A maioria das cerimônias nupciais ocorrerá após o fim da competição. A alta no preço das passagens aéreas e das diárias de hotéis influenciou a decisão dos noivos. Eles também não querem correr o risco de dividir a atenção dos convidados com as partidas do torneio.
Natália e João Henrique não vão se casar durante o campeonato. Não queremos correr o risco de algo dar errado, diz ela.
Cerimonialistas, igrejas, casas de evento e todos os envolvidos com festas de casamento estão acostumados, a cada quatro anos, lucrar menos no mês em que ocorre a Copa do Mundo. As noivas, geralmente, preferem não dividir a atenção com o campeoanto e correr o risco de ter a cerimônia esvaziada. Este ano, quando Brasília receberá sete jogos, a queda no movimento do setor foi ainda maior. Há empresas que fecharão as portas no período do torneio. Além de a data da celebração poder coincidir com a de algum jogo importante, as dificuldades com logísitica, como hotéis e passagens de avião mais caras, levaram casais a evitar fazer os votos matrimoniais no período do Mundial.
Um dos organizadores de grandes festas de casamento em Brasília, Cesar Serra não vai trabalhar entre junho e julho. “Apesar de ser um dos três meses mais lucrativos, devido ao início da seca, caiu quase na totalidade o número de festas matrimoniais de grande porte. A maioria das pessoas não viu uma Copa no Brasil e fica com medo. Não sabe como funcionará a cidade, quais ruas estarão fechadas, o que estará aberto”, acredita. Ele lembra uma festa em 1998, que coincidiu com a semifinal do Mundial na França. “Alguns convidados chegaram bêbados, outros ficaram do lado de fora da igreja acompanhando a partida por uma televisão portátil de um manobrista”, recorda.
Milene Gagliardi, diretora de um espaço de eventos, discorda de Serra. Ela não crê que o Mundial trará prejuízo para o setor, pois há uma redistribuição nas datas das comemorações, e não cancelamentos. “Ninguém deixa de casar. No máximo muda o dia”, diz. Embora confirme a redução no número de matrimônios marcados para os meses do torneio, ela argumenta que o campeonato vai agitar a cidade e alterar o perfil de eventos que Brasília está acostumada a receber entre junho e julho. “Um patrocinador da competição reservou nosso espaço para dois dias. Eles farão uma recepção de convidados antes dos jogos. Depois, todos vão para o Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha. Não sei detalhes da festa nem da decoração, se será em verde e amarelo. Só o que posso antecipar é que será algo bem animado, no clima da Copa”, adianta.
Os servidores públicos Natália Negreiros, 29, e João Henrique Engel, 37, namoram há 5 anos. Eles noivaram no começo de 2013 e planejaram se casar este ano no período de seca. Eles não farão a celebração durante o campeonato. “O futebol vai tumultuar a cidade. Mudará a rotina da população, do comércio, enfim, de tudo. E, como esperamos por muito tempo a troca das alianças, não queremos correr risco de algo dar errado”, diz Natália. Engel acredita que o fanatismo do brasileiro com o esporte não permite que outros eventos sejam realizados no mesmo dia. “Ninguém duvida da força do futebol na nossa cultura”, pondera o noivo.
Clima
As agendas vagas das igrejas nas datas da competição contrastam com a falta de horários nos meses subsequentes. A funcionária pública Kelly Paiva, 30 anos, e o empresário Diogo Santos, 30, queriam casar em junho, mas preferiram não ter a atenção dividida com o Mundial. “Tudo ficará mais caro, e ninguém vai pensar em presente, traje formal e tudo mais que envolve a cerimônia”, prevê Kelly. O casamento deles será em agosto, pouco mais de 20 dias após o término do torneio. “Ao mesmo tempo que os funcionários do setor não terão trabalho em junho e julho, em agosto eles estarão com a agenda lotada e cobrando alto. O fotógrafo que eu queria para registrar minha festa, por exemplo, tinha outro evento e não consegui contratá-lo”, relata.
O casal não entrará na igreja para celebrar a união. A festa será a céu aberto, e eles pretendem aproveitar bem o clima arejado e o pôr do sol de Brasília. Para isso, não podem correr risco de haver chuva. “Seria uma tragédia. Evitamos julho por causa do Mundial. Marcamos, então, para agosto, que não costuma chover também, mas não é o mesmo clima. Geralmente, faz mais frio”, diz.
A cerimonialista Cristina Gomes organiza, em média, seis casamentos por mês. De 12 de junho a 13 de julho, fará apenas um. “Em Brasília, quase todo mundo tem parente fora, que precisa pegar um avião para vir prestigiar os noivos. E todos sabem que as passagens e as hospedagens nos hotéis estarão mais caras enquanto a Copa do Mundo estiver acontecendo.” Ela, contudo, exalta o lado positivo de o Mundial ocorrer aqui. “Não podemos desvalorizar essa conquista. É o maior evento esportivo do mundo”, comemora.
A igreja Dom Bosco é uma das mais procuradas para casamentos. Raramente, uma sexta-feira ou um sábado passa em branco no local. No mínimo, duas vezes por semana casais fazem juras de amor diante do altar do santuário. Na época do campeonato, haverá apenas três matrimônios no espaço. “Esperávamos essa redução. As pessoas ficam com medo de todos estarem mais atentos aos jogos do que à festa”, diz Joelma Cardoso, secretária da igreja.
Hyathama Pires também organiza matrimônios e viu a demanda para junho minguar. Segundo ela, há colegas de profissão que bolam estratégias para fazer casamentos em tempos de Mundial. “Lembro uma festa com um telão na parede para os convidados acompanharem a partida. Não acho que isso seja uma boa opção. Dispersa as pessoas, que, inevitavelmente, ficam mais interessadas no jogo do que na festa.”
Para saber mais
Em Belo Horizonte (MG), todos os tipos de serviço para casamento ofereceram promoções àqueles que preferiram casar na época da competição. Naquela cidade, encontram-se descontos que vão de 5% a 60% nos mais variados serviços, como o aluguel do salão e a cobertura fotográfica do evento. Apesar de ser no mês do dia dos namorados, até as floriculturas terão prejuízo entre junho e julho. Eles calculam uma baixa de um terço nas vendas. As promoções ajudam mineiros que querem economizar na celebração. No último ano, o setor sofreu com a inflação: foi registrada uma alta média de 16,11% nos produtos ligados ao ramo.
“Apesar de ser um dos três meses mais lucrativos, devido ao início da seca, caiu quase na totalidade o número de festas matrimoniais de grande porte”
Cesar Serra, organizador de festas
“Em Brasília, quase todo mundo tem parente de fora, que precisa pegar um avião para vir prestigiar os noivos. E todos sabem que as passagens e as hospedagens nos hotéis estarão mais caras
Cristina Gomes, cerimonialista.
Por: Matheus Teixeira - Correio Braziliense - 16/05/2014
Natália e João Henrique não vão se casar durante o campeonato. Não queremos correr o risco de algo dar errado, diz ela.
Cerimonialistas, igrejas, casas de evento e todos os envolvidos com festas de casamento estão acostumados, a cada quatro anos, lucrar menos no mês em que ocorre a Copa do Mundo. As noivas, geralmente, preferem não dividir a atenção com o campeoanto e correr o risco de ter a cerimônia esvaziada. Este ano, quando Brasília receberá sete jogos, a queda no movimento do setor foi ainda maior. Há empresas que fecharão as portas no período do torneio. Além de a data da celebração poder coincidir com a de algum jogo importante, as dificuldades com logísitica, como hotéis e passagens de avião mais caras, levaram casais a evitar fazer os votos matrimoniais no período do Mundial.
Um dos organizadores de grandes festas de casamento em Brasília, Cesar Serra não vai trabalhar entre junho e julho. “Apesar de ser um dos três meses mais lucrativos, devido ao início da seca, caiu quase na totalidade o número de festas matrimoniais de grande porte. A maioria das pessoas não viu uma Copa no Brasil e fica com medo. Não sabe como funcionará a cidade, quais ruas estarão fechadas, o que estará aberto”, acredita. Ele lembra uma festa em 1998, que coincidiu com a semifinal do Mundial na França. “Alguns convidados chegaram bêbados, outros ficaram do lado de fora da igreja acompanhando a partida por uma televisão portátil de um manobrista”, recorda.
Milene Gagliardi, diretora de um espaço de eventos, discorda de Serra. Ela não crê que o Mundial trará prejuízo para o setor, pois há uma redistribuição nas datas das comemorações, e não cancelamentos. “Ninguém deixa de casar. No máximo muda o dia”, diz. Embora confirme a redução no número de matrimônios marcados para os meses do torneio, ela argumenta que o campeonato vai agitar a cidade e alterar o perfil de eventos que Brasília está acostumada a receber entre junho e julho. “Um patrocinador da competição reservou nosso espaço para dois dias. Eles farão uma recepção de convidados antes dos jogos. Depois, todos vão para o Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha. Não sei detalhes da festa nem da decoração, se será em verde e amarelo. Só o que posso antecipar é que será algo bem animado, no clima da Copa”, adianta.
Os servidores públicos Natália Negreiros, 29, e João Henrique Engel, 37, namoram há 5 anos. Eles noivaram no começo de 2013 e planejaram se casar este ano no período de seca. Eles não farão a celebração durante o campeonato. “O futebol vai tumultuar a cidade. Mudará a rotina da população, do comércio, enfim, de tudo. E, como esperamos por muito tempo a troca das alianças, não queremos correr risco de algo dar errado”, diz Natália. Engel acredita que o fanatismo do brasileiro com o esporte não permite que outros eventos sejam realizados no mesmo dia. “Ninguém duvida da força do futebol na nossa cultura”, pondera o noivo.
Clima
As agendas vagas das igrejas nas datas da competição contrastam com a falta de horários nos meses subsequentes. A funcionária pública Kelly Paiva, 30 anos, e o empresário Diogo Santos, 30, queriam casar em junho, mas preferiram não ter a atenção dividida com o Mundial. “Tudo ficará mais caro, e ninguém vai pensar em presente, traje formal e tudo mais que envolve a cerimônia”, prevê Kelly. O casamento deles será em agosto, pouco mais de 20 dias após o término do torneio. “Ao mesmo tempo que os funcionários do setor não terão trabalho em junho e julho, em agosto eles estarão com a agenda lotada e cobrando alto. O fotógrafo que eu queria para registrar minha festa, por exemplo, tinha outro evento e não consegui contratá-lo”, relata.
O casal não entrará na igreja para celebrar a união. A festa será a céu aberto, e eles pretendem aproveitar bem o clima arejado e o pôr do sol de Brasília. Para isso, não podem correr risco de haver chuva. “Seria uma tragédia. Evitamos julho por causa do Mundial. Marcamos, então, para agosto, que não costuma chover também, mas não é o mesmo clima. Geralmente, faz mais frio”, diz.
A cerimonialista Cristina Gomes organiza, em média, seis casamentos por mês. De 12 de junho a 13 de julho, fará apenas um. “Em Brasília, quase todo mundo tem parente fora, que precisa pegar um avião para vir prestigiar os noivos. E todos sabem que as passagens e as hospedagens nos hotéis estarão mais caras enquanto a Copa do Mundo estiver acontecendo.” Ela, contudo, exalta o lado positivo de o Mundial ocorrer aqui. “Não podemos desvalorizar essa conquista. É o maior evento esportivo do mundo”, comemora.
A igreja Dom Bosco é uma das mais procuradas para casamentos. Raramente, uma sexta-feira ou um sábado passa em branco no local. No mínimo, duas vezes por semana casais fazem juras de amor diante do altar do santuário. Na época do campeonato, haverá apenas três matrimônios no espaço. “Esperávamos essa redução. As pessoas ficam com medo de todos estarem mais atentos aos jogos do que à festa”, diz Joelma Cardoso, secretária da igreja.
Hyathama Pires também organiza matrimônios e viu a demanda para junho minguar. Segundo ela, há colegas de profissão que bolam estratégias para fazer casamentos em tempos de Mundial. “Lembro uma festa com um telão na parede para os convidados acompanharem a partida. Não acho que isso seja uma boa opção. Dispersa as pessoas, que, inevitavelmente, ficam mais interessadas no jogo do que na festa.”
Para saber mais
Em Belo Horizonte (MG), todos os tipos de serviço para casamento ofereceram promoções àqueles que preferiram casar na época da competição. Naquela cidade, encontram-se descontos que vão de 5% a 60% nos mais variados serviços, como o aluguel do salão e a cobertura fotográfica do evento. Apesar de ser no mês do dia dos namorados, até as floriculturas terão prejuízo entre junho e julho. Eles calculam uma baixa de um terço nas vendas. As promoções ajudam mineiros que querem economizar na celebração. No último ano, o setor sofreu com a inflação: foi registrada uma alta média de 16,11% nos produtos ligados ao ramo.
“Apesar de ser um dos três meses mais lucrativos, devido ao início da seca, caiu quase na totalidade o número de festas matrimoniais de grande porte”
Cesar Serra, organizador de festas
“Em Brasília, quase todo mundo tem parente de fora, que precisa pegar um avião para vir prestigiar os noivos. E todos sabem que as passagens e as hospedagens nos hotéis estarão mais caras
Cristina Gomes, cerimonialista.
Por: Matheus Teixeira - Correio Braziliense - 16/05/2014

