As chuvas estão
abaixo da média. E daí?
*Por » Jorge Werneck
A Adasa vem
monitorando as chuvas em todo o Distrito Federal, e os dados demonstram que os
valores observados nos primeiros três meses do período chuvoso, que
historicamente se inicia em setembro, estão muito abaixo da média. De setembro
a novembro, algumas áreas do DF registraram volume de chuva 60% abaixo da média
histórica. Nas bacias que vertem para os principais reservatórios utilizados
para o abastecimento de água da população (reservatórios do Descoberto, Santa
Maria e Paranoá), o total é de aproximadamente 50% da média. Mas o que
significam esses dados?
O atraso no início
do período chuvoso faz com que o nível do lençol freático (água armazenada no
solo) siga rebaixando por mais tempo do que o normal e, se não houver
recuperação das perdas nos meses subsequentes, com chuvas acima da média, isso
pode gerar redução de vazões no período seco do ano seguinte. Mas é importante
ressaltar que a recuperação da água armazenada no subsolo não depende apenas da
quantidade da chuva, mas também da forma como chove. Chuvas mais intensas geram
escoamento sobre o solo, resultando em menor infiltração da água em relação ao
total precipitado.
Mesmo com o atraso
no início da chuva, a situação dos reservatórios ainda não remete à preocupação
maior em relação ao risco de desabastecimento nas regiões que recebem as águas.
Isso é resultado do aumento da resiliência e da segurança hídrica no Distrito
Federal em razão de melhorias na gestão dos recursos hídricos e na
infraestrutura do setor, no campo e na cidade, importantes legados do período
de crise hídrica vivido na região entre 2016 e 2018.
Por seu lado,
dependendo de como vierem as chuvas nos próximos meses, regiões que não estão
conectadas aos reservatórios e ainda dependem de captações diretas em córregos
e rios, geram preocupações. Algumas delas, como as de Sobradinho e Planaltina,
ainda passaram por cortes no abastecimento urbano e rural em 2019, após o
período da crise hídrica, e a inquietação continua para o período seco de 2020.
Medidas vêm sendo tomadas para minimizar os riscos.
A Caesb, por
exemplo, vem ampliando a transferência de água do sistema Paranoá para a região
de Sobradinho e Planaltina, mas as vazões incrementais previstas para os
próximos três anos ainda são insuficientes para eliminar os riscos por
completo. No meio rural, Adasa, Caesb, Seagri, Emater, comitês de bacia e
produtores estão atuando em conjunto para finalizar a reforma do Canal Santos
Dumont, outra obra que trará importante contribuição para o aumento da oferta
hídrica na bacia do ribeirão Pipiripau.
Além dos
investimentos em infraestrutura, a Adasa e a Agência Nacional de Águas (ANA)
negociam, há anos, regras que ditam como a água deve ser distribuída, caso não
seja suficiente para atender a todos da região. Dessa forma, a Caesb está
ciente de que, se as vazões no ribeirão Pipiripau não forem suficientes para
abastecer a todos os usuários, assim como os demais, terá que reduzir as
captações de água. Esse é um sinal claro da necessidade de a Caesb acelerar as
obras de interligação dos sistemas de abastecimento ou buscar, em tempo, outra
solução que aumente a oferta de água na região.
Outras áreas, como
as bacias dos rios Jardim e Extrema, na parte leste do DF, onde é intenso o uso
da água para irrigação, também têm convivido com o processo de alocação negociada
da água em períodos secos. As vazões verificadas têm sido menores que a média
nos últimos anos e, como também não existem reservatórios de regularização na
região, permanecem como alvo de preocupação para o próximo ano.
Nesse contexto,
cerca de 15% da população vive em áreas que podem sofrer restrições de acesso à
água em determinados momentos da próxima estação de seca, em 2020. É importante
ressaltar que grande parte dessas áreas já vêm convivendo com essas
dificuldades em razão da redução das chuvas e vazões nos últimos anos, mas que
podem ser agravadas por causa do atraso no início do período chuvoso em curso,
a depender das chuvas dos próximos meses.
É fundamental,
portanto, que a população fique bem informada sobre as ações que estão sendo tomadas
para minimizar tais riscos, como a melhoria no monitoramento e na gestão dos
recursos hídricos, na implementação e aprimoramento de obras hídricas e na
comunicação e integração com a sociedade. A boa gestão da água é um desafio de
todos.
(*) Jorge Werneck, Doutor em hidrologia, é diretor da Adasa -
Fotos/Ilustração: Blog - Google


