Na república Atlântida, piscina, sauna, canil e seis quartos fazem a festa das sete pessoas que moram lá: espaço e conforto por um preço acessível
Grupos de estudantes e de profissionais já formados dividem
casas bem equipadas em bairros como os lagos Sul e Norte. O valor para cada
pessoa chega a R$ 1.200 %u2014 o que não pagaria um aluguel de um apartamento
de dois quartos no Plano Piloto
Quando se pensa em república, a imagem que vem à cabeça é um
apartamento do tamanho de uma caixa de fósforos, entulhado de móveis e ocupado
apenas por estudantes, com mais de uma cama por quarto e a pia cheia de louças
sujas. Para alguns grupos de jovens moradores de Brasília, no entanto, a
realidade é bem diferente. Em bairros nobres, como Lago Norte e Lago Sul,
multiplicam-se as residências divididas por várias pessoas, de idades e
trajetórias diferentes. Boa localização, quartos espaçosos, salas bem
equipadas, quintais providos de piscina e outras comodidades são algumas
vantagens oferecidas pelas casas — luxos que pareceriam inatingíveis para quem
está nos primeiros anos da carreira. O arranjo é tão vantajoso que muitos
apostam na forma de moradia a longo prazo.
Seis
quartos, sete banheiros, garagem com cinco vagas, sauna, canil e até piscina
com bar submerso, rodeada de gramado e árvores. Todas essas mordomias fazem
parte do dia a dia da república Atlântida, localizada num terreno de 800m² na
quadra MI 13 do Setor de Mansões do Lago Norte. Sete pessoas racham as despesas
da casa. São três mulheres e quatro homens, com idades entre 27 e 32 anos de
idade, de profissões variadas. A casa também é lar do cachorro Tunico e dos
gatos Eskerdinho e Madonna. “Nós nos conhecemos na república na qual morávamos
antes, também no Lago Norte. Como a casa foi vendida, nos mudamos para esta”,
conta o realizador audiovisual Alan Shivas, 30 anos. Segundo os integrantes, a
possibilidade de dispor de espaço e conforto por um preço acessível é um dos
principais atrativos. “Os gastos ficam entre R$ 1 mil e R$ 1.200, incluindo
condomínio, internet, TV a cabo, eletricidade, faxineira, piscineiro e comida,
que é dividida entre todos”, explica a pesquisadora Clara Baringo, 29.
Amigos dividem a casa no Lago Norte e não duvidam que o sistema faz muito bem para eles mesmos
Sem bagunça
Quem acha
que uma república com tanta gente só pode resultar em bagunça se engana.
Despojados e cheios de bom humor, os moradores da Atlântida demonstram que é
possível ter uma boa convivência mesmo compartilhando o lar com muitas pessoas.
“O clima de amizade e coletividade é uma das melhores coisas de viver em
república”, garante Alan. Para se organizar, computam todos os gastos em
planilhas e dividem as tarefas da casa. Alguns integrantes do grupo já se
conhecem há cerca de quatro anos, então, a maioria das regras de convivência
estão subentendidas. “Nós já fomos bem festeiros, mas hoje somos uma república
aposentada. Somos bem tranquilos quanto a receber convidados e, no caso de
algum evento maior, costumamos nos avisar por e-mail ou WhatsApp”, explica o
sociólogo Marcos Arcuri, 30. “Às vezes, chego em casa e encontro uma galera
fazendo um som, mas, fora isso, é um ambiente bem sossegado”, completa Clara.
O Lago
Sul também é outra das regiões onde o número de repúblicas tem aumentado nos
últimos anos. Foi o local escolhido para morar pelo geógrafo Júlio Campos, 29
anos, e cinco amigos — quatro homens e uma moça—, depois que se mudaram para
Brasília. Vários deles se conheceram quando estudavam na Universidade Federal
de Viçosa e, atualmente, trabalham na capital. A casa escolhida fica na QI 29,
conta com dois andares, seis quartos, piscina, churrasqueira e área verde com
várias árvores frutíferas.
“Ter uma
área de lazer grande, com a possibilidade de criar cachorros, foi o que nos fez
decidir alugar algo maior”, conta Júlio. Os labradores Ted e Charlie, ainda
filhotes, fazem a alegria dos jovens e dos visitantes. Faxineira, piscineiro e
jardineiro ajudam a tomar conta da casa, mas as outras tarefas são
rigorosamente divididas entre os moradores. “Temos planilha até para organizar
quem tira o lixo”, relata o engenheiro ambiental Demetrius Viana, 30 anos.
No Lago Sul, o conjunto de amigos tem planilha até para ver quem vai tirar o lixo da residência
Sinuca e
pingue-pongue
Como os
integrantes da república se mudaram há apenas três meses, a residência está
sendo mobiliada. “Nós dividimos todos os gastos para comprar eletrodomésticos e
outros itens e, caso alguém saia, a pessoa que entrar assume pagar o que falta,
descontando a depreciação”, explica Júlio. Os custos gerais por pessoa ficam em
torno de R$ 1 mil, incluindo piscina e espaço ampo. “Por esse preço, no Plano
Piloto, por exemplo, dificilmente ganharíamos tantos benefícios em troca”,
acrescenta Demetrius. Na sala enorme da casa, o plano é colocar uma sinuca e
uma mesa de pingue-pongue. Até lá, churrascos no fim de semana são garantidos.
A
possibilidade de pagar menos por mais espaço e conforto tem levado muitos
moradores de república a considerar o arranjo como mais do que temporário. Na
casa dividida pelo consultor José Ricardo Fonseca, 39, por exemplo, a faixa
etária dos integrantes é entre 30 e 40 anos, e a maioria não sente vontade
alguma de se mudar. A casa fica na QI 3 do Lago Norte, tem seis quartos e uma
generosa área de lazer, com piscina e churrasqueira. Oito pessoas compartilham
o espaço, pagando entre R$ 700 e R$ 850. “Além de pagar pouco, a possibilidade
de viver com amigos melhora a qualidade de vida”, diz José, que reside na casa
com a companheira e, inclusive, a filha de 12 anos. “Ela adora morar aqui e
gosta muito do pessoal”, acrescenta o pai. Os outros colegas da casa também
destacam o bom convívio como a principal vantagem. “As pessoas acham que
república é uma coisa só de estudante, mas não sabem o que estão perdendo. É
muito bom estar próximo das amizades”, afirma o advogado Edson Pistori, 37
anos.
Fonte: Paloma Suertegaray – Correio Braziliense
