Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a
greves de professores nos mais diversos estados e cidades. Pode-se estimar em
milhares o número de aulas perdidas e em milhões o número de alunos sem aulas
ao longo de anos. Não é necessário ter imaginação para perceber as
consequências da falta das aulas na formação dos estudantes e as consequências
dessa má formação para o futuro do país.
Apesar
disso, o país não percebe o risco. Ainda mais grave é o fato de pais e
professores dizerem que as escolas são tão ruins que a ausência de aulas não
faz falta. Muitos pais lamentam as greves apenas porque seus filhos não têm
onde ser deixados. Outros lamentam apenas porque os filhos ficam sem merenda.
A
população brasileira indignou-se com a violência contra professores nas ruas de
Curitiba, na tarde do último 29 de abril. Ver policiais correndo em perseguição
a professores, espancando e ferindo dezenas deles, indignou e envergonhou os
brasileiros e causou repercussão negativa aos olhos do mundo. Mas há séculos o
futuro do Brasil vem sendo espancado pela má qualidade das nossas escolas.
Nossos
professores são agredidos silenciosamente pelos contracheques jogados sobre
eles. O Brasil foi espancado visivelmente em uma tarde em Curitiba, mas tem
sido vítima de maneira não percebida pelos maus-tratos diários aos professores,
às escolas e aos alunos. Igualmente grave é o fato de que as greves só ocorrem
nas escolas públicas, onde estão os filhos das camadas mais pobres, ampliando
assim a desigualdade na qualidade da educação conforme a renda das famílias.
Cada greve aumenta a brecha na qualidade da educação das crianças filhas de
pobres em relação às filhas de ricos.
Sem bons
salários é impossível atrair para o magistério os mais preparados jovens da
sociedade; e sem boas condições de trabalho para o professor — conforto e
equipamentos nas escolas — é impossível atrair o interesse dos alunos.
Mesmo
assim, como pedir aos professores que não façam greves, se os salários estão
entre os mais baixos do mundo e entre menores no universo dos profissionais com
a mesma qualificação no Brasil? Como pedir aos docentes que não façam greve,
quando as aposentadorias são modificadas em prejuízo de seus direitos?
A saída
não é impedir as greves; é fazê-las desnecessárias. Precisamos desarmar a
necessidade de os professores serem obrigados a recorrer à greve. Embora seja
sabido que os sindicatos muitas vezes têm interesses políticos na declaração de
greves, seja para fortalecer uma corrente interna, seja por enfrentamentos
partidários na política nacional e local, as greves deixariam de ser
instrumento indispensável se os professores estivessem satisfeitos com os
benefícios pessoais e com as condições de trabalho ao redor. Greves de
professores têm características perversas quando comparadas às paralisações nos
demais setores por, pelo menos, dois motivos. Primeiro: enquanto a greve do
operário penaliza o patrão, a greve do professor pune as famílias. Segundo: ao
voltar da greve e retomar o trabalho de onde parou, o operário encontra a
matéria-prima e as máquinas esperando nas mesmas condições anteriores; os
professores encontram alunos que perderam a motivação e que até mesmo
regrediram. É como se nas greves de operários, além de parar a construção, eles
destruíssem casas prontas.
Para
oferecer um salário que permita atrair os melhores quadros da sociedade e
oferecer-lhes as necessárias boas condições de trabalho, seria preciso investir
ao redor de R$ 9.500 por aluno a cada ano. Raras cidades teriam condições de
reservar recursos de tal porte para a educação. A única forma de parar as
greves é por meio de um esforço nacional que adote as escolas e as crianças de
cada cidade por meio da federalização da educação de base. E federalizar
significa termos uma carreira nacional do magistério e, ainda, que o
equipamento das escolas tenha padrão de qualidade elevado e equivalente em todo
o território nacional.
Por: Cristovam Buarque - Professor emérito da UnB e senador pelo PDT-DF.

