que, mesmo passando dificuldades há décadas, têm conseguido manter as áreas majestosas. No caso americano, onde reinam as regras de mercado, os parques também não foram privatizados. O Central Park de Nova York, que enfrentou crise fiscal terrível tempos atrás, passou a receber financiamento privado na forma de doação a partir de fundos administrados por organizações filantrópicas. O resultado é conhecido por todos os moradores ou que pelos podem visitar Manhattan.

O governo anterior faliu o DF, e a solução mais fácil agora parece ser vender a massa falida, como, aliás, vem acontecendo também às pressas na esfera federal. Movidos pela disputa ideológica inútil, não adianta simplesmente dizer que o nome disso não é privatização, mas concessão para mãos privadas. Temos que pensar melhor a respeito das soluções, quando até mesmo a cidade mais individualista no país mais capitalista do mundo (os EUA) não privatizou o seu parque central. Não temos a cultura filantropa dos americanos, nem o estado de bem-estar europeu, apenas os rudimentos. Mas isso significa rendição completa ao processo de extermínio dos bens públicos?

Não está ainda claro o projeto de privatização dos espaços públicos defendidos pelo GDF. O debate público parece-me aberto, não foi privatizado. O governo, certamente, não pretende promover as concessões com maus propósitos. Quer recuperar a cidade. Todavia, a meu ver, existe diferença abissal entre privatizar bares, lanchonetes e quiosques e um parque inteiro ou o zoológico. A parceria com a iniciativa privada pode ser boa, mas não é toda PPP (parceria público privada) que resolverá os nossos problemas, e pode criar outros ainda mais sérios. Haja vista a Lava-Jato.

As boas iniciativas de gestão de espaços públicos nos EUA, na Europa e mesmo na Argentina, com seus belíssimos parques em Buenos Aires, devem inspirar governos, empresas e cidadãos no mundo todo. Minha preocupação é com o acesso. Um bem público não pode ser excludente. Já temos muitos shoppings e clubes privados. Temos que garantir que as famílias pobres de Brasília possam, por exemplo, levar as crianças para conhecer o hipopótamo e a girafa, e que o Parque da Cidade não seja realmente gratuito apenas para uma parte dos moradores do seu entorno que podem chegar até ele a pé.

Os espaços públicos são onde todos podem se encontrar, sem exclusivismos diretos ou indiretos. Mais do que qualquer outra cidade, Brasília foi pensada para se manter aberta e os cidadãos, livres. As quadras não têm cercas, os prédios não têm muros. Pode ser que a população queira agora mudar isso, em razão da violência. Mas deve saber o que pode significar cidade desfigurada da própria origem. Brasília é a capital da República, onde ainda podemos sonhar com os ideais civilizatórios dos bens públicos. A privatização não é, em si, problema. Mas não dá para comemorar quando ela chega atéas portas dos lugares francos onde cresci.

Por: Marcelo Coutinho - Professor e pesquisador da UnB, da UFRJ e da Iuperj - Fonte: Correio Braziliense

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