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Ocupação no Setor de Inflamáveis desafia normas de segurança

Área invadida por moradores é próxima a oleodutos subterrâneos

Falta de planejamento tem potencial para provocar catástrofe. Oleodutos subterrâneos no Distrito Federal transportam, segundo a Petrobras, 8,8 bilhões de litros de gasolina e diesel por ano, que são recebidos, armazenados e redistribuídos no Setor de Inflamáveis, parte  do Setor de Indústria e Abastecimento (SIA). As empresas responsáveis por isso, no entanto, dividem o muro com invasores e estão a poucos metros de terras parceladas irregularmente, em contrariedade a normas de segurança nacionais e internacionais.

Acidentes de grandes proporções não são rotineiros,   mas, quando ocorrem são marcantes. Na última semana, o Jornal de Brasília destacou a história de Vila Socó (atual Vila São José), em Cubatão (SP), onde um vazamento de oleoduto seguido de incêndio, em 1984, provocou centenas de mortes e mais de mil moradias perdidas. Em abril último, na zona portuária de Santos (SP), explosões em tanques de combustível obrigaram esforços do Corpo de Bombeiros local por vários dias e a evacuação de cinco mil metros quadrados ao redor.

De acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP), aconteceram 79 incidentes com produtos inflamáveis nos últimos cinco anos, “a maior parte de baixa gravidade”. Brasília nunca foi palco de um acidente desta natureza, mas especialistas apontam que os ingredientes para isso já existem, basta que algo eventualmente dê errado.

Por que há risco?
Inaugurado em 1996, o Oleoduto São Paulo-Brasília (Osbra), operado pela Petrobras, sai da Refinaria de Paulínia (Replan) e passa por Ribeirão Preto (SP), Uberaba (MG), Uberlândia (MG) e Senador Canedo (GO) antes de chegar à capital. Por aqui, vem de Águas Lindas (GO), atravessa a Cidade Estrutural, ao lado da DF-095, “cruza” o viaduto da Cidade do Automóvel e desemboca nas instalações da Transpetro, que, por meio de dutos complementares, abastece as empresas do SIA. 

Os locais por onde esse sistema corre podem ser identificados pela presença de estacas amarelas e, às vezes, avisos sobre a proibição de escavar ou acender fogueiras no local.

Risco assumido
Uma família que mora ao lado de uma distribuidora de gás, no Setor de Inflamáveis, e bem próxima do ponto onde os dutos se bifurcam, afirma estar ali há mais de nove anos. Eles dizem entender os riscos que correm, portanto procuram não queimar o lixo produzido e não escavar nas proximidades. 

“Uma vez, um bombeiro veio aqui e explicou para nós. A gente sabe que não pode”, atesta um idoso. São muitas crianças em uma única casa, e elas brincam ao redor das marcações dos dutos e sobre o trilho do trem.

Derrubada acontece a "conta-gotas"
A Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest) já atestou o “perfil socioeconômico de vulnerabilidade” de diversas famílias na mesma localidade, o que exige um cuidado ao abordá-las e retirá-las. Na última semana, a Agência de Fiscalização (Agefis) alega ter erradicado 20 construções nas redondezas e prometeu manter a constância das ações, mas o problema persiste, especialmente porque as áreas em regularização, nas proximidades do Setor Lucio Costa, também representam riscos.


Conforme reportagem do JBr. de setembro  passado, com respaldo do Corpo de Bombeiros, o setor de chácaras conhecido como Aschagas obstrui possíveis saídas de emergência do Setor de Inflamáveis, além de muitos pedaços de terra serem vítimas de parcelamentos irregulares. 

Apenas por estarem ali,  agravam a questão de segurança. Especialmente porque a ocupação cresceu em quantidade nos últimos anos e conta com o descaso do Poder Público para proliferar.

Moradores trazem riscos
De acordo com Júlio Alonso, diretor técnico da Asel Tech, empresa de São Carlos (SP) especializada na detecção de vazamentos em dutos, talvez um morador ou outro não represente risco às instalações que trabalham com inflamáveis, mas o crescimento demográfico pode comprometer a integridade do sistema. “Aumenta o risco de interferência por causa de construções e vandalismo. O pessoal pode ver que a tentação é grande: afinal é combustível, um produto caro”.

Segundo ele, corrosão é uma preocupação, mas o fator humano tem mais potencial para criar problemas. “Por exemplo, o duto passa em uma fazenda e o trator escava para colocar um poste e fura o duto. Isso pode provocar um desastre ambiental muito grande. Em outros países, não deixam as pessoas (morarem) perto”.

Uma pesquisa da Pipeline and Hazardous Materials Safety Administration (PHMSA, Administração da segurança de dutos e materiais perigosos, em tradução livre) mostra que cidades costumam ser locais de maior propensão a vazamentos. Nos Estados Unidos, país com maior malha dutoviária do mundo - 89 mil km para transporte de petróleo e mais de 150 mil km para derivados -, foi constatado que, entre 2002 e 2009, cerca de 60% das falhas ocorreram em zonas urbanas ou de proteção ambiental.

Ocupação urbana e ANP


Para o diretor Júlio Alonso, pelo menos no Brasil, a culpa da proximidade entre pessoas e locais de transporte ou armazenamento de inflamáveis é culpa da política habitacional das cidades. 

“É o mesmo caso dos aeroportos. Eles geralmente são construídos longe, e a população vai chegando perto. As zonas industriais sempre são planejadas para estarem longe, mas as casas se aproximam. É um problema complicado”, atesta. Ele também critica a fiscalização da Agência Nacional do Petróleo (ANP), que, na visão do especialista, “deixa a desejar”.

Regulamento
A agência, por sua vez, formulou o Regulamento Técnico de Dutos Terrestres para Movimentação de Petróleo, Derivados e Gás Natural  (RTDT), que trata dos “requisitos essenciais e mínimos de padrões de segurança operacional para dutos terrestres (oleodutos e gasodutos)”. O órgão afirma, no entanto, ser de responsabilidade exclusiva dos governos de cada cidade a questão da ocupação urbana em áreas de risco e limita-se a dizer que “normalmente, as áreas de armazenamento se localizam em distritos industriais”.

A ANP também confirmou ter registros de vazamentos comunicados por agentes de instalações fiscalizadas por ela, mas não soube dizer se ocorreram próximos a áreas urbanas ou não.

Versão oficial
A Petrobras afirmou à reportagem que a operação da Osbra é realizada pelo Centro Nacional de Controle Operacional (CNCO) sem interrupções. Segundo a empresa, o sistema recebe “sinais das variáveis de controle de pressão, vazão, temperatura e densidade dos produtos em vários pontos do oleoduto” que identificam possíveis falhas.

A companhia  informou ainda que a Transpetro, transportadora da Petrobras, mantém “equipes em campo percorrendo a faixa do duto com helicópteros, carros e a pé, bem como técnicos da área de comunicação que fazem programas de relacionamento e conscientização com as comunidades, órgãos públicos, escolas  etc., que estão próximas à faixa do duto”.

Fonte: Da redação do Jornal de Brasília – Com: Eric Zambon

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