A eleição presidencial de 2026 transcende os antagônicos grupos políticos liderados por PT e PL. A esquerda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a direita do senador Flávio Bolsonaro confrontam posturas sobre política externa, economia, segurança, papel do Estado e relação entre os Poderes.
A reeleição de Lula significa a continuidade de uma governança baseada em gasto público, oferta de programas sociais, política industrial e integração entre países emergentes. O governo também não dá mostras que fará qualquer correção no arcabouço fiscal, que respaldou a própria indisciplina.
Já eventual governo Flávio acena para a retomada da agenda das reformas liberalizantes iniciadas entre 2019 e 2022. Entre as prioridades discutidas por sua equipe aparecem privatizações, redução do tamanho do Estado, simplificação tributária, disciplina fiscal e abertura a investidores privados.
Enquanto o PT insiste que investimentos públicos e políticas sociais são os meios para estimular o crescimento econômico e reduzir desigualdades, o PL associa essa expansão do gasto à percepção de crescente risco fiscal e à escalada de juros, dificultando negócios e endividando famílias e empresas.
Presidente (re)eleito pode definir se país será governável nos próximos anos: O futuro do país depende do diagnóstico correto da realidade. Lula destaca a redução do desemprego sem considerar os aumentos da dependência da transferência de renda e da população de rua. Já a oposição alerta para o ritmo de expansão da dívida pública e a elevadíssima rigidez orçamentária.
Para enfrentar o quadro desafiador a partir de 2027, Flávio defende a abertura econômica, a revisão do papel das estatais e mudanças na reforma tributária e na execução orçamentária. O PT, contudo, engrossa o discurso de gasto público para construir infraestrutura e atingir alvos estratégicos.
O confronto de visões remete à governabilidade nos próximos anos. Um Lula 4 exigirá ainda mais negociação com o Congresso, de perfil até mais direitista que hoje. Já Flávio na Presidência teria de aprovar reformas estruturais a partir de uma maioria parlamentar num Legislativo autônomo.
A diferença de enfoque é mais acentuada na segurança pública. A direita defende endurecimento penal, fortalecimento das forças policiais e maior combate ao crime organizado. O PT se escora em planos de integração entre entes federativos e alegada priorização de prevenção e políticas públicas.
O lugar do Brasil no mundo ficará explicitado após a eleição presidencial: Na política externa, o contraste entre Lula e Flávio é ainda mais inquietante. O petista prioriza fortalecimento do multilateralismo e diversificação das relações comerciais respaldados pela diplomacia chinesa. Seu discurso se apoia na redução de dependências e numa defesa da soberania brasileira.
Já o principal candidato da direita defende cooperação com as democracias ocidentais, começando pelos Estados Unidos, buscando parcerias nas áreas de segurança, comércio e tecnologia. Flávio propõe até um tratado de livre comércio entre os países, cujas econômicas considera complementares.
Parece claro que uma vitória de Lula preservaria a orientação diplomática e exigiria administrar graves diferenças com Washington nos últimos anos da Administração Donald Trump. Com Flávio, as prioridades internacionais seriam outras, consolidando a atual onda conservadora na América Latina.
Os eleitores brasileiros estão diante de dois modelos distintos para escolher em 25 de outubro, caso haja segundo turno das eleições. A depender da decisão da maioria, o país pode aprofundar em equívocos já abandonados por muitas nações emergentes ou iniciar a trilha de decisivas retificações.


