Marta Fagundes (D) herdou do pai a responsabilidade de cuidar da estrutura do Drive-In. Para isso, ela conta a a ajuda da filha, Bruna Luiza
Um dos pontos turísticos mais charmosos de Brasília luta para
seguir em funcionamento, apesar das dificuldades para mantê-lo na agenda
cultural da cidade. O cinema ao ar livre encanta gerações há 41 anos, mas até
hoje não conseguiu ser regularizado
O cenário do Cine Drive-In de Brasília, com a tela de
concreto armado, é símbolo da própria resistência do estabelecimento.
Localizado dentro do Autódromo Internacional Nelson Piquet,
sobreviveu a diversas tentativas de fechamento. A última delas ocorreu durante
a reforma da pista para a Fórmula Indy, cancelada pelo Governo do Distrito
Federal por causa da crise financeira enfrentada pelo Executivo local. Apesar
das dificuldades, a atração turística resiste graças à luta da nutricionista
Marta Fagundes, 55 anos, responsável pelo cinema ao ar livre. É dela a história
que abre a segunda reportagem da série sobre brasilienses que, muitas vezes,
sem a ajuda do governo, mantêm abertas as portas de pontos históricos da
capital federal — a primeira tratou sobre a Faculdade de Artes Dulcina de
Moraes.
A maior
batalha de Marta Fagundes é regularizar o espaço. Embora funcione há 41 anos no
autódromo e tenha passado por alterações e se modernizado, as seguidas
administrações do GDF nunca se mostraram sensíveis à causa do Drive-In. Com a
ajuda da filha, Bruna Luiza Zeuner Fagundes Santos, 29 anos, ela se dedica ao
cinema que considera um polo de cultura cinematográfica de Brasília. O próximo
passo será a aquisição de um projetor digital, pois é cada vez mais difícil
encontrar distribuidoras de filmes em película.
Atualmente,
os ingressos não são suficientes para manter o cinema em funcionamento. Assim,
o estabelecimento recebe uma verba complementar do Ministério da Cultura. A
compra do novo equipamento, no entanto, não virá desse dinheiro. “É um
investimento muito alto para fazermos sem a segurança de um contrato com o GDF.
Mas tem de ser feito ou enfrentaríamos, mais uma vez, o risco de fechar as
portas. A nossa luta é antiga demais para desistirmos. Data do arrendamento do
autódromo, em 2005. Precisamos legalizar o nosso espaço. O governador Rodrigo
Rollemberg sabe da nossa situação”, afirma. Segundo ela, o Drive-In “cresceu
com a cidade”. Até a tela de concreto segue os padrões arquitetônicos de Oscar
Niemeyer. A programação de cinema é voltada para casais apaixonados e para a
família. “É um importante local cultural, e a população brasiliense valoriza
muito esse espaço. Por isso, lutamos tanto para que ele não acabe”, ressalta.
Amor
Marta
herdou a responsabilidade pelo charmoso cinema ao ar livre do pai, o militar
Jair Fagundes, o primeiro a cuidar da estrutura. Aos poucos, o legado chega à
terceira geração. Bruna Luiza cultivou, ao lado da mãe, o amor pelo local. “Eu
vi a minha mãe batalhar pelo cinema. Desde pequena, vi o quanto ela se dedicou
e tem amor por esse lugar. Consequentemente, vendo tudo isso, também criamos
esse amor”, explica.
Para
Bruna, assistir a um filme no Drive-In é como vivenciar a experiência do cinema
tradicional, mas com o conforto da própria casa. “É como se sentássemos na
poltrona de casa. É um grande diferencial. Quem é mãe pode levar bebê, por
exemplo. Também é inclusivo para pessoas com dificuldades de locomoção. Eu vejo
o trabalho que fazemos como uma luta por uma coisa que é nossa e de toda a
cidade. Ajudo a minha mãe a fazer o projeto dar certo, ir para a frente.
Falamos de um patrimônio histórico e cultural de Brasília”, afirma.
Em busca da preservação
O cineasta Cláudio Morais filmou o documentário Cine
Drive-In, cinema sob o céu. O trabalho foi exibido no 47º Festival de Cinema de
Brasília, no ano passado. Ele conta que a moda do drive-in voltou aos Estados
Unidos. Ainda assim, os estabelecimentos norte-americanos são inferiores ao do
DF e contam com telas de metal.
O cinema
a céu aberto também foi palco de outro filme exibido no mesmo evento, O Último
Cine Drive-In, de Iberê Carvalho. “A história desse cinema é a história da
cidade”, ressalta Cláudio. Para ele, o GDF perde oportunidades ao não
regularizar o Drive-In e colocá-lo no circuito oficial de turismo do Distrito
Federal. “Quem vai à primeira vez não quer mais deixar de ir. Tem um ar
romântico, e as imagens são gigantescas”, completa.
A
Secretaria de Esportes, responsável pelo Autódromo Nelson Piquet, informou, por
meio de nota, que “em virtude das obras, o Autódromo está temporariamente sob a
responsabilidade da Terracap e da Novacap”. Ainda de acordo com o órgão, a
Subsecretaria de Administração de Espaços Esportivos fez um diagnóstico do
local. O documento foi encaminhado à assessoria jurídica para regularização e
preservação do espaço. “A previsão de conclusão do estudo técnico jurídico e
emissão de parecer é de aproximadamente 60 dias, por parte da secretaria.
Após a
conclusão, o processo será encaminhado para a Procuradoria-Geral do Distrito
Federal para manifestação conclusiva e emissão de parecer”, conclui.
Fonte: Luiz Calcagno - Correio Brailiense
