O que é belo
*Por Severino Francisco
Agora,
parece que virou moda depreciar a cultura como se fosse algo supostamente
inteligente. Isso só pode prosperar porque o Brasil ocupou os seis primeiros
lugares, consecutivamente, no ranking da ignorância na pesquisa Perigos da
percepção (Perils of perception), do instituto britânico Ipsos. E, não por
acaso, figura também nos últimos lugares no ranking da educação.
Desprezar a cultura não é algo bonito, é sinal de obscurantismo. A
intenção da Secretaria de Cultura e de Economia Criativa de retirar verba do
Fundo de Apoio à Cultura para reformar o Teatro Nacional não é apenas
irregular, mas também atrasada. É a cultura que dignifica uma capital do país.
Isso não é belo; bela é a maneira como Lucio Costa posou Brasília no
descampado, como se fosse um arquiteto do Cosmos, segundo o poeta Francisco
Alvim. Bela é a estrutura retorcida que Niemeyer inventou na Catedral
Metropolitana para fazer um templo-escultura e abrir uma janela para o
infinito.
Belas são as noites brasilianas pintadas por Wagner Hermusche, pois
parecem um solo de guitarra da Legião Urbana, desencadeando descargas
elétricas, que provocam um curto-circuito lírico na paisagem de Brasília.
Belo é ouvir Perdidos no espaço, da Legião Urbana, em um carro nas retas
intermináveis de Brasília até estacionar em uma nuvem. Belo é o show de Tereza
Lopes no projeto Feijoada com Samba no Espaço Cultural do Choro. Belo é ver
Reco do Bandolim em estado de êxtase com um show no mesmo Espaço do Choro:
“Coisa de louco, coisa de louco!”.
Belo é o verso minimalista contundente de Chico Alvim, como se fosse um
Dalton Trevisan do Lago Norte (“argumento: mas se todos fazem”), belo é o poema
de Nicolas Behr sobre o cerrado (“Nem tudo que é torto é errado/Vejam as pernas
de Garrincha/e as árvores do cerrado”.
Bela é a cadeira Athos Bulcão, criada por Danilo Vale, com signos
geométricos e vazados. Brasília é considerada pela Unesco Cidade Criativa do
design. Belo é o filme Nietzsche na Ceilândia, de Fáuston da Silva, que brilhou
em festivais internacionais. Bela é a festa no céu pintada por Galeno na
Igrejinha da 308 Sul.
Belo é ouvir o batuque do grupo de mulheres Batalá no estacionamento do
Parque da Cidade ou o Patubatê em algum evento. Bela é a bateria da Aruc
tocando no sarau de sétimo dia de Reinaldo Jardim: “Quero morrer numa batucada
de bamba”.
Bela é a cidade-tótem construída por artistas ou amantes da arte no
Planalto Central para celebrar a nobreza modernista brasileira, uma nobreza da
inteligência, da invenção, da elegância, da generosidade, da cultura e do
humanismo.
Belo é assistir a um show de Hamilton de Holanda no Clube do Choro, como
se fosse um Jimi Hendrix do bandolim. Belo é ver na internet a performance
memorável que rendeu o prêmio de Melhor guitarrista no festival de Montreux a
Pedro Martins em 2015, quando o garoto do Gama tinha 22 anos. Ele só pôde
viajar para Montreux graças a um programa de incentivo do FAC. Por favor, mais
amor à cultura de Brasília.
(*)
Severino Francisco – Colunista do Correio Braziliense – Foto/Ilustração: Blog -
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