Economia terá novo eixo com o Centrad. A
transferência de parte do serviço público da capital para o Centro
Administrativo deve impactar, principalmente, as regiões de Taguatinga,
Samambaia e Ceilândia. Treze mil, dos 130 mil funcionários, ocuparão o novo
espaço
*Por Jéssica Eufrásio
Promessa de campanha do governador Ibaneis Rocha
(MDB), a abertura do Centro Administrativo de Brasília (Centrad) deve acontecer
em breve, segundo perspectivas do Executivo. No fim de fevereiro, o consórcio
responsável pelo complexo de 182 mil metros quadrados e os bancos financiadores
do projeto propuseram ao GDF a ocupação imediata do local. A possível
inauguração é vista com otimismo por moradores da região e por representantes
do setor econômico, que será beneficiado pelo fluxo maior de pessoas em regiões
como Taguatinga, Ceilândia e Samambaia.
A expectativa, segundo especialistas, é de que a
abertura do Centrad promova uma economia mais dinâmica, com geração de empregos
e menos dependência da área central de Brasília. A concentração das atividades
em um espaço do próprio governo deve resultar, ainda, em menos gastos com
aluguel de imóveis pelo Executivo local. O fluxo de pessoas no sentido
contrário ao Plano Piloto, no entanto, demandará incremento no sistema de
transporte público, especialmente para servidores transferidos que morarem na
parte norte do DF.
De acordo com o economista Jusçanio Umbelino de
Souza, a transferência de órgãos do setor público para o Centrad favorecerá o
desenvolvimento das cidades adjacentes. “Ceilândia, Samambaia e Taguatinga
configuram um centro de atividade econômica, mas você potencializa ainda mais
esse polo empreendedor, criando uma área concorrencial para o Produto Interno
Bruto (PIB) fora do Plano Piloto”, avalia.
"A inauguração vai beneficiar todo mundo" Paulo Henrique,
subgerente de uma padaria em Taguatinga
A mudança deverá se refletir, também, em regiões
administrativas mais afastadas, como Riacho Fundo, Recanto das Emas e
Brazlândia. “Essa nova dinâmica pode propiciar a geração de novos postos de
trabalho, especialmente em serviços, tecnologia, comércio e no setor
imobiliário. Sem falar dos benefícios para a mobilidade”, completa.
Moradora do Riacho Fundo e gerente de uma loja de
cosméticos em Samambaia Sul, Carmen Gomes, 29 anos, acredita que os efeitos serão
percebidos no segmento comercial como um todo. “Esperamos melhorias e temos
meios para ampliar nosso atendimento”, opina. Ela reforça a necessidade de
atenção a outros pontos: “Precisamos de mais lazer nas cidades próximas (ao
Centrad), e o trânsito deve piorar, mas acho que há bastantes imóveis para
atender quem se mudar.”
"O trânsito deve piorar, mas há bastantes imóveis para atender quem
se mudar" - Carmem Gomes, comerciante em Samambaia
Vitalidade
Construído por meio de parceria público-privada (PPP)
para abrigar o funcionalismo público do GDF, o complexo tem capacidade para
receber 13 mil dos 130 mil servidores. Inaugurado no último dia de gestão de
Agnelo Queiroz (PT) sem móveis, telefone ou internet, o centro nunca chegou a
funcionar. Em fevereiro de 2015, devido a irregularidades, como a ausência de
estudos de impacto sobre o trânsito, a Justiça cassou o habite-se do Centrad,
concedido pela Administração Regional de Taguatinga.
Professor da área de inovação e transferência de
tecnologia da Universidade de Brasília (UnB), Luís Afonso Bermúdez acredita que
a abertura do Centro impulsionará atividades de pequenos e microempresários.
Segundo ele, o fortalecimento não será apenas no âmbito governamental, mas
também para serviços em torno do complexo. “É positivo que se dê uma utilidade
para aquele templo. Isso deve gerar uma vitalidade econômica significativa na a
região. Há uma série de serviços que poderão ser oferecidos de forma mais
otimizada”, destaca Luiz Afonso. Ele acrescenta que, para atender ao novo
fluxo, mais pessoas devem ser contratadas e a assistência prestada será mais
eficiente.
O superintendente do Serviço Brasileiro de Apoio às
Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-DF), Valdir Oliveira, concorda que o
movimento atenderá um grande anseio do setor produtivo. “Descentralizar o eixo
de desenvolvimento é o segredo. Quando você o concentra no Plano Piloto, você
limita oportunidades e estrangula a mobilidade”, analisa. “Temos um comércio
pungente em Taguatinga e, com a movimentação de pessoas, teremos novas formas
de consumo. Além disso, você coloca essa região na vitrine para Brasília e para
o Brasil. Não vejo pontos negativos nesta ida. Vejo a consolidação de um novo
estilo de desenvolvimento”, diz.
Gerente de um supermercado em Ceilândia Sul, Carlos
Palácio, 57, tem dúvidas sobre a melhora dos negócios no estabelecimento, pois
acredita que a maioria dos servidores transferidos continuará em áreas longes
do Centrad. Ainda assim, ele conta que o local onde trabalha estará preparado
para receber mais consumidores se o público aumentar. “Com certeza, sentiremos
os efeitos, se mais pessoas vierem morar aqui. Ainda precisamos ter uma noção
do montante de funcionários transferidos. Se houver necessidade, atenderemos
mais, claro. Quanto mais gente, melhor”, pondera.
Os responsáveis por uma padaria próxima à Avenida
Elmo Serejo têm planos para atrair mais clientes. A ideia envolve reformas no
estabelecimento e a oferta de refeições completas no almoço. Segundo o
subgerente da loja, Paulo Henrique Costa, a expectativa é receber 100
consumidores a mais por dia. “Por aqui, passam, diariamente, cerca de 300
pessoas. A inauguração vai beneficiar todo mundo. O comércio precisa de mais
gente e estar onde o povo está”, comenta Paulo Henrique.
Imóveis
As expectativas para os setores imobiliário e da
construção civil também são positivas. Segundo João Carlos Pimenta, presidente
do sindicato da indústria do setor no Distrito Federal (Sinduscon-DF), a maior
parte dos funcionários deslocados para o Centrad tentará morar na região. “Ali,
há muitas áreas que podem ser ocupadas por construções novas. Essa expectativa
é antiga. Surgiu desde a construção do Centro. Como a abertura não se
concretizou, isso acabou frustrando o setor”, lembra João Carlos. Ele também
presume que o mercado da construção será beneficiado, principalmente, pela
demanda por imóveis.
Para o presidente do Sindicato da Habitação
(Secovi-DF), Ovídio Maia, o mercado deve apresentar um aquecimento
significativo. No entanto, a entidade não tem estimativas sobre os efeitos de
mudança de parte do GDF para o Centrad, uma vez que não há confirmação de
quantos funcionários serão, de fato, transferidos. “O governo disse algo em
torno de 13 mil. Claro que teremos uma procura por apartamentos e casas, mas
Taguatinga, Ceilândia e Samambaia ainda têm oferta suficiente para atender a
demanda. Houve muitos lançamentos recentes, e Águas Claras também tem muita
oferta”, ressalta.
Três perguntas para Ruy Coutinho, secretário de Desenvolvimento
Econômico
Quais são as expectativas de melhoria para a
economia do DF com a abertura do Centrad?
Haverá uma valorização da região, com a atração de
empreendimentos comerciais e de atividade econômica. Isso é evidente e acredito
que terá um impacto positivo. Uma medida como essa agrada e desagrada a muitos.
Na região de Brasília, podem não se sentir muito felizes para chegar até lá,
mas a locomoção se dará no contrafluxo e isso é um fato amenizador do problema.
Os que residem nas vizinhanças do Centro Administrativo, obviamente, ficarão
muito satisfeitos por estarem mais próximos do trabalho.
Quais devem ser os principais setores beneficiados
e por quê?
Comércio e serviços serão impactos de imediato. O
motivo principal é por haver a presença de um número muito robusto de pessoas
que serão transferidas para o Centrad (13 mil dos 130 mil servidores). É um
prédio grande, que pretende centralizar a atividade burocrática do DF. Há um
público muito grande com o qual teremos de lidar. A microrregião já é
economicamente representativa e ficará mais ainda, pois Taguatinga é o
epicentro econômico daquela área.
Há algum plano da secretaria para impulsionar o
desenvolvimento econômico naquela área com a possível abertura do Centrad?
Não temos planos ainda, até porque, quando cheguei
à pasta, não havia nenhum estudo relativo a isso. Logo que a decisão começar a
ser executada, faremos um trabalho não apenas de identificação de
oportunidades, como também de monitoramento e mensuração dos resultados da
transferência do governo para lá. Vamos descobrir qual será o impacto global
para a economia do DF. O eixo administrativo está muito disperso no Plano
Piloto. Com a mudança, haverá uma concentração importante. Faremos estudos das
hipóteses de geração de empreendimentos nas áreas comercial e de serviços para
avaliar a representatividade dos setores.
(*)
Jéssica Eufrásio – Fotos: Blog – Google – Marcelo Ferreira/CB/D.A.Press - Arthur Menescal/CB/D.A.Press – Breno
Fortes/CB/D.A.Press – Minervino Júnior/CB/D.A.Press – Correio Braziliense
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