Deu na Folha
Uma
das características da política é sua relação com a arte do cinismo. O que vale
não são propriamente os fatos, mas as versões e as aparências. Até a semana
passada, por exemplo, o ex-presidente Lula da Silva e sua sucessora Dilma
Rousseff faziam um esforço enorme para se suportarem em público, numa tentativa
de transparecer que se dão bem e não nutrem o ódio que na verdade cada um sente
pelo outro.
As matérias que a Tribuna da Internet vinha publicando desde o início de 2012, quando
começaram os desentendimentos entre Lula e Dilma, eram menosprezadas por muitos
comentaristas, alguns se recusavam a acreditar. E a pantomima dos dois dava
resultado, muita gente ainda acreditava que eles se entendiam e até decidiam
juntos as principais questões administrativas do governo, vejam quanta
ingenuidade.
Mas o tempo passou e
todas as nossas informações sobre os desentendimentos agora se confirmam, em
função dos corrosivos ataques de Lula contra Dilma, em reportagem publicada
sábado por O Globo e já analisada aqui na TI por
nosso grande amigo Pedro do Coutto.
CONVIVÊNCIA DIFÍCIL
Como
todos sabem, Lula jamais aceitou transferir o poder. Escolheu pessoalmente os
ministros de Dilma e se metia em tudo no início do governo dela, que tinha de
aceitar a situação, por motivos óbvios. Porém, estava contrafeita, por achar
que poderia conduzir o governo sozinha.
No
final de 2011, Lula teve então de fazer tratamento contra câncer, sumiu durante
alguns meses, e a presidente aproveitou para ir se descolando dele.
Os primeiros desentendimentos
graves ocorreram em meados de 2012, na mudança dos sete ministros acusados de
corrupção. Dilma não aceitou algumas sugestões de Lula, o clima esquentou, o
relacionamento já não era o mesmo, conforme noticiava a Tribuna da Internet, com
absoluta exclusividade, e o ex-deputado mineiro Sylo Costa até comentou a
respeito, em artigo publicado no jornal O Tempo, quando estranhou que a grande
imprensa não apurasse as informações divulgadas apenas pela TI.
O CASO ROSEMARY
No
final de 2012, surgiu o escândalo de Rosemary Noronha, tida como a
segunda-primeira-dama, e Lula ficou enfraquecido, teve de se recolher e passou
a fugir da imprensa. Dilma, então, se considerou com força suficiente para
enfrentá-lo e passou a governar sozinha. Mas Lula não aceitou essa autonomia
dela e os desentendimentos aumentaram, passando a haver uma briga feia entre os
dois, embora em público ainda tentassem manter as aparências.
De lá
para cá, Dilma governou sozinha, e sua maior preocupação passou a ser a
reeleição. Lula queria ser candidato, mas ela não aceitou, aproximou-se das
principais lideranças do PT, formou um núcleo duro com Aloizio Mercadante,
Ricardo Berzoini, Miguel Rossetto, Miriam Belchior, Paulo Bernardo, Gleisi
Hoffmann, Ideli Salvatti e Antonio Palocci, e passou a minar Lula de todas as
formas possíveis.
A
nomeação de Mercadante para a Casa Civil, em janeiro de 2014, foi o grito final
de independência, pois ele é detestado por Lula.
E
quando foi se fortalecendo o movimento “Volta, Lula”, Dilma passou a jogar
sujo. Mandou o Planalto vazar para O Globo e para a Veja uma série de matérias
contra Rosemary Noronha, reavivando o escândalo. E para fazer Lula enfim
desistir da candidatura e mandar o PT aprovar a reeleição de Dilma, o Planalto
ameaçou revelar os extratos do cartão corporativo de Rosemary Noronha, com as
compras feitas no Brasil e no exterior, nas 32 viagens internacionais em que a
segunda-dama acompanhara Lula, na ausência da primeira-dama Marisa Letícia.
LULA NÃO PASSOU RECIBO
Lula
jogou a toalha, mas não passou recibo, continuou se comportando como se tudo
estivesse bem entre ele e Dilma. Para não dar na vista, chegou até a participar
da campanha dela, gravando mensagens para rádio e TV e comparecendo a um ou
outro comício.
Dilma
se elegeu com muita dificuldade, precisou de uma ajuda providencial da Justiça
Federal (leia-se: Dias Toffoli) na apuração nacional e na votação em Minas,
tudo acabou bem para o PT. Mas o prosseguimento do escândalo da Petrobras, a
crise econômica e ética, a volta da inflação, as pedaladas fiscais e o ajuste
fiscal se encarregaram de demolir o governo de Dilma, que teve de terceirizar a
articulação política e o comando da economia.
MAIOR INIMIGO DE DILMA
É hora de Lula
aproveitar. Com a entrevista ao Globo, ele mostra que agora passou a ser o
maior inimigo de Dilma. Está traindo a correligionária, da mesma maneira que
traiu Dirceu. Há dois meses, quando o ex-ministro tentou marcar um encontro com
ele, Lula se recebeu a recebê-lo. Certamente esqueceu da ajuda que Dirceu lhe
deu no escândalo de Rosemary, quando conduziu a contratação dos advogados de
Rose e se reunia pessoalmente com eles, conforme a Tribuna da Internet também publicou à época, com exclusividade.
Agora,
Lula diz que será a próxima vítima da Operação Lava Jato. Para se livrar, ele é
capaz de tudo. Portanto, podemos aguardar novos ataques a Dilma, a Dirceu e ao
próprio PT. Resta saber se Dilma vai usar as armas de que dispõe e revelar o
cartão corporativo de Rose, e se Dirceu vai ser novamente condenado como chefe
de uma quadrilha que na verdade era conduzida pessoalmente por Lula.
Fonte: Portal "Tribuna da Internet"

