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Crônica: Na sauna com Lulinha

Na sauna com Lulinha

Estava lendo sobre a vida de luxo que o Lulinha vive na Espanha. Condomínio com piscina, spa e sauna. Na hora, me lembrei de que faz muito tempo que não relaxo numa sauna bem quente -e dou um mergulho na água gelada depois. Diliça. Mas sauna hétero, hein! Sauna hétero! Me deu vontade. Aí me toquei: para um escritor, nada é impossível. Basta imaginar, ué! E foi assim que, num piscar de olhos, me vi abrindo a porta da sauna do condomínio onde o Lulinha mora em Madri. “¡Hola! ¿Qué tal?”, cheguei chegando e esbanjando a pontuação invertida.

Para minha surpresa, quem é que encontro na sauna? Ele, claro! O Lulinha. Me apresento. Digo que sou brasileiro. Ele não responde nada. Esclareço que sou jornalista. Tenho diploma! Tenho diploma! Lulinha ri e me pergunta como consegui entrar na condomínio de luxo. Digo que bastou imaginar e fica por isso mesmo. Casmurro, ele se levanta para ir embora, mas peço que não, fica, vamos conversar, você parece ser um cara legal e, além do mais, me fascina a figura do Filho de Político. “Todo tratador de elefantes é um cara legal”, diz ele. Me recosto. Sauna boa. E assim, como quem não quer nada, comento: “Não deve ser fácil ser filho do Lula…” Ele faz que sim com a cabeça.

Ahã! Uau! Nossa! Ficamos ali, suando e conversando. Eu lhe falo do Museu do Prado. Ele quer saber se sou fascista. Pergunto por que Madri e não Barcelona ou Ibiza. “Combina mais com você”. Ele dá de ombros. Conto que era o autor do Diário da Janja, mas que desisti porque os xingamentos me incomodam. Ele ri e me incentiva a continuar com a série. Até que Lulinha não aguenta: “Que tipo de jornalista é você? Sujeito estranho. Não vai me perguntar do escândalo, não?!” Sinceramente, estava mais interessado na sauna. Além disso, sou cronista. Mas ele parece querer desabafar e desabafa.

A tudo escuto com ouvidos de confessor. Os milhõe$, os nomes, os interesses mesquinhos. A ausência de ideologia. Aqui e ali, comento com ahãs, uaus e nossas. É tudo muito revoltante, sem dúvida. Mas não deixa de ser também tragédia. Cercado pelo que há de pior, Lulinha nunca teve chance – e no entanto teve. Até que paira entre nós o silêncio e não resisto. “Cara, eu só queria saber uma coisa. Para que tudo isso?”, pergunto. Ele me olha surpreso. Como se nunca ninguém tivesse lhe feito essa pergunta. Ou melhor, como se ele próprio jamais tivesse parado para se perguntar para quê.


Paulo Polzonoff Jr. - (Foto: Grok) - Gazeta do Povo
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