test banner

#DF - EXECUTIVO » O supersecretário que virou empecilho

Acho que deveria ter batido de frente mais vezes. Talvez minha resposta seja o contrário dos críticos, de que eu apareci demais. Sabe por quê? Quem defende esse governo? Vai na Câmara Legislativa, qual deputado efetivamente faz defesa do governo?

Pressionado e criticado por todos os lados, o até então homem forte do governo, Hélio Doyle, anuncia a saída da Casa Civil em uma tentativa de tirar Rollemberg da forte crise política. Posto fica com o diretor-geral da Câmara dos Deputados

Após 161 dias à frente do Governo do Distrito Federal (GDF), Rodrigo Rollemberg (PSB) vai usar o pedido de demissão de Hélio Doyle do comando da Casa Civil para tentar acalmar os ânimos com partidos aliados e sair da crise política. O plano do socialista é que a saída de Doyle represente uma volta à estaca zero, e os desgastes na relação com sindicatos, Câmara Legislativa e correligionários sejam esquecidos, dando tranquilidade para o andamento da gestão. Principal alvo das críticas de servidores públicos, entidades de classes e parlamentares nos primeiros cinco meses de governo, Doyle era o homem forte de Rollemberg e participava das principais decisões do governo. Ontem, ao anunciar o desligamento do cargo, ele creditou sua saída a articulações políticas, que trabalharam para tirá-lo do Buriti. “Sou um empecilho para as boas relações do governador Rollemberg com o meio político”, resumiu. O diretor-geral da Câmara dos Deputados, Sérgio Sampaio, será o substituto. 

Conhecidos de longa data, Doyle e o governador estreitaram a relação em 2010 — jornalista, o ex-chefe da Casa Civil coordenou a comunicação da campanha de Rollemberg ao Senado. Passado o pleito, eles mantinham encontros informais, trocavam impressões sobre os cenários local e nacional. No início derrapante do governo de Agnelo Queiroz (PT), Doyle, experiente político que já havia passado por dois governos no DF, foi um dos primeiros a vislumbrar a possibilidade de vitória de Rollemberg ao GDF. Desde então, trabalhou para viabilizar o projeto de levar o PSB ao Palácio do Buriti.

No mesmo dia em que foi nomeado para a Casa Civil, contudo, vários integrantes do PSB já demonstravam grande insatisfação com a escolha — terem feito campanha para Rollemberg por 25 anos e o posto de maior destaque do mandato ter ficado com alguém de fora do partido não agradou a integrantes da sigla. Em vez de o cotidiano do governo apaziguar a situação, porém, as brigas internas se intensificaram. Os socialistas Marcos Dantas, secretário de Relações Institucionais, e Rômulo Neves, chefe de gabinete, trabalhavam para fortalecer o PSB e enfraquecer o superpoderoso Doyle, ao passo que o chefe da Casa Civil também media forças com os colegas de primeiro escalão.

Além disso, declarações do jornalista de que a chegada ao limite da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) poderia acarretar a demissão de servidores públicos ganhou grande repercussão e levou Doyle a sofrer duras críticas — outra reclamação contra ele era a respeito de seu perfil centralizador. Aliado ao cenário de críticas de funcionários públicos, insatisfação de siglas da base e brigas internas no Buriti, o rompimento da presidente da Câmara Legislativa, Celina Leão (PDT), na semana passada, e as críticas do PDT a Doyle eram o que faltava para tornar a situação do secretário insustentável.

Ontem, ele aproveitou o discurso de despedida para defender a atual gestão e criticar vários políticos ligados ao governo. O senador Cristovam Buarque, ele classificou como imaturo. Sobre os deputados, afirmou que não se pode generalizar, mas ressaltou que “alguns parlamentares” pensam apenas no próprio interesse e não nas necessidades da população. Motivo alegado por Celina para deixar a base do governo, Doyle explicou a presença de petistas na Casa Civil. “São servidores de carreira, competentes e sempre cumpriram as metas estabelecidas. Não os demitiria para nomear indicados de deputados, que, muitas vezes, sequer aparecem para trabalhar.”

Perguntado se Celina teria exigido sua demissão, ele falou que isso não ocorreu de forma explícita. “Como falei, todos aqui são inteligentes e viram que o pedido foi feito de outra maneira.” Ainda sobre os distritais, afirmou que muitos vão ao Buriti apenas para fazer lobby em favor de empresas, e que parlamentares não ajudam Brasília a sair da crise. “Enquanto estamos atolados em dívidas, eles gastam milhões com carros oficiais luxosos, com gasolina e vários assessores.”

Articulador
O processo eleitoral fez de Doyle um dos principais idealizadores do projeto que levou Rollemberg à vitória. Numa campanha contra um popular candidato, José Roberto Arruda, e outro que comandava a forte máquina do Estado, Agnelo Queiroz (PT), havia o entendimento de que era necessário ter bom espaço no programa eleitoral gratuito na tevê para atingir a todos os cidadãos. Para isso, Doyle se filiou ao PSD, que conta com muitos deputados federais e tem grande tempo de tevê, e passou a articular o apoio do PDT — outra sigla representativa. Formada a coligação, o PDT indicou José Antônio Reguffe (PDT) para a disputa ao Senado e coube ao PSD a indicação do vice. Chegou-se a cogitar Doyle, mas o posto acabou com Renato Santana.

Inicialmente, Doyle seria apenas o coordenador de comunicação, como ocorrera em 2010. Com o crescimento da importância dele nas decisões da campanha, Rollemberg o colocou para chefiar toda a equipe. Após a vitória, ele foi novamente nomeado para o principal cargo do governo de transição, o de coordenador-geral. No anúncio do secretariado, no fim de dezembro, ninguém se surpreendeu com os superpoderes dados a Doyle — além da Casa Civil, passou a responder pela comunicação do governo.


A história se repete


Há 19 anos:ao chegar de uma viagem com a família, Doyle viu que sua situação no governo era insustentável

Ana Maria Campos 

Parecia um remake. O homem mais forte do governo convocava uma coletiva para espalhar petardos e anunciar que estava deixando o cargo no Palácio do Buriti. O personagem era o mesmo: o jornalista Hélio Doyle, 19 anos mais velho, porém numa situação bem parecida. Em fevereiro de 1996, na condição de secretário de Governo, ele esteve, como ontem, no mesmo salão nobre para criticar os adversários que provocavam a sua queda. A administração era de Cristovam Buarque, um dos algozes que levaram à demissão comunicada ontem.

Hélio Doyle foi considerado o coordenador responsável pela vitória de Cristovam em 1994, da mesma forma como ocorreu com Rodrigo Rollemberg 20 anos depois, em 2014. Passada a eleição, nos dois governos, assumiu o cargo mais importante, com poder na gestão administrativa, na política e na comunicação. Foi também quase tão mais forte quanto o próprio chefe do Executivo. A projeção incomodou Cristovam há 20 anos. Também deu desconforto a Rollemberg. Houve intrigas, agora e no passado.

Há 19 anos, Doyle foi surpreendido, quando voltava de uma viagem familiar aos Estados Unidos, com uma situação de desgaste irreversível. Integrantes do gabinete de Cristovam plantavam notas sobre a iminente demissão do secretário de Governo. Na chegada ao Brasil, o jornalista não teve como permanecer no cargo. O mesmo ocorre agora. Aliados de Rollemberg fazem críticas públicas ao chefe da Casa Civil, que o deixaram sem condições de continuar.

Os mesmos erros foram cometidos? Doyle não tem papas na língua. Não adota eufemismos para revelar a realidade. Nunca bajula deputados ou senadores. Gosta de comprar brigas. Muitas vezes, é visto como arrogante. Na defesa do governo, chamou políticos e sindicatos para uma queda de braço. Criou inimigos. Cavou, assim, a própria cova na Casa Civil. Ontem, Doyle se sentia como num filme antigo. Mas garantia que havia uma diferença. “Não vou criticar Rollemberg. Saio de bem com o governador.”


Fonte: Matheus Teixeira – Correio Braziliense 

Postar um comentário

Postagem Anterior Próxima Postagem