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COMPORTAMENTO » O Lago Paranoá é para todos

Por ser democrático, o espelho d'água precisa que os frequentadores tenham consciência de regras básicas de convivência e respeito ao próximo. Ainda mais em época de calor extremo, quando o local é muito usado por diversas tribos.

Por: Thaís Paranhos - Correio Braziliense

Praticantes de SUP: lago faz parte do dia a dia do brasiliense


Amante da natação, o servidor público Edilson Rocha, 47 anos, morador de Sobradinho, frequenta o Lago Paranoá há mais de 20. Recentemente, começou a fazer aulas de remo. Ele é uma das milhares de pessoas que descobriram no espelho d’água uma fonte inesgotável de diversão. E uma ótima alternativa para a época de calor que o Distrito Federal passou. Desde que seja aproveitada de maneira consciente e respeitosa. “Procuro nadar pela manhã quando ainda está vazio, saímos com pelo menos três pessoas ou um barco de apoio. Se escuto barulho ou música alta, logo paro”, conta.

Wellington e Renato não perdem a pescaria e ajudam a limpar a orla 

Com esses cuidados, Edilson evita passar por situações de risco, mas não consegue impedir alguns abusos. “Já cheguei à prainha do Lago Norte e vi um carro estacionado dentro do lago, sendo lavado pelo dono, que escutava música alta. É um espaço maravilhoso, mas mal aproveitado e explorado pelas pessoas”, lamenta.

Edilson frequenta o lago há mais de 20 anos: dificuldades com barulho
Edilson tem razão. No lago, reúnem-se as tribos do stand up paddle (SUP), do caiaque, dos banhistas, dos velejadores. Tem espaço para todo mundo. Porém, um lugar tão democrático requer dos frequentadores bom senso para que um não atrapalhe a atividade do outro. O respeito a regras básicas também pode evitar acidentes. O DF tem quase 5 mil embarcações. Em um fim de semana, circulam pelo lago de 200 a 500, de acordo com o 7º Distrito Naval. Com tantas embarcações, é difícil não haver incidentes.

O economista Maurício Albuquerque, 54 anos, veleja desde os 18 e já se deparou com algumas situações complicadas durante a atividade, inclusive em competições. “Eu estava navegando e encontrei um banhista que nadava fora da área dele, sem nenhuma identificação, como uma touca colorida. Outra vez, competia em uma regata e, de repente, uma lancha passou no meio da raia em alta velocidade. Chega perdi o rumo do barco”, conta.

Maurício enfrentou problemas com lancha e um banhista fora do lugar

Os pescadores Wellington Lopes de Andrade, 32 anos, e Renato da Silva Almeida, 31, moradores de Ceilândia, também enfrentam as consequências de uma convivência pouco harmoniosa. Eles evitam os fins de semana devido à quantidade de pessoas e embarcações na água. A situação que encontram na segunda-feira prejudica a atividade. “A gente vê muito lixo por aqui. O pessoal passa o dia, toma banho, vai embora e o lixo fica. Já recolhemos garrafas, sacos plásticos, cacos de vidro e sapatos”, conta Renato.

Regras
Algumas tentativas de criar regras para uso do lago foram feitas nos últimos anos, mas tiveram pouco efeito até agora. No ano passado, o Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Paranoá (CBHRP) concluiu o Zoneamento do Uso do Espelho do Lago Paranoá, para delimitar o uso preferencial do espaço. O governo também encaminhou para a Câmara Legislativa um projeto de lei sobre o assunto em 2013, mas ainda não foi votado.

O plano do CBHRP determina, por exemplo, uma faixa de 300m a partir da margem para banhistas e praticantes de esporte que não necessitem de equipamentos motorizados, como SUP, caiaque e remo. As embarcações só podem passar por essa área para atracar. A região central do espelho d’água fica reservada aos barcos. “Se virasse lei, acreditamos que alguns problemas seriam minimizados. O governo trabalhou a questão, mas não foi para frente. O nosso está pronto e poderia ser usado. Enquanto isso, segue como recomendação”, diz o presidente do comitê, Jorge Werneck.

Seja por recomendação, seja por força de lei, o bom senso deve prevalecer. “O uso da água é histórico e as regras de convivência valem para lá também. Como na rua, com carros e pedestres, os barcos devem respeitar os mais fracos”, alerta o coordenador do movimento Amigos do Lago Paranoá, Guilherme Sampaio Scartezini. Ele lembra que a cautela deve estar presente em qualquer atividade. “Assim como muitos donos de lanchas se aproximam da margem em alta velocidade e com música alta, o sujeito que está no caiaque ou na prancha entra na faixa das embarcações sem cuidado”, explica.

Para evitar encontros inesperados, o coordenador do movimento Amigos do Lago apresenta algumas medidas como os corredores de travessia. “Eles ficariam onde hoje estão as pontes, seria uma forma de os nadadores atravessarem o lago sem se colocar em situação de risco”, explica. Outra forma seria a marcação de áreas por meio de boias, indicada também pelo 7º Distrito Naval da Marinha, responsável pela fiscalização. “Assim, os velejadores e pilotos de lancha podem saber que ali é uma área onde a população está”, completa Scartezini.

Entenda o caso - 10 anos de descaso

Em 2005, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) entrou com uma ação civil pública contra o governo local, com o argumento de que o GDF seria omisso com a obrigação de fiscalizar e coibir ocupações irregulares. No processo, o MP alegou que “os trechos da orla do Lago Paranoá são indispensáveis para a proteção de várias espécies”. Oito anos depois, a Justiça determinou multa de R$ 5 mil diários caso um cronograma de desocupação da orla não fosse entregue em 120 dias. A intenção da Justiça era que área de preservação permanente (APP) fosse recuperada, mas nada aconteceu. Ano passado, o MPDFT deu novo prazo, mas sem sucesso. A legislação ambiental proíbe qualquer construção em uma faixa de 50m a partir do lago, mas não é o que se vê no bairro nobre de Brasília. O GDF chegou a apresentar um plano com cronogramas para a retirada e desocupação da orla, de fiscalização e outro de recuperação da área. O MP, no entanto, considerou falho o documento e insistiu na execução da sentença.

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