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Gerson Sabino, O Camisa 12

Em 1986, Ana Maria e eu fomos a Belo Horizonte com um privilégio: ter por cicerone Gerson, irmão do nosso amigo Fernando Sabino. Logo nos convencemos de que o bom humor, a simpatia e o talento para contar histórias eram qualidades genéticas, comuns aos dois.

De volta a Fortaleza, escrevi um artigo sobre o nosso encontro, que reproduzo a seguir em homenagem ao ser humano que, falecido em 1998, aos 82 anos, via no futebol muito mais do que um jogo. Amava-o como arte, em que atletas se apresentam com a leveza de bailarinos, sobretudo se da Seleção Brasileira, sempre com um jogador a mais: Gerson Sabino, torcedor tão apaixonado que parecia titular da camisa 12, pronto para bater o último pênalti, vencer a final da Copa e sair de campo com mais uma estrela bordada no peito...

A foto ao lado mostra Gerson (de quem a ganhei como lembrança) e Tostão com a taça Jules Rimet (a legítima!), depois furtada e derretida, em 1983... No canto superior esquerdo, o autógrafo do centroavante tricampeão, que colhi quando veio a Brasília, em 1997, lançar seu livro Lembranças, opiniões e reflexões sobre futebol. 
 
Imagine alguém com o bom humor e o talento de Fernando Sabino que não seja escritor, mas saiba tudo sobre a Seleção Brasileira e tenha ido a todas as copas do mundo. Pois existe: é Gerson, também registrado Sabino, pois que são irmãos. Estou pra ver outro tão conhecido e querido em Belo Horizonte: candidato a vereador, não tenho dúvida de que seria eleito com votação consagradora. De uma jovialidade espantosa, que se diz ser mal de família, aparenta dez anos menos do que os setenta que já comemorou. E ainda bate a sua pelada todo fim de semana – “no gol, mas jogo”. Aos domingos apresenta, pela Rádio América, Gerson Sabino e o futebol internacional, em que testa o conhecimento dos ouvintes e chama o amigo Pelé em qualquer lugar do mundo para uma conversa ao vivo.

Profissionalmente é corretor de imóveis, dos mais antigos e conceituados na capital mineira – “é bom dizer isso, pro pessoal não achar que sou um vagabundo que só pensa em futebol”. Alguns dos seus macetes o mano cronista já contou nos jornais. Como aquele, infalível, de que lança mão sempre que deseja descobrir o misterioso proprietário de algum bom terreno. É só fincar a placa que já tem pronta no porta-malas do carro: VENDE-SE ESTE IMÓVEL. TRATAR COM GERSON SABINO. E aguardar o telefonema do dono, cioso da sua terrinha. Conversa vai, conversa vem, o negócio acaba sendo feito. Foi assim que comprou alguns dos melhores pedaços de Belo Horizonte...

Passou o dia inteiro a nos mostrar a cidade. Percebi que, de vez em quando, parava em frente a um edifício na Avenida Afonso Pena, 867. Olhava para o alto e seguia adiante. Explicou: combinara com a secretária que, se alguém ligasse para a corretora, ela poria uma toalha na janela...

Pergunte-se a Gerson Sabino quem foi o artilheiro da Copa de 1938, na França, e a resposta virá no ato: Leônidas, do Brasil. Não deu pra esquecer simplesmente porque ele estava lá, no meio da torcida pra sentir melhor as reações do povo. Mas não como um torcedor comum: findo o campeonato, passa mais uns dois ou três dias no país pra comprar tudo que se publique sobre os brasileiros. Entre uma copa e outra, contenta-se com os dez periódicos sobre futebol, a maioria europeus, que recebe como assinante. À custa disso é que exibe, orgulhoso, um álbum com artigos e reportagens sobre a Seleção que não venderia por dinheiro nenhum. Paixão assim o faz, há muito, merecedor de uma homenagem da CBF: bem que poderia receber o diploma de “Torcedor n° 1”, por exemplo, ou de “Titular da camisa 12” – aquela, com que uniformizamos a alma de quatro em quatro anos para lutar pelo Brasil...

As lembranças de Gerson Sabino dariam um livro. São histórias – engraçadas umas, comoventes outras – vividas nos bastidores do futebol por esses homens que a cada partida representam a pátria em chuteiras, no belo achado de Nelson Rodrigues. Enquanto visitávamos o Mineirão, a Toca da Raposa (é torcedor do Cruzeiro, apaixonado) e o Minas Tênis Clube, ouvi algumas, tão boas quanto estas:
 
Recebido em audiência particular por João XXIII, Pelé ficou tão nervoso que mal conseguia falar. E o Papa, pondo-lhe a mão no ombro:

Não fique assim não, Pelé. Eu sou seu fã, e você não imagina como estou emocionado por conhecê-lo...
 
Garrincha não tinha nada de bobo, como todo mundo pensa. Quem gosta de mulher pode lá ser bobo, sô?! Esses garrinchinhas que apareceram por aí, na Suécia, na Inglaterra, são todos filhos dele. O homem era fogo, não perdia uma. Aliás, quando largou a mulher pra viver com a Elza Soares, Garrincha deu o maior prejuízo à Alpargatas, que estava com um anúncio pronto para veicular na imprensa, a família juntinha, unida e feliz, todo mundo calçando o modelo que seria lançado...
 
Num programa esportivo da televisão inglesa, com a presença de Pelé, Bobby Charlton e outros cobras do futebol mundial, perguntou-se a Puskas, o famoso atacante húngaro, quais, na opinião dele, os maiores jogadores de todos os tempos:

Bom, em primeiro lugar, Di Stefano.
Os olhares se voltaram discretamente para Pelé, que acompanhava atento a entrevista.
E depois?
Em segundo lugar, um jogador aqui presente: Bobby Charlton.

Aí o mal-estar foi grande. O jornalista não se conteve:
— E Pelé, Puskas?
— Eu estou falando de jogadores de futebol. Pelé é um gênio, está acima de todos eles.
 
Em 1958, a então CBD houve por bem contratar o psicólogo João Carvalhaes para aplicar testes psicotécnicos nos jogadores da Seleção. Quando souberam da novidade, Nilton Santos e Didi foram a ele:

— Olhe, doutor, há um jogador aqui chamado Garrincha. Grave bem o nome dele: se for reprovado nos testes, pelo amor de Deus não corte o homem, que ele joga pra burro!
 
Uma das funções do Dr. Carvalhaes era fazer a cabeça dos jogadores para que abandonassem os rituais supersticiosos que dominavam as concentrações do Brasil: antes de cada partida era vela acesa e figa pendurada que não havia quem contasse. A Seleção se preparava para entrar no ônibus, antes do primeiro jogo, quando chega o psicólogo correndo:

— Peraí, pessoal! Deixa eu entrar primeiro, que esse negócio de ficar por último dá um azar danado!
 
Em 1956, jogando na Itália, a Seleção Brasileira foi recebida pelo Papa Pio XII. Ao fim do encontro, a delegação já se preparando pra sair, o locutor Jorge Curi achou de homenagear Sua Santidade à brasileira, e puxou o coro:

O Papa é tudo ou nada?
Tudo!
Então como é que é?
É big, é big, é big, é hora, é hora, é hora! Rá, tchi, bum! Pa-pa, Pa-pa, Pa-pa!

O Sumo Pontífice, discretamente, apenas inclinava a cabeça, em sinal de agradecimento...
 
Nas preleções que fazia aos jogadores, durante a Copa do Chile, a conversa do treinador Aymoré Moreira era sempre a mesma:

Didi, numa situação de emergência, passa a bola pro Garrincha. Você, Vavá, se não souber o que fazer, toca logo pro Garrincha. O Zagallo já sabe, é receber e mandar pro Garrincha.

E Garrincha, lá do seu canto:
E eu, seu Aymoré, o que é que eu faço?
Ah, Garrincha, você faz o que você quiser, que vai dar certo...
 
Finda a Copa de 1970, os brasileiros já no avião de volta pro Brasil, chega ao aeroporto um radialista argentino me pedindo pelo amor de Deus que conseguisse uma declaração do Pelé.

Mas é impossível, o pessoal já embarcou todo!
Não daria então pro senhor falar como se fosse ele? Se eu voltar sem essa gravação, estou roubado!
De onde você é?
Trelew, província de Chubut.

Como não sabia nem onde ficava isso, mandei lenha: impostei a voz e Pelé saudou emocionado o grande povo argentino. Até hoje guardo essa fita: quem a ouve diz que a imitação está perfeita. Inclusive Pelé, que deu boas gargalhadas com a história...
 
Durante a Copa de 1966, na Inglaterra, alguns jogadores aproveitaram a folga e foram às compras na Harrods, uma das maiores lojas de departamento do mundo. Estavam lá de boca aberta quando comentei com Garrincha:

Bacana, não?
Puxa, Seu Gerson, parece a Mesbla!
 
México, 1970. Numa das mesas-redondas promovidas pela televisão asteca, perguntaram a Mr. Simpson, da BBC de Londres, qual o mais belo gol daquela copa.

Sem dúvida o de Pelé, contra a Tchecoslováquia. Ele chutou direto do meio do campo, a bola descreveu uma parábola, foi cobrindo o goleiro e finalmente entrou.
Perdão, Mr. Simpson, essa bola não entrou.

E o inglês, impassível:
Mas, para mim, entrou...


Edmílson Caminha


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