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JUDICIÁRIO » Fachin esconde o jogo sobre os honorários

Com sabatina marcada para hoje na CCJ do Senado, o indicado por Dilma para o Supremo não revela quanto recebeu para defender a Copel, cujo sócio majoritário é o governo do Paraná, quando ele era procurador do Estado

Fachin e a mulher, Rosana, percorreram gabinetes do Senado nas últimas duas semanas para tentar garantir a aprovação do seu nome

O jurista Luiz Edson Fachin, que será sabatinado hoje no Senado após ter sido indicado para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF) pela presidente Dilma Rousseff (PT), não revelou ontem os valores que recebeu da Companhia Paranaense de Energia (Copel), cujo sócio majoritário é o Paraná, para atuar como advogado privado. Na época, em 2004, ele era procurador do Estado e recebia salário justamente para defender os interesses do estado, princípio básico do cargo que exercia. A informação foi revelada pelo Correio na edição de sábado. A assessoria de imprensa de Fachin limitou-se a comunicar que “não sabia informar quanto ele tinha recebido pela causa”.
 
A Copel também preferiu não divulgar quanto pagou ao escritório do jurista. Alegou apenas que “as informações requeridas pelo jornal ainda estavam sendo levantadas”. O caso em que Fachin autou refere-se a uma arbitragem internacional na Câmara Arbitral de Paris. Inicialmente, um grande escritório de advocacia de São Paulo estava à frente de todo o processo. A empresa norte-americana El Paso, que era parceira do Paraná na Usina Elétrica a Gás de Araucária (UEG), havia entrado com uma ação de indenização contra a Copel. Na época, o então governador, Roberto Requião (PMDB-PR), entendeu que a norte-americana estava agindo de encontro aos interesses do Estado em razão de contratos considerados fraudulentos. Fachin, inclusive, esteve com Requião em Paris num dos julgamentos.

Com pareceres técnicos elaborados pelo advogado, o Paraná acabou pagando aproximadamente US$ 190 milhões para a El Paso e obteve o controle da usina em questão. Na época, documento elaborado pelo procurador do Estado do Paraná Luiz Henrique Bona Turra apontava que o acordo não seria um bom negócio para a unidade da Federação. Ele propunha a instauração de processos administrativos. Nos bastidores, comenta-se que o governo do Paraná, que queria fechar o acordo para ter o controle da UEG, não conseguiria ir adiante nos seus objetivos se dependesse da chancela da Procuradoria do Estado. É nesse ambiente que Fachin, mesmo exercendo a função de procurador, foi contratado como advogado privado.
 
Em 2004, ele representou a Copel, uma empresa de economia mista, como parte do corpo jurídico da companhia. O governo do Paraná tem a maioria das ações (31%). O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Participações (BNDESPAR) possui 24% das cotas; a Eletrobras, 0,6%; e 44% estão na chamada Custódia da Bolsa (de valores). O artigo 5º da Lei Federal nº 9.469/97, que pelo princípio da simetria pode ser aplicada aos Estados, alega que “a União poderá intervir nas causas em que figurarem, como autoras ou rés, autarquias, fundações públicas, sociedades de economia mista e empresas públicas federais”.

Em 2006, quando o nome de Fachin entrou na lista dos três favoritos para concorrer a uma vaga no STF, o procurador do Estado do Paraná Luiz Henrique Bona Turra encaminhou representação formal ao então presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, e ao ministro da Justiça na época, Márcio Thomaz Bastos. O documento, encaminhado à Presidência da República em 8 de março de 2006, ao qual o Correio teve acesso, indica de maneira clara que o procurador do Estado não poderia receber do próprio governo para fazer uma função que já é sua atribuição funcional.

Itaipu

Fachin também atuou, em favor dos interesses do Paraguai, como advogado da binacional Itaipu, a maior geradora de energia limpa e renovável do mundo. Em abril, o Supremo Tribunal Federal decidiu que quatro ações civis contra a empresa, que tramitavam na Justiça Federal de Foz do Iguaçu desde 2003, seriam encaminhadas à Corte para julgamento, tese defendida por Fachin durante o processo. A decisão foi tomada por unanimidade dos ministros do STF em 15 de dezembro e decorreu de uma reclamação apresentada pelo governo paraguaio.

O Ministério Público Federal queria que Itaipu se submetesse à lei brasileira de licitações e fosse fiscalizada pelo Tribunal de Contas da União. O MPF também pedia que a binacional realizasse concurso público para preenchimento de cargos na Hidrelétrica. Alguns especialistas ouvidos pelo Correio apontam que, nesse caso, o jurista pode ter advogado contra os interesses da sociedade brasileira.

Por meio de nota, a assessoria de Fachin informou que ele “prestou consultoria para a Copel, sob a forma de pareceres, em matérias de natureza eminentemente contratual. Não versando, dessa forma, sobre questões de estrito interesse público do estado controlador”. A nota ressalta ainda que “não integra a função do procurador do estado a defesa dos interesses econômicos privados das sociedades de economia mista”.


Página ligada ao PT


O site #FachinSim está registrado em nome de designer que trabalha para empresa responsável pela agência de notícias petista

A página na internet em apoio a Luiz Edson Fachin para uma vaga no STF foi registrada no nome do designer Renato Rojas. Ele trabalha para a empresa Pepper, à frente da Agência PT de Notícias e responsável pelo gerenciamento de mídias sociais da campanha da reeleição da presidente Dilma Rousseff. Em seu currículo na internet, Rojas afirma que tem “a função de liderar a equipe de criação digital para redes sociais do PT/Dilma e da Agência PT de Notícias”. 

Ele comunica que “estamos no perfil oficial do Facebook da Dilma, do PT, no site oficial do partido”. Ontem, o Correio não conseguiu entrar em contato com o designer. O site #FachinSim convida os usuários a fazer uma corrente digital para o nome do advogado ser aprovado pelos senadores na sabatina de hoje na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). “A nomeação do professor Luiz Edson Fachin ao STF é um importante passo para uma sociedade mais justa. Em 12 de maio, Fachin será sabatinado pelos senadores, que precisam aprovar a indicação de seu nome para que ele seja nomeado ministro. Portanto, precisamos fazer a nossa parte e dizer aos senadores que votem #FachinSim”.

Nas redes sociais, o professor divulgou vídeos para se defender dos ataques que vem sofrendo após ter sido indicado. Para se desvincular do MST e da CUT, ele se apresentou como defensor da propriedade privada. Também negou irregularidades no exercício da advocacia. O grupo de apoio ao professor, segundo a assessoria de imprensa, é formado por alunos, ex-alunos, advogados e amigos, sob coordenação do genro de Fachin, o também professor de direito Marcos Rocha Gonçalves. O movimento diz que colocou a página no ar para combater “uma campanha difamatória” que acusaria Fachin de “defender a desestruturação da família tradicional”.

“Algumas intervenções pontuais episódicas que fiz não definem 35 anos de uma trajetória que sempre foi pautada pelo diálogo, pela serenidade, para construção do consenso com respeito ao dissenso”, disse Fachin num dos vídeos.


Fonte: João Valadares – Correio Braziliense  

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