Às vésperas da passagem dos 50 anos do golpe militar de 1964, Brasília está sendo alvo de um outro golpe contra a sua integridade: o chamado PPCub (Plano de Preservação do Conjunto Urbanístico de Brasília). O que você espera de um projeto com esse título? Que se ocupe do que designa e anuncia. Mas é precisamente o contrário; quando retiramos a embalagem, percebemos que é um presente de grego, um plano Cavalo de Troia, um plano de destruição, desvirtuação, desfiguração e desfundação de Brasília.
Reparem nas coincidências: o regime militar se autointitulava com o prestigioso nome de “revolução”. Seria mais preciso se o projeto se chamasse Plano de Predação do Conjunto Urbanístico de Brasília. A estratégia é embalar tudo com palavras bonitas e contrabandear um cipoal de mais de 300 planilhas com as proposições mais atentatórias à qualidade de vida da capital modernista.
Em face da pressão do Ministério Público e dos grupos de arquitetos e urbanistas, os autores do Plano de Predação de Brasília recuaram, prometeram, mas não honraram a palavra e mantiveram duas propostas esdrúxulas: a criação da Quadra 500 do Sudoeste em área de proteção ambiental e a construção de uma garagem subterrânea na Esplanada dos Ministérios.
Não é preciso ser um urbanista para perceber o óbvio: o Sudoeste já padece de inúmeros problemas de circulação e não suporta mais um aumento de moradores; da mesma maneira, não é necessário ser um engenheiro de tráfego para saber que fazer garagem embaixo da terra não vai resolver absolutamente nada. A solução está em algo empurrado eternamente com a barriga pelos governantes: a melhoria do transporte urbano.
Enquanto isso, lemos no Correio que os seguros dos carros subiram 46% por causa da insegurança nas ruas; estudantes da rede pública de ensino promoveram um rolezinho em um shopping de Taguatinga porque foram dispensados da aula por falta de professores; a substituição da frota de ônibus não resolveu o problema do transporte dos trabalhadores porque o número de veículos não aumentou, trocaram seis por meia-dúzia.
Seria desejável que os mentores do PPCub se movessem com o mesmo açodamento para resolver problemas de interesse público dos brasilienses, em caráter de urgência urgentíssima, a saber: a melhoria do transporte público, da insegurança alarmante, do investimento em ciclovias, da qualidade da educação e do atendimento em hospitais. Se isso ocorresse, com certeza, Brasília seria um lugar muito melhor para viver.
E, por falar em omissão, onde está o governo federal que assiste à maior ameaça à integridade da única capital moderna tombada como patrimônio cultural da humanidade pela Unesco com um silêncio ensurdecedor. Será que a cidade modernista criada para levar o desenvolvimento aos vários brasis e afirmar o Brasil no mundo é mero cenário para um faroeste caboclo? E o Iphan, criado por Rodrigo de Melo Franco, a partir de projeto de Mario de Andrade, onde estás que não respondes, em que gabinete, em que nicho burocrático, te escondes? Tenho a certeza de que os brasilienses não aceitarão, passivamente, a este golpe ao presente e ao futuro de Brasília. Parodiando Lucio Costa, um dos criadores da cidade: Brasília não tem vocação para ser medíocre.
Por: Severino Francisco - Cronica da Cidade - Correio Braziliense
Reparem nas coincidências: o regime militar se autointitulava com o prestigioso nome de “revolução”. Seria mais preciso se o projeto se chamasse Plano de Predação do Conjunto Urbanístico de Brasília. A estratégia é embalar tudo com palavras bonitas e contrabandear um cipoal de mais de 300 planilhas com as proposições mais atentatórias à qualidade de vida da capital modernista.
Em face da pressão do Ministério Público e dos grupos de arquitetos e urbanistas, os autores do Plano de Predação de Brasília recuaram, prometeram, mas não honraram a palavra e mantiveram duas propostas esdrúxulas: a criação da Quadra 500 do Sudoeste em área de proteção ambiental e a construção de uma garagem subterrânea na Esplanada dos Ministérios.
Não é preciso ser um urbanista para perceber o óbvio: o Sudoeste já padece de inúmeros problemas de circulação e não suporta mais um aumento de moradores; da mesma maneira, não é necessário ser um engenheiro de tráfego para saber que fazer garagem embaixo da terra não vai resolver absolutamente nada. A solução está em algo empurrado eternamente com a barriga pelos governantes: a melhoria do transporte urbano.
Enquanto isso, lemos no Correio que os seguros dos carros subiram 46% por causa da insegurança nas ruas; estudantes da rede pública de ensino promoveram um rolezinho em um shopping de Taguatinga porque foram dispensados da aula por falta de professores; a substituição da frota de ônibus não resolveu o problema do transporte dos trabalhadores porque o número de veículos não aumentou, trocaram seis por meia-dúzia.
Seria desejável que os mentores do PPCub se movessem com o mesmo açodamento para resolver problemas de interesse público dos brasilienses, em caráter de urgência urgentíssima, a saber: a melhoria do transporte público, da insegurança alarmante, do investimento em ciclovias, da qualidade da educação e do atendimento em hospitais. Se isso ocorresse, com certeza, Brasília seria um lugar muito melhor para viver.
E, por falar em omissão, onde está o governo federal que assiste à maior ameaça à integridade da única capital moderna tombada como patrimônio cultural da humanidade pela Unesco com um silêncio ensurdecedor. Será que a cidade modernista criada para levar o desenvolvimento aos vários brasis e afirmar o Brasil no mundo é mero cenário para um faroeste caboclo? E o Iphan, criado por Rodrigo de Melo Franco, a partir de projeto de Mario de Andrade, onde estás que não respondes, em que gabinete, em que nicho burocrático, te escondes? Tenho a certeza de que os brasilienses não aceitarão, passivamente, a este golpe ao presente e ao futuro de Brasília. Parodiando Lucio Costa, um dos criadores da cidade: Brasília não tem vocação para ser medíocre.
Por: Severino Francisco - Cronica da Cidade - Correio Braziliense

