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#CONVIVêNCIA » Lei do silêncio fica entre gritos e vaias

Durante a audiência pública, houve troca de farpas e seguranças chegaram a abordar um homem mais exaltado

A audiência pública na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) que propunha debater a lei de silêncio ficou marcada pelo antagonismo, com aplausos e vaias acaloradas. Sem nenhuma nova solução para se avançar no debate, as quase quatro horas de discussão terminaram em impasse. Pelo menos nos próximos meses, não há perspectiva de uma definição.

No plenário da Câmara, ficou marcada a oposição dos envolvidos. Alguns dos grupos foram armados com as ferramentas da crítica. Um homem que vaiava expressivamente as exposições de artistas foi abordado por seguranças e policiais legislativos, mas não chegou a ser retirado. Enquanto produtores culturais pressionam para a aprovação das novas regras de emissão sonora, moradores do Plano Piloto e de regiões administrativa do DF lutam para que sejam mantidos os limites de 55 decibéis (dB) no período noturno e de 65dB no diurno, como rege a Lei nº 4.092/2008, regulamentada em 2012. O deputado Ricardo Vale (PT) é o autor do Projeto de Lei (PL) nº 445/2015, que sugere aumentar o volume para 70dB à noite, a partir das 22h, e para 75dB durante o dia.


Como forma de protesto aos atuais índices, que, na visão de artistas, restringem o trabalho no horário noturno, músicos cantaram o trecho da música Cálice, de Chico Buarque, antes do início da audiência pública. Movimentos sociais, sindicatos de classe e representantes de templos religiosos a favor da aprovação do PL ocuparam parte do plenário. Do outro lado, porém, estavam especialistas, representantes de conselhos comunitários de superquadras e moradores do DF. Também compareceram ao debate os secretários de Cultura, do Meio Ambiente, a presidente do Instituto Brasília Ambiental (Ibram), o administrador de Brasília, deputados e promotores do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT).


Uma das representantes do movimento “Quem desligou o som?”, Gabriela Tunes, ressaltou que a proposta de revisão da lei do silêncio busca diminuir o número de fechamento de bares, restaurantes e espaços culturais em Brasília. “O índice de 55 decibéis em Bogotá, Barcelona e Madri é estipulado para áreas hospitalares. Brasília está sendo tratada como hospital. Não é nada fora do normal propor aumento no limite de decibéis. A paz não é silenciosa. Ela é festiva. A música, a cultura, a celebração, as festas são formas de construir uma sociedade de paz”, destacou.


O gaitista Engels Espíritos, um dos líderes do Movimento de Valorização dos Músicos (MVM), fez um depoimento exaltado. Ele considerou que a atual legislação foi aprovada às escuras, sem avisar aos principais setores e segmentos da arte e da cultura. “É impossível fazer um show ou apresentação musical abaixo desses limites de decibéis. A atual lei simplesmente representa uma forma de eliminar qualquer liberdade de expressão artística em áreas do DF onde há relação entre setores comerciais e residenciais. A cidade está deixando de ter expressividade cultural”, reclamou.

“Falta projeto cultural”
Para um dos representantes do Conselho Comunitário da Asa Sul, Ricardo Marra, existem espaços fora de áreas residenciais que poderiam ser revitalizados. Ele considerou que falta projeto cultural para a cidade. “Temos músicos talentosos em Brasília, de excelência, e a própria capital produziu Cássia Eller, Renato Russo, entre outros. Mas não há um polo cultural para a cidade. Além disso, o projeto de lei para alterar os índices sonoros não faz distinção. Se coloca 75 decibéis para tocar em qualquer lugar e não se distingue área residencial, onde está o meu direito, como morador, de cuidar da minha família?”, questionou.


Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade de Brasília (UnB), Frederico Flósculo fez um depoimento crítico contra o aumento no nível de decibéis. Como representante do Conselho Comunitário da Asa Norte, ele destacou a necessidade de ser prudente em relação ao sono. “A questão do repouso se refere à saúde das pessoas. A gente não faz uma lei para quem grita mais, nem para quem vaia ou aplaude. A lei é feita para quem trabalha e mora. Esse homem (referindo-se ao deputado Ricardo Vale) pode expor Brasília ou levar esta Casa ao ridículo. Fez um projeto de lei sem a menor fundamentação. O aumento de 1 decibel já aumenta o estresse”, ressaltou.

Grupo de trabalho
O GDF criou um Grupo de Trabalho (GT) entre órgãos envolvidos para discutir o assunto. O secretário de Cultura, Guilherme Reis, adotou uma postura provocativa. “Esse Fla-Flu não interessa a ninguém. Acho que é possível estabelecer níveis de tolerância. Ninguém quer uma cidade que cause dano ambiental ou à saúde, sem a menor dúvida, mas a música está pagando o pato. Uma coisa é a segunda-feira, outra coisa é a sexta-feira”, defendeu.


O secretário de Meio Ambiente, André Lima, ressaltou que o GT vai identificar caminhos para buscar soluções dentro da governabilidade. “O PL está baseado em dois pilares que não vão passar na portaria do Tribunal de Justiça (TJDFT). Não é possível alterar um padrão federal com uma lei distrital. Também não é possível exigir juridicamente que se faça medição dentro da casa da pessoa”, alegou.


As mudanças propostas: O que diz a Lei nº 4.092/2008, que está em vigor:

» Em área de sítios e fazendas, o máximo permitido é de 40dB para o período diurno e de 35dB para o noturno.

» Em área estritamente residencial urbana ou de hospitais, escolas e bibliotecas, são 50dB durante o dia e 45dB à noite.

» Para área mista, predominantemente residencial e de hotéis, o padrão é de  55dB, das 7h às 22h, e de 50dB, das 23h às 6h.

» Em área mista, com vocação comercial, administrativa ou institucional, são 60dB durante o dia e 55dB no período noturno

» Em área mista com vocação recreativa, o padrão é 65dB e 55dB,

respectivamente.

O Projeto de Lei (PL) nº 445/2015, do deputado distrital Ricardo Vale (PT): Aumentaria o nível de 55 dB no período noturno para 70 dB e de 65 dB no período diurno para 75 dB. 


A ideia é que a medição dos decibéis seja feita na casa do denunciante para atestar o volume concreto do som.


Fonte: Isa Stacciarini – Correio Braziliense 

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