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PARTIDOS » Uma estrela fragilizada

A presidente Dilma Rousseff participou na noite do último sábado do casamento do cardiologista Roberto Kalil Filho com a endocrinologista Claudia Cozer. Na cerimônia, em São Paulo, também estiveram presentes o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante (PT-SP), o senador José Serra (PSDB), entre outras autoridades. Dilma e Lula são pacientes de Kalil no hospital Sírio-Libanês. Alvo de um protesto ao chegar ao evento, a petista ficou cerca de uma hora e meia na cerimônia, que aconteceu no Itaim, bairro nobre da capital.

Madrinha do casamento, Dilma estava com um vestido longo de cor azul-marinho. Com mangas compridas, a vestimenta tinha bordados da cor prata na região do abdômen. A petista é adepta da dieta do argentino Máximo Ravenna desde o ano passado e já perdeu pelo menos 13kg no regime. No jantar, a presidente sentou-se a uma mesa com o presidente do Senado, Renan Calheiros, Cunha, Lula e o governador Geraldo Alckmin. Além de conversar com as autoridades, Dilma tirou várias selfies com convidados.

O clima dentro da cerimônia foi diferente da recepção que a presidente teve na porta do evento. Ao chegar ao local casamento, a presidente foi alvo de manifestação. Cerca de 30 pessoas com panelas e apitos protestaram e gritaram palavras de ordem, como “ladra” e “Fora, PT”. Autoridades da oposição também foram alvos do ato. Também padrinho do casamento, o senador José Serra foi cobrado a entrar com um pedido de impeachment contra a presidente.

Dilma e Lula no casamento de Kalil

Da esquerda para a direita, Dilma, Claudia Cozer, Kalil, Lula e dona Marisa


A um ano do início da campanha municipal, petistas admitem que o partido vai enfrentar dificuldades nas eleições para prefeito. O maior problema é criar um discurso capaz de enfrentar a crise e as denúncias

Questionado eticamente por causa do mensalão e dos escândalos da Petrobras, sem o protagonismo político no Congresso — “eles só ganham uma quando nós temos pena”, garganteou, com razão, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) — e com a presidente da República refugiada para não ser hostilizada publicamente, o PT perdeu, nas palavras dos próprios petistas, a capacidade de inovar, enredando-se nos próprios problemas, o que agrava ainda mais o fosso onde a legenda está afundada. A um ano do início das eleições municipais de 2016, o PT admite que as perspectivas a longo prazo são sombrias. “Estamos em uma agenda difícil, que não conseguimos superar. Se não atravessarmos esta fase, não poderemos falar de futuro. E nós precisamos falar de futuro, de investimentos, de virada de página”, admitiu o líder do governo no Senado, Delcídio Amaral (PT-MS).

A agenda difícil a que Delcídio se referiu ao Correio inclui a aprovação do ajuste fiscal em tramitação no Congresso. E as medidas só agravam o pesadelo petista. Os aliados — incluindo o historicamente fiel PCdoB — cobraram dos petistas que “mostrassem a cara e defendessem o ajuste”, não deixando aos demais partidos da coalizão a pecha de responsáveis por ferir os direitos dos trabalhadores. 

Na última quarta-feira, durante a votação da MP 665, que altera as regras do seguro-desemprego e do abono salarial, choveram sobre a cabeça dos deputados notas falsas de dólar com as esfinges de Dilma, Lula e do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto com a expressão “Ptrodollar”. No dia anterior, durante a propaganda eleitoral na televisão, um discurso datado, repetindo o mantra de inclusão social e manutenção de empregos, pouco empolgou os parlamentares.

“A propaganda do João Santana reforça a tese de que o PT não entendeu que o momento é outro”, reconheceu um parlamentar, que pediu para não ser identificado. “Na televisão o que se viu foi um discurso da campanha eleitoral de 2010, que levou Dilma pela primeira vez ao Planalto”, prosseguiu o parlamentar. O problema, segundo este petista, é que milhares de pessoas foram às ruas em 2013 pedir algo mais. “Eles nos disseram: fomos incluídos, não passamos mais fome, temos escola e emprego. Agora, queremos mais. E o PT está sem ter o que mostrar para esse povo”, acrescentou o filiado petista.

Panelaço
Há dois meses, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu-se com senadores petistas para avaliar a crise. Defendeu que o partido se reinventasse. “Precisamos buscar novas utopias”, disse Humberto Costa, líder do partido no Senado, durante o mesmo encontro. Nada mudou de lá para cá. “Estamos tão preocupados com o presente que o futuro, sim, nos parece utópico”, disse outro petista.

Ao término da propaganda eleitoral da última terça, tendo Lula como porta-voz direto das realizações do governo, foi feita uma convocação para a militância: o 5º Congresso nacional do partido, marcado para os dias 11 a 14 de junho, em Salvador. “Até lá, precisamos pensar os nossos caminhos. A situação é complexa mas dá para reagir”, torce o vice-líder do governo na Câmara Carlos Zarattini (PT-SP). 

Zarattini, que foi relator de uma das MPs do ajuste, a 664, que introduz mudanças nas pensões e pode ressuscitar um debate polêmico — o fim do fator previdenciário —, acha que o PT voltou a ter uma pegada unida em plenário na última semana. Esqueceu-se de mencionar que a bancada de deputados teve que ser enquadrada pelo ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, para votar com o governo.

“O debate em torno do projeto de lei da terceirização também foi importante, porque trouxe os sindicatos novamente para o nosso lado”, completou Zarattini. O líder governista reconhece que trazer antigos aliados para o seu lado ainda é um caminho muito longo para a reconstrução da imagem do PT junto a outros setores da sociedade, que já foram simpáticos à legenda e que, hoje, batem panela quando a estrela vermelha aparece na televisão. A situação é tão crítica que os protestos já foram devidamente incorporados. “Ninguém se assustou com o panelaço de terça-feira. Talvez porque tenha sido menor do que o do dia 8 de março (15 estados ante 22 durante pronunciamento de Dilma no Dia Internacional da Mulher”, disse um desalentado militante partidário.

“A curto prazo não há muito o que fazer”, vaticinou o cientista político da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo Rui Tavares Maluf. Para ele, a economia oscilante, o fantasma do desemprego, aliado ao debate ético-moral dificultam a vida do PT. “Mesmo que haja uma reação a médio e longo prazo, acho difícil que o partido retome o tamanho que teve no auge do seu período de poder, entre 2003 e 2013”, acredita o cientista político.

Os problemas do PT - Dilma Rousseff

A presidente da República, aconselhada pelos seus assessores, tem se isolado do contato público. Não gravou pronunciamento no Dia do Trabalhador — 1º de maio —, não apareceu na propaganda do PT e não foi ao Rio comemorar os 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, com medo de ser vaiada

Economia
A inflação deu uma desacelerada em abril, mas ainda está acima do centro da meta e só deve voltar ao controle, segundo o Banco Central,  no fim do ano que vem. As montadoras do ABC colocaram os trabalhadores em férias coletivas; e as propostas de ajuste fiscal esbarram na base e nos sindicalistas

Corrupção
A sucessão de denúncias na Petrobras culminou com a prisão do ex-tesoureiro do partido João Vaccari Neto. O segundo em menos de 10 anos. O primeiro foi Delúbio Soares. O PT é acusado de comandar o maior esquema de corrupção investigado na história do país

PMDB
A legenda está completamente a reboque do PMDB, tanto na Câmara quanto no Senado. Eduardo Cunha e Renan Calheiros desafiam o Planalto diariamente, a ponto de a presidente da República ter sido obrigada a entregar a coordenação política ao PMDB, do vice-presidente Michel Temer.

Lula
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda é um mito na legenda e entre os eleitores mais humildes. Mas os últimos protestos mostraram que o petista, que governou o país por dois mandatos seguidos, não está imune às críticas. O “Lulinha teflon” parece já não existir mais


Fonte: Paulo de Tarso Lyra – Correio Braziliense

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