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Ceilândia-DF: A força de quem acreditou

Empresários investiram e tornaram a região independente do Plano Piloto. Aqueles que apostaram num futuro promissor hoje colhem o sucesso e não pensam em deixar o lugar. Geram empregos, renda e sonhos.
Dos barracos de madeirite aos arranha céus; da primeira década sem água encanada e eletricidade precária às vias largas e asfaltadas. As dificuldades por que passaram os moradores de Ceilândia nos anos 1970 e a solidariedade que tinham um com outro foram alguns dos motivos que levaram as pessoas a constituírem uma forte identidade com o lugar. E foi a força dessa gente orgulhosa da cidade, ceilandense de nascimento ou coração, que ajudou a região a deixar de ser apenas abrigo àqueles que servem os ricos do centro e passasse a ter uma economia pujante, independente da área central.

Vocacionada para os negócios, a Ceilândia, que um dia bebeu água da bica, hoje tem três setores industriais, é responsável por um quarto do dinheiro que circula no DF e abriga 70% das empresas atacadistas do distrito. O solo é tão fértil para os empreendedores que a região tem atraído investidores para além do quadradinho. “As redes de fast-food, por exemplo, desembarcaram aqui, em peso, recentemente”, diz o presidente da Associação Comecial de Ceilândia, Clemilton Saraiva. Ele acredita que os anos 2000 foram fundamentais para dar uma guinada na economia da cidade. “Até os anos 1990, a nossa força vinha do setor de construções. Hoje, temos uma indústria diversificada, que se especializou e presta serviço para o país todo”, exalta.

A empresária Carla Gomes é um exemplo da Ceilândia que se especializou e deu certo. Ela mudou-se para a cidade quando criança, em 1979, com os pais, e lembra da infância sofrida, mas muito alegre. “Passava o dia brincando. Tinham muitas crianças na rua”, recorda. Na época, nem ela apostava todas as fichas no sucesso de onde morava. Aquela vila de anos passados era muito diferente do que se vê hoje, afirma. “Eu falava para minha mãe que tinha dúvidas se a região daria certo. Ela sempre respondia: ‘Você vai ver no que isso vai virar, filha. Vai ter de tudo’. A previsão estava correta. Não precisamos mais nos deslocar para encontrar o que queremos”, diz. 

Um dos símbolos da Ceilândia moderna, dona do maior colégio eleitoral da região, a empresária é proprietária de uma das principais clínicas de estética do DF. Em 2007, foi afastada de uma multinacional por problema de saúde e resolveu ter o próprio negócio. Abriu a clínica numa suíte desocupada de sua casa. Pegou equipamentos emprestados, fez três faixas e espalhou vários fôlderes no bairro. Em menos de dois meses, o grande movimento a levou a se mudar para uma kitnet de 25m². “Era tudo improvisado, nem o sofá da recepção era meu.” Um ano depois, fez vários cursos de especialização em empreendimento e foi para um local com o dobro de tamanho. A partir daí, a clientela triplicou, mas surgiu mais um obstáculo em sua vida: um câncer diagnosticado. “A doença não me abalou. Continuei trabalhando e isso ajudou a me livrar dessa peste”, acredita. 

Preconceito

Depois de curada, alugou um estabelecimento de 150m². Hoje, a clínica tem 15 equipamentos que chegam a R$ 29 mil cada e é uma das mais bem conceituadas do DF. Ela ampliou o espaço, que, atualmente, além de fazer cirurgias como botox, também presta serviços de salão de beleza. O sucesso do empreendimento rendeu o primeiro lugar na etapa distrital e o segundo na nacional no prêmio Mulher de Negócio, oferecido pelo Sebrae, em 2011. Apesar dos troféus, ela conta que ainda sofre com a resistência das pessoas em relação à Ceilândia. “Tem gente que pergunta para que eu tenho uma clínica de beleza aqui. Acham que só existe no Plano Piloto”, conta. Carla mora no mesmo local desde 1979 e planeja abrir uma filial do negócio. “Vou abrir outra clínica, mas não saio daqui. Ela também vai ficar em Ceilândia. Não pretendo parar de investir na cidade, cresci com ela e vou continuar crescendo”, espera.

Aqueles que acreditaram no sucesso daquele lugar cheio de barracos logo que chegaram à região hoje são figuras reconhecidas na comunidade. O cearense Francisco Nogueira, proprietário da Beth e Lili Confecções, é um deles. Em 1975, insatisfeito com a primeira empreitada que enfrentara na vida, uma mudança para São Paulo, cinco anos antes, ele, a convite de parentes, decidiu correr atrás do sonho na capital do país. 


Largou a vida de mestre de obras e se tornou feirante. Trabalhou em várias feiras do DF, incluindo a de Ceilândia. “Vendíamos com o pé atolado na lama. Não existia a estrutura que tem hoje”, recorda. Em 1991, abriu a Beth e Lili Confecçoes. O sucesso foi imediato. “No primeiro dia, a loja já estava cheia. Foi uma alegria”, regozija-se. Quem toma conta das três filiais, em Planaltina, Gama e Águas Lindas, são os filhos, todos ceilandenses. O caçula Francisco Nogueira Júnior, 26 anos, é responsável pela de Planaltina. Ele está seguindo os rumos do pai e o tem como inspiração. “Não pretendo deixar de gerenciar o negócio da família”, afirma.

Nos primeiros anos morando em barraco, Francisco não deixou se influenciar por aqueles que desacreditavam no futuro daquele lugar cheio de barracos e, sempre que juntava um dinheiro, investia em local próximo à sua casa. Hoje, é dono de 14 terrenos no centro de Ceilândia e sua loja é uma das maiores do centro. Apesar do sucesso e da boa renda que conquistou, não há dinheiro que o tire de lá. “Somente Deus me tira daqui. Sou ceilandense de coração”, orgulha-se. 

Novas demandas

Para Clemilton, Ceilândia é como se fosse aquele primo pobre, que morava longe, mas que cresceu, ganhou o próprio dinheiro e, agora, são os parentes mais abastados que vão até lá. É um exemplo do Brasil que deu certo, das classes C, D e E que emergiram e hoje consomem mais que os ricos no mercado. “As pessoas passaram a ter mais renda, e o comércio se desenvolveu para suprir demandas que não existiam antes”, acredita. Um setor que exigiu mais qualidade e que cresce a cada ano é o do conhecimento: “Além de termos a maior rede pública de ensino, com 89 mil estudantes, e um câmpus da UnB, temos três instituições de ensino superior privada e vários pré-vestibulares abrindo as portas nos últimos anos”, relata. 


No processo de desenvolvimento da região, um comércio foi puxando o outro, um empreendedor foi ajudando ao próximo, assim como aconteceu na década de 1970, quando o vizinho construía seu barraco e, logo em seguida, auxiliava o vizinho na construção do dele. Em 1991, Erivelto Bezerra abriu uma academia em uma rua até então pouco movimentada. O espaço era num lote e tinha um andar. Ele foi expandindo, e hoje o estabelecimento tem quatro andares e ocupa três lotes.

A academia tem mais de 2 mil alunos e equipamentos de dar inveja a qualquer concorrente do Plano Piloto. “Não perco em qualidade para ninguém. Temos aparelhos de última geração, que chegam a custar até R$ 36 mil”, diz. O grande movimento abriu espaço para outros estabelecimentos nos arredores. Lanchonetes e lojas de suplemento alimentar abastecem os alunos de Erivelto e ainda lucram com isso. 

No fim do ano passado, Ceilândia foi escolhida para receber o mais novo shopping do DF. Inaugurado em dezembro, foram investidos R$ 560 milhões, e a previsão é de que empregue até 3.600 pessoas. “É mais uma prova do sucesso da cidade que atrai investidores de todos os cantos”, exalta o presidente da Associação Comercial. E a tendência, segundo Clemilton, é de que a cidade continue crescendo. Não em extensão, mas para cima. “Nos últimos seis anos, 14 mil apartamentos foram construídos, o que representa um incremento de 70 mil novos moradores”, conta. E os apartamentos estão valorizados. Um imóvel de 88 m² custa, em média, R$ 350 mil.


POR: MATHEUS TEIXEIRA - CORREIO BRAZILIENSE - 27/03

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