Há 30 anos, a Rhodia publicou plano pioneiro de comunicação
anunciando que o comunicador não era mero distribuir de releases, mas
protagonista estratégico nas organizações empresariais. Hoje, à palavra
estratégico deve-se acrescentar também que o comunicador é aquele que lê os
horizontes políticos e, como os antigos conselheiros, orienta as organizações
privadas e públicas quanto à mudança dos tempos e das vontades. O episódio das
recentes prisões dos presidentes das construtoras Odebrecht e Andrade
Gutierrez, além de presidentes e executivos das principais empreiteiras do
país, evidencia tal realidade.
Não se
trata de julgar antecipadamente os presos na Operação Lava-Jato, mas do
complexo exercício de aprendizado das questões que surgem no cotidiano da
comunicação brasileira. No caso das prisões da Lava-Jato, fica claro que a
realidade e os modelos de negócios caminharam em direções opostas. As empreiteiras
se viram sitiadas pela sucessão de denúncias de corrupção que afloram na
esteira dos escândalos que abalam a Petrobras, mas, nem quando as prisões
começaram a se sucede ocorreram tentativas claras de informar à sociedade e
clarificar erros. Pelo contrário, uma das protagonistas do episódio adotou
estratégia de enfrentamento com as autoridades, negando qualquer envolvimento.
Primeiro em carta aos funcionários, e, depois da prisão do seu presidente, com
a divulgação de extensa carta-manifesto na mídia.
Seriam os
caminhos corretos? A leitura da realidade sugere que o confronto não constrói a
moderna narrativa da comunicação. Caminham em terreno minado aqueles que
acreditam ser possível reagir à tempestade legal da natureza a que se assiste
nos dias atuais com frases institucionais do gênero “estamos colaborando com as
autoridades”, “colocamo-nos à disposição das investigações”, traçando
estratégias que não preveem cenários à frente ou fechando-se em silêncio. Esse
tempo passou. As leis anticorrupção se tornaram, a cada dia, mais severas e, o
que é igualmente revelador, a opinião pública vem se manifestando com crescente
veemência contra a impunidade, o que fica facilmente visível não só nas
diferentes mobilizações, mas na arte. Basta ver que na novela Rebu, da Rede
Globo, os envolvidos na trama de misterioso assassinato eram empreiteiros, e na
atual Babilônia uma empreiteira pratica abertamente corrupção para conquistar
objetivos.
Se a
ficção imita a realidade, soou o momento de ouvir a voz das ruas e curvar-se
aos novos tempos. A democratização, que avança em passos acelerados, está a
exigir mudanças de largo alcance na comunicação. As organizações precisam ouvir
seus comunicadores e deles extrair a vasta experiência acumulada ao longo de
cerca de meio século. Quando a Rhodia publicou plano de comunicação alertando
para o novo papel do comunicador, em 1985, o Brasil estava internacionalizando
negócios e a abertura democrática avançava, o que culminou na nova Constituição
e nas eleições diretas em todos os níveis de poder. Nos dias atuais, assiste-se
a novo salto à frente. A sociedade, a partir da base, anseia por mudanças,
sobretudo estruturais, bandeira a exigir, como desdobramento, alterações na
forma de fazer comunicação. Não é por coincidência que, nas novelas, ricos
estão sendo presos e a lei, antes restrita aos pobres, passa a valer para todos.
Essa
metamorfose repercute, sem qualquer dúvida, na comunicação. Não se trata de
retorno ao imperativo kantiano da ética do compromisso e da responsabilidade,
mas de algo bem mais simples. Torna-se indispensável que a organização faça a
coisa certa porque é o correto e que as responsabilidades não comecem e
terminem na criação de empregos e renda. É inescapável ir além e construir
relações efetivas em que empresas de portas abertas e transparentes sejam, de
fato, aquilo que dizem ser em suas metanarrativas. A distância entre o discurso
e a realidade não deve se ampliar, mas se reduzir até que um seja o outro. Paul
Ricoeur, em Tempo e narrativa, parte do princípio de que as atitudes, ditas ou
expressas em atos, organizam nossa presença no mundo. Isso faz com que uma
organização seja uma organização principalmente pelas micronarrativas. Antes,
podia ser questão de escolha. Agora, é necessidade inescapável, a demarcar os
limites entre a adaptação ou extinção no novo ambiente político.
Por:Paulo Nassar-Diretor
presidente da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje),
professor doutor e livre-docente da Escola de Comunicações e Artes
da Universidade de São Paulo (ECA-USP) – Fonte: Correio Braziliense

