"Consegui reunir fotos e vídeos da entrega dessas doações de fim de ano. Faço isso desde os anos 1990. Com o perdão da expressão, desde a época que eu tinha cabelo" (José Roberto Arruda, réu no caso Caixa de Pandora)
Ex-governador reafirma que os R$ 50 mil recebidos de Durval
Barbosa eram para doações a entidades filantrópicas, diz que tem imagens para
provar e confessa que os repasses ocorriam de forma não muito controlada.
Depoimento encerra a fase de instrução
Acusado de falsificar recibos para justificar o repasse de
dinheiro de Durval Barbosa, o ex-governador José Roberto Arruda prestou
depoimento ontem na 7ª Vara Criminal do Distrito Federal e negou as denúncias.
O interrogatório ocorreu depois de sucessivas tentativas de o Judiciário
notificar o réu sobre a realização da audiência. A defesa de Arruda chegou a
informar um endereço errado em São Paulo, o que levou o juiz do caso, Fernando
Messere, a declarar que o réu poderia ser preso preventivamente, se não comparecesse
à vara ontem à tarde. O ex-governador tinha o direito de ficar calado, mas
respondeu a todas as perguntas. Mais uma vez, ele declarou que os R$ 50 mil
recebidos das mãos do delator da Caixa de Pandora foram usados para a compra de
panetones, cestas básicas e doações a entidades filantrópicas. Para o
Ministério Público, o dinheiro repassado a Arruda era de propina.
Em 2006,
o ex-governador foi filmado recebendo um envelope com dinheiro em espécie das
mãos de Durval Barbosa. Em 2009, as imagens se transformaram no centro do
escândalo decorrente da operação. O Ministério Público afirma que Arruda teria
falsificado quatro recibos para justificar o recebimento dos recursos. Em
depoimento à Polícia Federal e à Justiça, Barbosa garantiu que não fez as doações
filantrópicas.
Durante o
interrogatório conduzido ontem pelo juiz Fernando Messere, Arruda afirmou que
sempre realizou doações a pessoas carentes na época do Natal. Segundo ele, as
ações beneficiavam mais de 1 mil entidades de 30 cidades do Distrito Federal.
“Consegui reunir fotos e vídeos da entrega dessas doações de fim de ano. Faço
isso desde os anos 1990. Com o perdão da expressão, desde a época que eu tinha
cabelo”, brincou o ex-governador.
Segundo
Arruda, os repasses às entidades eram feitos de maneira “não muito controlada”,
até que advogados dele tiveram conhecimento de uma investigação do Ministério
Público Eleitoral, aberta para verificar se as doações poderiam se configurar
campanha irregular. A defesa de Arruda fez uma consulta ao Tribunal Regional
Eleitoral e começou a coletar recibos das entidades beneficiadas para juntar à
documentação. De acordo com o ex-governador, Durval pediu recibo pelas doações
e esses documentos foram assinados na residência oficial de Águas Claras. “Era
um direito dele, como doador”, justificou Arruda.
Segredo
Durante a
audiência, o representante do Ministério Público, promotor Clayton da Silva
Germano, mencionou em seus questionamentos a ação que corre na Justiça Federal
contra os ex-promotores Leonardo Bandarra e Deborah Guerner. Eles são acusados
de extorquir Arruda. O juiz Fernando Messere interrompeu Clayton com a alegação
de que esse processo corre em segredo de Justiça e não poderia ser usado como
base para perguntas durante a audiência. Com isso, os promotores não fizeram
novos questionamentos e o interrogatório foi encerrado pouco mais de 30 minutos
após o início da sessão. Os quatro advogados de Arruda presentes também optaram
por não fazer perguntas.
Com o
depoimento do ex-governador, encerra-se a fase de instrução do processo
criminal. O MP e a defesa terão 10 dias para pedir novas diligências. Depois de
o juiz analisar as solicitações, serão apresentadas as alegações finais e o
magistrado poderá proferir a sentença. Além dessa ação penal, tramitam no
Tribunal de Justiça 14 processos criminais contra o ex-governador, a maioria
relacionada à Operação Caixa de Pandora. Ele já foi alvo também de 11 ações de
improbidade.
Fonte: Helena Mader – Correio Braziliense
