Por: Ana Dubeux
A morte do jovem cantor sertanejo Cristiano Araújo
não é apenas uma tragédia brasileira, é um excelente projeto de estudo no
âmbito das ciências sociais. As reações diante da notícia são definidoras do
tipo de sociedade em que vivemos.
Tivemos dois comportamentos bastante
sintomáticos: o primeiro deles foi a imensa quantidade de comentários nas redes
sociais de pessoas perplexas com a repercussão da morte de quem, para elas, era
simplesmente um ilustríssimo desconhecido; o segundo, e mais assustador, foi o
vazamento de imagens, em fotos e vídeos, do corpo do cantor na funerária, o que
virou obviamente um caso de polícia.
Sobre as reações na linha do “nunca tinha ouvido falar”... Pode parecer
estranho que, num mundo onde a informação circula com incrível velocidade,
alguém não conheça um sujeito que arrebanha multidões em shows e tem vídeos na
internet com milhões e milhões de visualizações. Mas, na verdade, a
superposição de notícias nos leva a selecionar o que vamos ler, ouvir e curtir.
Portanto, para alguém que não gosta do gênero sertanejo, é perfeitamente
possível que não conheça Cristiano Araújo. Diante disso, é inspirador o título
de matéria no El País: “Cristiano Araújo, o cantor que ninguém conhecia...
Exceto milhões”.
Entre desconhecer o moço e achar que a morte dele não vale uma grande
repercussão, há uma brutal diferença. Houve quem demonstrasse imensa ira com a
dimensão que a tragédia ganhou, seja nos sites, seja na tevê, seja nas páginas
de jornais. O Correio destinou boa parte da capa para ele, o que para alguns é
um absurdo. Há muitas formas de se analisar isso. A mais simples dela resume-se
a uma palavra: preconceito.
Sim, o estilo musical sertanejo, que hoje leva milhares de pessoas aos shows, é
alvo de preconceito. E há ainda o pensamento recorrente, que se baseia numa
tese filosófica bem tupiniquim e rasa: “Não gosto, logo não existe, não presta,
não vale...” Existe enorme dificuldade em encontrar valor naquilo que não lhe
apetece. Mesmo o Brasil sendo um lugar tão miscigenado e cheio de referências,
as pessoas não absorvem as diferenças — mesmo as mais simples, como o gosto
musical — como um lindo traço cultural. Quando não se gosta, desqualifica-se.
Simples assim.
Em relação ao comportamento dos imbecis que tiraram fotos e fizeram vídeos do
corpo do cantor na funerária, não há muito o que dizer. É a involução da raça
humana se dando a passos largos. E a internet, infelizmente, tem sido o meio
mais eficiente para propagar o tamanho da nossa mediocridade. Não basta ofender
os mortos, é preciso chocar os vivos.
*Ana Dubeux - editora-chefe do Correio
Braziliense

