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Avanço da intolerância

Os constituintes de 1988 foram sensíveis à realidade brasileira. Levaram em conta a pluralidade que dá perfil singular ao Brasil. O país é guardião de grande acervo linguístico. Tem invejável diversidade cultural e de fé. O povo é expressão da mistura das muitas etnias originárias (populações indígenas) ou das que aqui aportaram ao longo de cinco séculos vindas dos quatro cantos do planeta. A Carta Magna definiu a nação como laica e, independentemente de raça cor, credo ou gênero, todos são iguais perante a lei.

Mas, entre o ditame constitucional e a realidade, há profundo fosso. A intolerância religiosa, racial, étnica, de gênero, geográfica está em expansão. Os negros são considerados malditos, comparados a primatas e, sumariamente, suspeitos de ações criminosas. Os índios, chamados de bugres, tidos como selvagens. Os homossexuais, vistos como doentes, são alvo de espancamentos. Em suma, desrespeitam-se os direitos elementares. 

No início da semana, o país ficou chocado com a agressão a uma criança de 11 anos. Ela foi insultada e atingida por pedrada à saída do terreiro de candomblé no Rio de Janeiro. A garota diz que não abrirá mão da opção pela afrorreligiosidade, mas afirma que deixará de usar branco. Ela teme ser morta pela violência. A polícia procura os responsáveis, que poderão ser incriminados por praticar, induzir ou incitar a discriminação ou o preconceito de raça, cor, etnia e religião.

O episódio é mais um entre os muitos dos quais se tem notícia no território nacional. A Cidade Maravilhosa destaca-se, entre as unidades da Federação, como a que detém o maior percentual de ocorrências de conflito ou de discriminação por fé. Em 2014, foram 39 queixas, 10 a mais do que São Paulo, que registrou queda de 50 para 29 casos. Em todo o país, a Secretaria Nacional de Direitos Humanos contabilizou 149 denúncias.

Apesar de reconhecer os danos causados pelas manifestações de intolerância, o poder público é leniente com os autores. As punições são brandas a ponto de se converterem em incentivo à reincidência. A complacência das autoridades consolida a violência. Até quando conviveremos com a barbárie protagonizada por fundamentalistas? 

Cabe ao Estado e aos setores organizados da sociedade — igrejas, clubes de serviço, estabelecimentos de ensino, universidades, meios de comunicação, entidades de classe — promover ações e campanhas contra as formas de intolerância. Não dá mais para continuar tapando sol com peneira. É preciso agir. Hoje, é pedra. Vamos esperar que, amanhã, seja fuzil?


Fonte: Visão do Correio Braziliense 

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