Paes de Andrade foi cassado, mas a ditadura errou o nome dele
Por: Carlos
Chagas
Com a
morte de Paes de Andrade desaparece a última testemunha de um encontro que até
hoje divide historiadores e políticos. Três dias antes de ser eleito pelo
Congresso, em abril de 1964, o marechal Castello Branco encontrou-se com a
cúpula do PSD, maior partido nacional, apresentando-se e pedindo votos. Foi num
apartamento na rua Constante Ramos, em Copacabana. Lá estavam Juscelino
Kubitschek, Amaral Peixoto, José Maria Alckmin, Negrão de Lima, o anfitrião,
Joaquim Ramos, e Martins Rodrigues, que se fazia acompanhar do genro, deputado
Paes de Andrade.
Teria
Castello prometido que não cassaria JK, conforme versão depois tornada voz
corrente? Até os seus 88 anos o então jovem deputado cearense sempre negou.
Sentado atrás do sogro, ouviu e registrou em sua excepcional memória todos os
lances da conversa. Sua conclusão sempre foi de que o primeiro presidente
militar não tinha motivos para cassar o ex-presidente, hipótese que nem de
longe era admitida.
Juscelino
preocupava-se exclusivamente com as eleições de 1965, que Castello jurou que se
realizariam e que passaria o poder a quem fosse eleito. Por conta disso iria,
até mesmo, receber o voto de Juscelino, senador por Goiás. Como do PSD quase
todo. Ficou implícito que as regras do jogo seriam cumpridas, coisa que não
aconteceu, pois depois Castello cassou JK, prorrogou o próprio mandato e
transformou as eleições presidenciais de diretas para indiretas, tendo também
dissolvido os partidos políticos.
A
trajetória de Paes de Andrade na vida política nacional é rica em episódios que
só o engrandeceram. Formava na esquerda parlamentar e mais de uma vez esteve na
lista de cassações. No governo Costa e Silva, às vésperas de mais uma daquelas
violências, recebeu telefonema de um correligionário do extinto PSD, então
ministro da Educação, Tarso Dutra, que o informou da iminente perda do mandato
e dos direitos políticos. Indagava se queria ser cassado em Brasília, onde se
encontrava, ou no Ceará. Como resposta recebeu um solene palavrão, mas sabendo
estar relacionado, pegou a mulher, Zildinha, e as filhas pequenas, voando para
Fortaleza. Lá receberia a execrável punição.
No dia
seguinte, reunido com deputados, numa casa já cercada pela Polícia Federal, o
rádio anunciou a longa lista de cassados. Entre os primeiros ouviu-se “Antônio
Vaz de Andrade”. Era ele, mas não era ele. Os algozes erraram no primeiro
sobrenome e, assim, Paes voltou para Brasília no exercício do mandato. Os
militares teriam ficado com vergonha do erro?
FAIXA PRESIDENCIAL
Quarta-feira,
dia de sua morte, um energúmeno comentou, numa emissora paulista, que Paes de
Andrade seria lembrado por haver, no exercício da presidência da República, que
ocupou doze vezes quando das viagens de José Sarney ao exterior, reunira um
grupo de jornalistas e viajara para Mombassa, sua cidade natal.
Foi
claro o objetivo de depreciar o morto ilustre, mas deveria o infeliz locutor
conhecer a História. Raniéri Mazzilli, também presidente da Câmara, na primeira
vez em que substituiu Juscelino Kubitschek, mandou para Caconde, no interior de
São Paulo, onde nascera, nada menos do que o Rolls-Royce presidencial, no qual
desfilou pela avenida principal. E com um adendo: usando a faixa presidencial…
*****


