Em
Curitiba, os procuradores da força-tarefa da Lava-Jato apresentaram detalhes
sobre a denúncia entregue à Justiça
Integrantes
da força-tarefa oferecem denúncia contra quatro ex-deputados por participação
no esquema de propina do petrolão. Eles são acusados por crimes como corrupção,
lavagem de dinheiro, peculato e organização criminosa
Pela
primeira vez, desde o início da Operação Lava-Jato, quatro políticos que não
detêm mais mandatos eletivos e, portanto, perderam o foro privilegiado, foram
denunciados no esquema de corrupção da Petrobras que pagou R$ 6 bilhões em
propinas a partir de um cartel de empreiteiras. Na tarde de ontem, considerado
um dia simbólico, os procuradores da República que investigam a organização
criminosa montada para abastecer partidos políticos e financiar campanhas
eleitorais com dinheiro sujo ofereceram denúncia à Justiça Federal contra os ex-deputados
André Vargas (sem partido-PR), Luiz Argôlo (SD-BA), Pedro Corrêa (PP-PE) e
Aline Corrêa (PP-SP), filha dele. As acusações indicam crimes de corrupção,
lavagem de dinheiro, peculato e organização criminosa. Novas denúncias contra
este mesmo núcleo ainda vão ser feitas.
Outros nove integrantes, sendo três
operadores financeiros e seis pessoas próximas aos políticos, também foram
enquadrados. Destacam-se o doleiro Alberto Youssef, um dos principais delatores
da quadrilha; o seu funcionário Rafael Ângulo, que fazia a entrega da propina;
o ex-executivo da Agência Borghi Lowe Ricardo Hoffmann; e os irmãos de André
Vargas, Milton e Leon Vargas. “Hoje é o primeiro dia em que se oferecem
acusações criminais contra pessoas que estão dentro de núcleos políticos”,
afirmou o procurador da República Deltan Dallagnol.
De acordo com a denúncia dos
procuradores, Vargas é suspeito de receber dinheiro por meio de duas empresas
fantasmas. A LSI e a Limiar já foram registradas em nome dele e hoje estão
oficialmente na mão de seus irmãos. A Procuradoria-Geral da República sustenta
que o ex-deputado é o controlador das contas das firmas, apontadas como de
fachada. Só uma teve um único funcionário registrado por curto período de
tempo.
Mesmo assim, receberam dinheiro de
empresas vinculadas a órgãos do governo federal, o Ministério da Saúde e a
Caixa. No Ministério da Saúde, uma agência de publicidade faturou R$ 126
milhões para serviços de comunicação, subcontratando produtoras. Ao elaborarem
os vídeos, repassaram o bônus de volume, mais conhecido no meio publicitário
como BV, para LSI e Limiar. As produtoras informaram aos investigadores que
fizeram o repasse a pedido da agência de publicidade.
Na coletiva, ocorrida na tarde de
ontem, o ex-deputado foi denunciado por três atos de corrupção ativa, 64 de
lavagem de dinheiro e um de organização criminosa. Os valores envolvidos com
comprovação chegam a R$ 1,1 milhão. Foram denunciados ainda 64 atos de lavagem
de dinheiro e um ato de organização criminosa do ex-deputado.
Os investigadores apontam que Luiz
Argôlo tinha uma espécie de sociedade com Youssef. Mensagens de celular
trocadas entre os dois revelaram o grau elevado de intimidade. Eles se tratavam
como “amor” e “bebê”. “Ele criou relação de sociedade com Youssef. Então,
muitas vezes, Alberto repassava dinheiro diretamente para Argôlo”, salientou o
procurador da República Paulo Galvão. Ele destacou que o ex-deputado foi 78
vezes ao escritório do doleiro.
Viagens
Segundo o Ministério Público Federal,
em pelo menos 40 viagens, o ex-parlamentar utilizou recursos da Câmara dos
Deputados. De acordo com o procurador, Argôlo tentou viabilizar, por exemplo,
um empréstimo do Banco do Nordeste ao hotel de Youssef. Uma reunião chegou a
ser agendada entre funcionários do doleiro e o banco no ano passado, por
intervenção do então deputado.
Com relação ao núcleo de Pedro
Corrêa, os crimes denunciados foram de corrupção passiva, lavagem de dinheiro,
peculato e organização criminosa. “Pedro Corrêa era um dos responsáveis pela distribuição
interna do PP e recebeu valores específicos em benefício próprio”, afirmou
Dallagnol. Corrêa foi denunciado por 280 atos de corrupção passiva. Foram
denunciados 569 atos de lavagem de dinheiro e 123 de peculato. Os advogados dos
denunciados só vão se pronunciar após terem acesso às denúncias.
Os denunciados
Ministério Público denuncia parte do
grupo político, dividido em três núcleos, do esquema de corrupção na Petrobras.
Confira:
1 – Núcleo André Vargas
*André Luiz Vargas Ilário, ex-deputado
federal pelo PT
Corrupção, lavagem
de dinheiro, organização criminosa 3 atos de corrupção
ativa, 64 atos de lavagem de dinheiro e um ato de organização criminosa - Valor envolvido: R$ 1,1 milhão
» É suspeito de receber dinheiro por
meio de duas empresas fantasmas. A LSI e a Limiar já foram registradas em nome
dele e hoje estão oficialmente na mão de seus irmãos, Leon e Milton
Vargas. A Procuradoria-Geral da República sustenta que o ex-deputado é o
controlador das contas das firmas. Receberam dinheiro de empresas vinculadas ao
Ministério da Saúde, à Caixa, bem como do frigorífico JBS S/A e também da
concessionária de rodovias Ecovias. Na Saúde, uma agência de publicidade
recebeu R$ 126 milhões para serviços de comunicação, subcontratando produtoras.
Demais integrantes
*Leon
Dênis Vargas Ilário, irmão do ex-parlamentar
Corrupção, lavagem
de dinheiro e organização criminosa
*Milton Vargas Ilário, irmão do
parlamentar
Corrupção, lavagem de dinheiro e
organização criminosa
*Ricardo Hoffmann, ex-executivo da
agência Borghi Lowe
Corrupção, lavagem de dinheiro e
organização criminosa
2
– Núcleo Luiz Argôlo
*Luiz Argôlo,
ex-deputado federal pelo Solidariedade
Corrupção, lavagem
de dinheiro e peculato10 atos de
corrupção, 10 atos de lavagem de dinheiro e 93 atos de peculato - Valor
envolvido: R$ 1,6 milhão 78 visitas ao escritório do doleiro Alberto
Youssef - 40 viagens realizadas com recursos da Câmara dos Deputados
» O ex-deputado é acusado de receber
diretamente propina intermediada pelo doleiro Alberto Youssef, um dos
principais operadores do esquema. Os dois, segundo a investigação, eram muito
próximos. Os investigadores afirmam que eles tinham uma sociedade informal. O
doleiro pretendia fazer de Argôlo um dos seus principais braços políticos no
Congresso Nacional.
Demais integrantes
*Alberto Youssef,
doleiro e um dos principais delatores do esquema
Corrupção e lavagem
de dinheiro
*Rafael Ângulo Lopez, subordinado a
Youssef. Fazia a entrega do dinheiro sujo
Corrupção e lavagem de dinheiro
*Carlos Alberto Costa, advogado
ligado a Youssef
Corrupção e lavagem
de dinheiro
3 – Núcleo
Pedro Corrêa
*Pedro Corrêa, ex-deputado federal
pelo PP
Corrupção passiva,
lavagem de dinheiro e peculato 280 atos de
corrupção passiva, 569 atos de lavagem de dinheiro e 123 atos de
peculato. Valor envolvido: R$ 398 mil
» O ex-parlamentar, que cumpre pena
em regime semiaberto por condenação no chamado processo do mensalão, é acusado
de receber e distribuir propina para deputados do PP. O esquema que envolvia
Corrêa tinha como principal articulador o ex-diretor de Abastecimento da
Petrobras Paulo Roberto Costa, que repassava um percentual de propina ao PP com
base em contratos direcionados para empreiteiras do cartel.
Demais integrantes
*Ivan Vernon, ligado
ao PP, trabalhava na segunda secretaria da Câmara
Lavagem de dinheiro,
peculato e organização criminosa
*Márcia Danzi Corrêa de Oliveira,
nora do ex-deputado Pedro Corrêa
Lavagem de dinheiro e organização
criminosa
*Aline Corrêa, ex-deputada e filha de
Pedro Corrêa
Peculato
*Alberto Youssef, doleiro e um dos
principais delatores do esquema
Lavagem de dinheiro
*Rafael Ângulo Lopez, subordinado a
Youssef
Lavagem de dinheiro
*Fábio Corrêa Neto, filho do
ex-deputado Pedro Corrêa
Lavagem de dinheiro e organização
criminosa
Por:
João Valadares – Correio Braziliense
