A ponte mais bela de Brasília é também a mais democrática
Crônicas urbanas, crônicas de afeto e do viver - (Conceição Freitas). A ponte mais bonita de Brasília não é a
JK, com seus arcos espetaculosos. A ponte mais bonita de Brasília é a ponte de Oscar Niemeyer, que nasceu Ponte Monumental, virou
Ponte Costa e Silva, depois Ponte Bezerra da Silva, mais tarde Ponte Honestino
Guimarães e por algumas resistentes horas Ponte Marielle Franco.
É só uma ponte, mas é também um campo de luta democrática e um exemplo
da potência criativa brasileira. Niemeyer a denominava Ponte Monumental, por
ser ela um monumento da arquitetura moderna. Ao contrário da Ponte JK, que
tantos admiram, a ponte do Oscar não quer ser mais bonita que a noiva.
Reverencia as escalas do Plano Piloto. Surge na paisagem com a leveza de um
pássaro, embora seja de concreto armado.
“[A
ponte] deve apenas pousar na superfície como uma andorinha tocando a água”,
escreveu o arquiteto, quando da feitura do projeto. O vão central, de 200
metros, é ladeado por dois outros, de 100 metros cada, compondo assim uma ave
de plumagem branca beijando doce e delicadamente as águas do Paranoá. Quando de
sua construção, foi festejada como um dos vãos mais extensos já construídos em
todo o mundo.
Pontes, como se sabe, são produtos da engenharia,
que as chama de obra de arte. A arquitetura seria
mero adorno. Niemeyer fez o que sabia genialmente fazer: a comunhão dos
cálculos estruturais com a plástica arquitetônica. Na ponte mais democrática de
Brasília, mais uma vez fez o concreto armado voar. É o seu único projeto de
ponte que foi construído.
Não foi fácil. Foi preciso negociar com Lucio Costa, que não havia projetado ponte entre o lago e o Plano
Piloto. Para ir ao Lago Sul era preciso dar a volta pelo antigo Balão do
Aeroporto. A obra ficou parada alguns anos – construiu-se, então, uma ponte
temporária, a Ponte das Garças, um fio de asfalto de 300 metros esticado no
ponto mais estreito e raso do lago.
A bela ponte democrática se chama
oficialmente Costa e Silva, segundo presidente da ditadura
militar instaurada em 1964. O que, em si mesmo, é uma ofensa à
capital do país. Foi Costa e Silva quem articulou a cassação dos direitos
políticos de Juscelino, o fundador de Brasília, cidade forjada em ideais
democráticos, projetada por um humanista e cujas obras mais importantes são de
um comunista.
Certo dia, a ponte-andorinha amanheceu com um
novo nome, Ponte Bezerra da Silva, intervenção poético-musical do grupo
Coletivo Transverso, em homenagem ao sambista pernambucano. Uma lei aprovada na
Câmara Legislativa e sancionada pelo GDF trocou o nome de Costa e Silva para
Honestino Guimarães, o estudante da UnB desaparecido nos subterrâneos da ditadura
de 1964. A Justiça revogou a lei, e o nome do ditador voltou a
designar a ponte.
Neste meio de março, por algumas horas, a ponte-passarinho se chamou Marielle Franco. A ponte mais
bela, mais delicada, mais brasiliense e mais democrática é também a mais
teimosa. Nunca desiste de andorinhar.
Por Conceição Freitas - Fotos:
Daniel Ferreira - Metrópoles







