Para
ela, é impossível que a gestão avance com a continuidade deles, na maioria
petistas, e esclarece que seu rompimento não foi motivado por busca de espaço.
Depois de
deixar a base de apoio ao governo Rodrigo Rollemberg (PSB), a presidente da
Câmara Legislativa, Celina Leão (PDT), tem seus alvos, os comissionados do
último governo, presentes em todo os órgãos, segundo ela. Para ela, é
impossível que a gestão avance com a continuidade deles, na maioria petistas, e
esclarece que seu rompimento não foi motivado por busca de espaço.
“O
problema não são os cargos, mas sim a gestão”, disse. A distrital reclama
também da criminalização do Legislativo, partida do governo. “Todas as vezes
que a Câmara se posicionou de forma independente, o que ouvimos, por parte da
Casa Civil principalmente, foi que eles não fariam loteamento do governo. Os
distritais nunca pediram isso. Então, era uma tentativa de desmoralizar a
Câmara Legislativa”, afirmou. Ela nega que exista turbulência dentro do PDT,
após a decisão tomada na semana passada. “É uma tentativa de tirar a crise do
Buriti e mandar para o PDT”, ironizou.
Com
essa nova configuração da Câmara Legislativa, o governo conseguirá aprovar os
projetos de aumento de impostos?
Na minha
visão, não muda nada. A minha posição de independência não é algo que vá
atrapalhá-lo. Ele tem toda a condição de fazer a articulação política
necessária para a aprovação desses projetos. Eu não serei um impedimento ou
alguém que vá criar dificuldades, até porque meu papel não é esse. Sempre falei
que entendo o tamanho da minha responsabilidade com a cidade.
A
senhora era apontada como uma articuladora importante do governo. O que precisa
ser feito para manter o diálogo com o Legislativo?
O
governador precisa conversar com muita transparência, tratar os deputados com
muito respeito. Essa é uma das reclamações dos deputados. Eu acredito que houve
um processo de tentar criminalizar a classe política do Distrito Federal. Algo
muito negativo. Colocações feitas contra a classe política não eram, nem são,
verdadeiras. Até porque a Câmara sempre se mostrou muito à altura de resolver
os problemas da cidade. Quando havia agendas sérias, chamamos sessões na
sexta-feira. Isso nunca aconteceu antes, mas fizemos, pois o projeto visava
pagar professores. Sempre respondemos a altura, porque é um poder que tem de
representar a vontade da população. Quando se fala em temas mais polêmicos,
como aumento de imposto, tentamos manter o equilíbrio entre o que é realmente
necessário para o Estado se manter de pé sem afetar o bolso do contribuinte. A
Câmara não tem que falar “sim” para o governador em todos os momentos. Mesmo
sendo uma defensora do projeto de governo, eu disse “não” junto com a Câmara,
por não ser a vontade da população, por não entender que fosse o momento. Foram
projetos como o aumento do IPTU, da extinção das administrações. É
absolutamente normal sentir a vontade da população. Agora, eu acho que o
governador Rodrigo Rollemberg tem que melhorar o diálogo, o trato com os
deputados, de se comprometer em resolver alguns problemas da cidade. Temos
deputados que são ligados a determinadas áreas e pedem soluções. Quando um
deputado de Sobradinho pede uma ponte para a cidade, isso não tem que ser
entendido como um pedido do parlamentar, mas sim da sociedade.
O
governador não tinha uma equipe própria formada, para insistir em manter
petistas?
Quando se
aposta em um novo projeto, você quer a mudança. Quando reclamamos que cargos
estratégicos estão com petistas, queremos dizer que esse projeto não deu certo.
A gestão que passou foi marcada por corrupção, afundou os cofres públicos e não
deu certo. Pedir mudança é um recado muito claro que estamos mandando. A gente
percebe também, sempre coloquei isso de maneira muito clara, que existe um
secretário que quer estar à frente das decisões reservadas apenas ao
governador. Isso é muito ruim. Não se pode ter em nenhuma gestão alguém que
seja mais forte que o chefe do Executivo. Não se pode deixar perder a força da imagem,
até porque política é feita de gestos. Acho que uma sequência de erros
aconteceu. A estratégia de isolar o governador da classe política e da
população foi horrível. Precisamos de secretários técnicos, mas também de nomes
com prática na gestão. É claro que temos excelentes secretários, capacitados, a
fim de ajudar, de resolver, mas tem muita coisa que desde o começo foi modelada
errado. O governador foi sendo distanciado desde o período de transição, que
era comandado por só uma pessoa. Só um grupo se tornou governo.
Rollemberg precisa refletir sobre isso rapidamente. São erros que prestigiam a
gestão do PT. O pior é ver que essas pessoas estão dentro do centro de comando
do governo e criticando o próprio governo no plenário. Antes de sair da base, eu
dei um aviso claro, me posicionei como presidente. Lembrei que existe gente que
participou do outro governo em várias secretarias. . O problema é que ninguém
tinha coragem de falar. Eu fui a voz de muita gente. Agora, respeito muito o
Rodrigo, que é uma pessoa muito bem intencionada, quer o bem de Brasília, pegou
a cidade em uma dificuldade financeira muito grande. Isso não pode ser
desprezado, mas eu acho que é preciso um despertar.
Quando
a senhora fala de criminalização da classe política, é algo que parte do
Executivo?
Sim.
Todas as vezes que a Câmara se posicionou de forma independente, o que ouvimos,
por parte da Casa Civil principalmente, foi que eles não fariam loteamento do
governo. Os distritais nunca pediram loteamento. Era uma tentativa de desmoralizar
a Câmara Legislativa. Uma demonstração clara disso foi a questão das
administrações. Fizemos audiências públicas e quem esteve lá foi a sociedade,
reivindicando, falando que não aceitava a extinção, que as administrações foram
conquistadas com muita luta e contribuíram para melhorias. Foi possível
perceber que a medida não tinha aprovação e aí recebemos por parte do Poder
Executivo a acusação de que seria uma tentativa de manter as estruturas. É
muita irresponsabilidade. Não estamos brincando de ser deputado. Todo mundo que
está na Câmara tem uma história. Bons ou ruins, foram aprovados pelas ruas.
Então não dá para ouvir esse tipo de discurso. A Câmara Legislativa tem
inaugurado uma nova forma de fazer política, tem sido bem mais altiva, e sem depreciar
o Poder Executivo.
Como
está sendo a aceitação do PDT à sua saída da base?
Meu
partido foi muito solidário conosco. Tive um apoio muito importante. Conversei
com os senadores Cristovam e Reguffe. Eu entendo que o Reguffe sempre manteve
uma posição de independência e teve chateações grandes em alguns momentos, mas
não apenas com o Rodrigo, mas com a falta de compromisso de parcelas do
governo com o eleitor. Ele sempre foi uma pessoa que honrou as propostas de
campanha e pediu que o governo não aumentasse os impostos acima da inflação e
pediu a retirada dos tributos de remédios. Isso não aconteceu e o Reguffe nunca
escondeu essa insatisfação. Ele me ligou dizendo que respeitava minha opção e
sempre foi uma pessoa que dava muita atenção ao seu eleitor. Já a fala do
senador Cristovam eu acho que foi em um momento de emoção. Respeito muito a
figura dele. Vamos conversar amanhã (hoje). O que eu percebo é uma tentativa de
tirar a crise do Buriti e mandar para o PDT. Mas nós estamos unidos, porque o
partido sempre vai se respeitar. Se ficarmos na independência eu, Reguffe e
Cristovam, enquanto o restante quiser ficar na base, nós entendemos. Essa crise
não é nossa, é do outro lado da rua.
Seria
mais difícil deixar de apoiar o governo em caso de avaliação mais positiva?
Seria
exatamente a mesma, caso eu não concordasse. O que a gente percebe é que, se o
governo estivesse acertando nos pontos que eu tenho colocado com toda a
franqueza e que eram seus compromissos, estaria com uma avaliação mais positiva
e não estaria errando. É uma situação grave e todo mundo concorda que é grave.
Eu fui muito importante na campanha do Rodrigo, muito mesmo. Fui muito leal. Eu
fui a única deputada eleita que trabalhei na campanha dele. Era só eu que fazia
as defesas dele na tribuna da Câmara, que ajudava nos projetos. Quando se
percebe tudo isso se desconstruir e ficar muito longe do que o eleitorado
espera, você precisa se posicionar. Se não, as pessoas começam a pensar que
estou conivente com tudo isso.
O
governo ainda não tem uma cara? Ou a cara é essa mesmo?
Acho que
o governo ainda não conseguiu deixar uma marca ou mostrar qual a marca que quer
deixar. É uma grande missão. Ele não consegue deixar por conta da crise que
recebeu. Por exemplo, o Agnelo queria deixar uma marca na saúde, mas ele sabia
desde o primeiro ano o que queria. Não conseguiu, mas já tinha a meta.
Cristovam quis deixar a marca da educação, o Arruda, das obras, o Roriz, da
habitação. Cada governador tinha uma meta. Sempre perguntei qual seria nossa
meta. Não podemos ser o governo que paga servidor, porque isso é nossa
obrigação, é o básico.
Se há
tantos petistas no governo, como volta e meia governador e secretários reclamam
da herança maldita? Isso faz sentido?
(risos) É
uma coisa de maluco. É complicado porque a minha percepção é que essas pessoas
estão dentro do governo para que ele não dê certo. O secretário de Educação deu
entrevista dizendo que pagou as creches, mas foi desmentido por elas. No
entanto, o ordenador de despesas foi coordenador de campanha da Rejane Pitanga.
Ele desmoralizou o secretário. Se eu fosse governador, ele seria exonerado no
dia seguinte, nem teria ficado no meu governo. Rejane é uma petista histórica.
Eu respeito o trabalho deles, mas eles não ganharam a eleição. Acho que essas
pessoas queriam ficar no projeto, que não ganhou, mas eles continuaram. E eles
vão defender o próprio ponto de vista toda vez que vier à tona, quando
perguntarem “quem assinou?”. Para fazer um limpa, abrir uma auditoria, dar uma
olhada em tudo que aconteceu, não havia condições de manter todas essas pessoas
lá.
A
senhora pensa em uma candidatura majoritária para 2018?
Não
(risos). Não penso nisso. Isso foi uma notícia plantada por palacianos, em uma
tentativa de desmoralizar nossa relação com o Rodrigo. Quem é o maluco que se
candidata quatro anos antes da eleição? Até para descredenciar a gente. É muito
mais fácil dizer isso do que tirarem os petistas do governo. O problema não sou
eu, mas eles. É uma loucura isso, é até engraçado.
Fonte: Da
redação do Jornal de Brasília - Com Daniel
Cardozo
