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País pode enfrentar sequência de apagões


Especialista da UnB diz que racionamento de energia passa a ser uma opção bastante real

O apagão que atingiu dez estados e o Distrito Federal na segunda-feira pode não ser fato isolado, e se tornar algo comum daqui em diante. Para Gustavo Souto Maior, professor do grupo de estudos ambientais da Universidade de Brasília (UnB), a queda do fornecimento de energia era “totalmente previsível” e, com as altas temperaturas, aquecimento global e baixos reservatórios, o racionamento de energia passa a ser uma opção clara. “A situação está cada vez pior”, afirma.

“Apesar de o governo evitar a palavra racionamento, o apagão de segunda-feira é um forte indicativo de que estamos prestes a viver, sim, com isso”, entende o especialista que já havia alertado sobre a possibilidade de falhas no fornecimento em virtude das altas temperaturas registradas no Distrito Federal neste verão.

Agora, ele afirma que “daqui para frente teremos períodos de calor cada vez mais intensos, que demandarão um consumo maior de água e energia e começaremos a enfrentar cada vez mais apagões”. Isso porque, com o calor enfrentado por todo o País, as pessoas estão usando muito mais aparelhos elétricos.

Distrito Federal

Além disso, a situação pode ser ainda mais complicada no DF. “O problema com falta de água também está iminente. O consumo já é praticamente igual à oferta e isso não vai ser resolvido rapidamente”, diz, projetando que em dois anos já falte água na região.

Com um maior consumo energético e pouco reabastecimento dos reservatórios, o sistema não comporta a demanda. “Não é à toa que o ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) recomendou uma oferta menor de energia. Quando o consumo começa a ser maior que a oferta, há corte”, explica.

Reservatórios em baixa

A última chuva registrada no DF foi há 17 dias, uma realidade atípica para o verão de janeiro que contribuiu para a queda do nível dos reservatórios. No ano passado, um “bloqueio atmosférico” formado por uma massa de ar quente impediu o avanço das frentes frias que causam chuvas. Como resultado, houve menos chuvas que o registrado em 1953, ano da pior seca da história.

“O sistema não está conseguindo suprir as altas demandas, principalmente por causa das temperaturas elevadas”, considera Souto. “Cada vez estamos batendo recordes de temperatura. É um efeito estufa que há muitos anos vem sendo alertado, mas infelizmente nosso governo e a sociedade ainda não perceberam que isso é algo para valer”, critica.

O ciclo vicioso, diz o especialista, é claro. As temperaturas altas promovem um uso maior de eletrodomésticos que minimizem os efeitos do calor, que sobrecarregam as linhas de energia.

Hoje, o nível de reservatórios no sistema Sudeste/Centro-Oeste, responsável por 70% de toda a energia consumida no Brasil, está operando em 17.91% de sua capacidade máxima. O índice é bem menor que o registrado em janeiro de 2001, quando o Brasil viveu o racionamento de energia elétrica.

Apesar de não existirem dados diários sobre a situação histórica dos reservatórios naquela época, esses locais operavam com 31,41% no primeiro mês de 2001.

Comerciantes estão apreensivos

Não adiantou mexer no interruptor. No meio da tarde de segunda-feira, nada de luz em 157 mil unidades consumidoras do DF, já que oito subestações de energia elétrica foram desligadas. Aqui, comerciantes que precisam da energia para tocar seus negócios temem mais prejuízos no futuro. 

Lidar com perecíveis é um trabalho complicado. É preciso cuidado, higiene e frio. Sem energia, esse último é impossível. Que o diga Jucelino de Souza, 38 anos, gerente de um açougue em Planaltina. Na tarde de segunda-feira, o apagar das luzes deixou a equipe tensa, já que não há geradores no local. “A falta de energia para nós é muito complicada”, ressalta.

Por sorte, o período em que o estabelecimento ficou sem fornecimento não foi suficiente para que a mercadoria estragasse, mas, no mês passado, uma queda de energia que durou mais de três horas resultou em prejuízos. 

“Dessa vez eu fiquei preocupado e só saí daqui quando a luz voltou porque tinha medo de afetar o relógio e estragar as carnes novamente”, conta o gerente.

De acordo com ele, a mercadoria congelada consegue se manter fora do local refrigerado por até três horas, “mas a câmara fria, onde os alimentos descongelados ficam, só aguentam meia hora. Depois disso, precisa ser ligada imediatamente”. Por isso, o gasto mensal de consumo chega a R$ 5 mil. Sem energia por mais tempo, o prejuízo pode chegar a R$ 160 mil em um dia e toda a carne ir parar no lixo, conta.

“Agora, não dá para confiar”

Para uma sorveteria, manter os produtos na consistência correta só é possível com refrigeração. Em Sobradinho, um estabelecimento que sofre constantemente com falhas de fornecimento de energia pode fechar as portas. A proprietária, Osaneia Barreto, conta que está até pensando em mudar de ramo “porque não dá para confiar”. 

De acordo com ela, cada vez que falta energia elétrica é um prejuízo. Mercadorias estragam, clientes somem, vendas diminuem e, a cada duas horas, mais de R$ 2 mil são perdidos. 

“Não dá para abrir o freezer porque os sorvetes derretem muito rápido, então vendemos apenas picolés”, diz, mas isso não impede que os sorvetes armazenados derretam: “São muito sensíveis. Se a energia começar a faltar uma vez por semana, por exemplo, não vai dar para manter”.

Na segunda-feira, as duas horas  em que o fornecimento de energia esteve suspenso, fizeram com que produtos derretessem. “Aqui, nada funciona sem luz, precisamos totalmente dela. Com o calor, isso piora”, disse a funcionária Laís Christina.  

“O sorvete fica muito mole em questão de minutos. Não dá para esperar. Até quando vamos repor os novos, tem que ser rápido”, contou a atendente Karine Damé, que disparou: “Se continuar assim, vamos à falência”.

Fonte: Da redação do Jornal de Brasília - Jéssica Antunes


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